Tarifas de importação são mais destrutivas do que se imagina

Por causa das redes interligadas, as taxas podem produzir não problemas passageiros, mas poderosos efeitos colaterais internacionais

Şebnem Kalemli-Özcan

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Tarifas de importação, antes vistas como instrumentos para proteger as indústrias nacionais, agora são usadas na geopolítica (Foto:
Drew Angerer/Getty Images/Project Syndicate)
Tarifas de importação, antes vistas como instrumentos para proteger as indústrias nacionais, agora são usadas na geopolítica (Foto: Drew Angerer/Getty Images/Project Syndicate)

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PROVIDENCE – As tarifas de importação, antes vistas principalmente como instrumentos para proteger as indústrias nacionais sob o pretexto de melhorar as balanças comerciais, agora estão sendo usadas para enfraquecer rivais geopolíticos e criar incerteza estratégica. Seus novos usos se estendem até mesmo a coagir aliados a ceder território, com o governo Trump ameaçando oito países europeus com tarifas adicionais na tentativa de obter o controle da Groenlândia – tudo sob a bandeira da segurança econômica nacional.

Contudo, grande parte do debate sobre tarifas, incluindo as ameaças de Trump à Groenlândia, se baseia em estruturas econômicas desatualizadas que ignoram um traço que define a economia global moderna: redes de produção e finanças profundamente interligadas.

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Graças a essas redes, as tarifas podem produzir resultados muito diferentes dos previstos pelos modelos econômicos tradicionais. Em vez de causar distorções limitadas e temporárias, elas podem gerar inflação persistente, perdas significativas de produção e poderosos efeitos colaterais internacionais, com a incerteza relacionada à ameaça de tarifas se espalhando para o âmbito financeiro – efeitos que podem levar algum tempo para se concretizar.

A razão é simples: na economia atual, as tarifas não são só um choque de demanda, mas também de oferta. Embora ainda seja verdade que as tarifas desviem a demanda para bens produzidos no mercado doméstico, a produção interna agora depende fortemente de insumos intermediários importados.

Desde componentes de fabricação até energia, logística e serviços empresariais, as empresas adquirem insumos globalmente e dependem de complexas cadeias de abastecimento e redes financeiras transfronteiriças. Quando as tarifas aumentam o custo dos insumos importados, sobem diretamente os custos marginais das empresas e os de fazer negócio em qualquer lugar.

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Esses custos mais elevados se propagam então por todos os setores e países por meio das redes de produção. Indústrias que parecem estar apenas indiretamente expostas – como serviços ou manufatura a jusante – podem sofrer aumentos significativos de custos e pressões de preços.

Como resultado, as tarifas distorcem não só o que os consumidores compram, mas também a forma como as empresas produzem e investem. À medida que a produção diminui, a produtividade cai e surgem pressões inflacionárias muito além dos setores visados inicialmente.

Pior ainda, essa inflação pode perdurar. Em muitos setores, as empresas alteram os preços com pouca frequência, devido a contratos preexistentes, custos de ajustamento ou considerações estratégicas. Esses casos de rigidez nominal significam que os choques de custos não se traduzem em alterações imediatas nos preços, mas sim se desenrolam de modo gradual.

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E, numa economia multissetorial com ligações entre insumos e produtos, esse ajuste gradual gera efeitos persistentes, porque as mudanças de preços passadas continuam a afetar a inflação atual. Mesmo depois que o choque tarifário desaparece, seus efeitos podem permanecer, à medida que os custos mais altos se refletem na rede de produção.

Este mecanismo altera fundamentalmente o compromisso entre inflação e produção que os bancos centrais enfrentam. A inflação não aumenta como um salto pontual, mas como um processo prolongado. Para contê-la, a política monetária deve permanecer restritiva por mais tempo, amplificando perdas de produção.

