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BERKELEY—Após anos de preparação, os três órgãos governamentais da UE – o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia – estão enfim prontos para iniciar negociações formais sobre o euro digital. Quando o fizerem, um projeto outrora concebido como uma modernização tecnocrática da infraestrutura monetária se tornará um dos pontos mais contestados politicamente na agenda do bloco.
A Comissão e o Banco Central Europeu (BCE) descreveram o euro digital como um esforço para adaptar a moeda fiduciária à era digital. Esse enquadramento, embora incompleto, levou o projeto até a fase de preparação técnica. Não vai levá-lo muito mais longe.
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O euro digital não é só uma atualização técnica. É um projeto político na longa tradição da construção institucional europeia, e seu sucesso ou fracasso dependerá, em última análise, menos da engenharia do que da disposição dos líderes europeus em defendê-lo.
É provável que surja resistência de várias frentes. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, adotou uma postura abertamente hostil em relação às moedas digitais dos bancos centrais, ao mesmo tempo em que promove stablecoins privadas denominadas em dólares.
A Rússia tratará quase certamente o euro digital como outra frente em sua guerra híbrida contra a Europa. E dentro da própria UE, os eurocéticos vão usar o projeto como prova de excessos tecnocráticos e transformá-lo num ímã para teorias da conspiração.
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Os decisores políticos europeus passaram anos lançando as bases técnicas do euro digital. Devem agora abordar a luta política sobre seu futuro com o mesmo rigor.
Durante quase 80 anos, a Europa tem perseguido o que o falecido historiador britânico Tony Judt descreveu como a construção de uma capacidade coletiva para compensar as fraquezas individuais.
A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o mercado comum, a moeda única, o Acordo de Schengen e a ampliação da UE – cada um foi um ato de vontade política que ajudou a transformar a catástrofe da Segunda Guerra Mundial num sistema duradouro de instituições partilhadas. Em conjunto, estes esforços constituem uma das experiências políticas mais bem-sucedidas da história moderna.
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Contudo, o projeto de integração europeu, com décadas de existência, está sob imensa pressão. À medida que a Rússia continua travando uma guerra contra as democracias liberais da Europa, as garantias de segurança americanas já não podem ser tomadas como certas. Porém, a China está remodelando o comércio global de formas que representam uma ameaça existencial à base industrial da Europa.
Como argumentou o historiador alemão Kiran Klaus Patel, a autoimagem da UE tem frequentemente ultrapassado suas realizações efetivas. Na prática, a integração tem sido desigual, alimentando ressentimentos que partidos de extrema-direita em todo o continente têm explorado para ganhar poder e minar o projeto europeu.
Para muitos europeus, a “Europa” é vista menos como uma comunidade política e mais como uma abstração distante – uma fonte de regulamentos, restrições e siglas que raramente melhoram a vida cotidiana.
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As liberdades que a integração europeia proporcionou são reais, mas facilmente tomadas como garantidas. Os custos, em contrapartida, são concretos e fáceis de rejeitar. Qualquer projeto político sustentado pelo consenso das elites e pelo direito dos tratados seria inerentemente frágil.
No cerne desta fragilidade, está o que o falecido filósofo alemão Jürgen Habermas descreveu o “fascínio da tecnocracia”: a tentação de fazer avançar a integração europeia por meio de mecanismos que contornam os públicos democráticos em cujo nome ela é buscada.
O euro digital, concebido por especialistas em Frankfurt e Bruxelas, corre o risco de cair na mesma armadilha, porque decisões tecnicamente sólidas, mas mal compreendidas, são alvos fáceis para ataques políticos.
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Uma pesquisa recente do Bundesbank destacou o problema, revelando que só 42% dos alemães tinham ouvido falar do euro digital e que apenas um quarto desses conseguia explicar com precisão o que é.
Habermas, no entanto, apontou para uma solução: uma identidade europeia partilhada, baseada numa participação ampla em instituições comuns. O euro digital poderia proporcionar precisamente esse tipo de experiência partilhada. A maioria das formas de integração europeia, desde a harmonização regulamentar até às regras fiscais, permanece invisível para os cidadãos comuns.
Mas uma moeda digital permitiria que centenas de milhões de europeus – a maioria dos quais pouco sabe sobre os mecanismos institucionais da integração – interagissem diariamente com o mesmo sistema de pagamentos, usando a mesma interface, onde quer que se encontrem na zona do euro.
O mercado único se mostrou notavelmente fácil de dominar pelas empresas americanas. Cerca de dois terços das transações com cartão de crédito da zona do euro dependem da Visa e da Mastercard, e 13 dos seus 