A economia pode, assim, passar por uma estagflação – inflação crescente acompanhada de queda na produção – mesmo quando as tarifas são temporárias. Além disso, esse resultado não requer hipóteses extremas sobre substituição de importações (se ou quando um país substitui bens estrangeiros por bens produzidos internamente).

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Mesmo que as empresas possam mudar de fornecedores com o tempo, as complementaridades nas redes de produção garantem que o ajuste às tarifas temporárias será lento e caro.

As tarifas também remodelam a dinâmica financeira global. Normalmente, em economias com mercados financeiros incompletos, as taxas de câmbio respondem não só aos preços relativos, mas também às transferências de riqueza induzidas pela política comercial.

Quando uma grande economia impõe tarifas, sua moeda se valoriza, refletindo mudança na procura global e transferência do poder de compra para o país que impõe as tarifas. Embora a balança comercial possa melhorar inicialmente, a valorização da taxa de câmbio implica déficits comerciais sustentados ao longo do tempo.

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Por que razão, então, o dólar se desvalorizou desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, lançou sua guerra tarifária global em abril passado? A resposta é que o impacto econômico das tarifas não se limita à sua implementação.

Tarifas anunciadas, mas não implementadas, podem ser igualmente perturbadoras, e a incerteza adicional em relação à política comercial e econômica pode enfraquecer a moeda do país que as impõe, como aconteceu nos EUA ao longo do último ano.

Quando empresas e famílias antecipam futuras barreiras comerciais, ajustam imediatamente seu comportamento, antecipando importações, reavaliando moedas e revendo planos de consumo e investimento.

Se os intermediários financeiros exigirem poupanças adicionais por precaução e prêmios de risco mais elevados, o dólar sofre depreciação mesmo com tarifas pequenas ou meramente ameaçadas.

Esses ajustes impulsionados pelas expectativas podem gerar pressões deflacionárias e perdas de produção antes mesmo da imposição de quaisquer tarifas.

Assim, a própria incerteza vira um canal de transmissão poderoso para a política comercial, ampliando a volatilidade nos mercados de bens e financeiros.

Dada essa dinâmica, três lições se destacam. Primeiro, a política comercial não pode ser avaliada à parte das redes de produção. Modelos que ignoram ligações de insumos e produtos dentro das redes globais de produção e cadeias de abastecimento subestimam sistematicamente as perdas de produção e não conseguem capturar a persistência da inflação.

Segundo, a política monetária tem um papel decisivo na definição dos resultados das tarifas. Uma política monetária passiva permite que pressões inflacionárias persistam, enquanto um aperto agressivo aprofunda as recessões. Além disso, as respostas dos bancos centrais estrangeiros são tão importantes quanto as dos bancos centrais nacionais na determinação dos resultados globais.

Terceiro, num mundo de cadeias de valor globais, as tarifas não são uma ferramenta política localizada. São um choque macroeconômico e financeiro global, independentemente do seu objetivo, com efeitos que se espalham por fronteiras, setores e tempo por meio de redes globais e expectativas dos mercados financeiros.

À medida que os governos reconsideram o uso de tarifas em busca da segurança econômica nacional ou da influência geopolítica, devem reconhecer que os custos se estendem muito além das indústrias e países visados, criando riscos para seus próprios países.

Na economia interligada de hoje, as tarifas e as ameaças tarifárias não são instrumentos precisos com efeitos previsíveis. São uma força contundente e desestabilizadora que pode facilmente gerar estagflação mundial se introduzida sem levar em conta a estrutura subjacente da produção global.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

Şebnem Kalemli-Özcan, professora de economia na Brown University e diretora do Global Linkages Lab, é ex-conselheira-sênior de políticas do Fundo Monetário Internacional e ex-economista-chefe para o Oriente Médio e Norte da África do Banco Mundial.

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Şebnem Kalemli-Özcan

Professora de economia na Brown University, diretora do Global Linkages Lab, ex-conselheira-sênior de políticas do Fundo Monetário Internacional e ex-economista-chefe para o Oriente Médio e Norte da África do Banco Mundial.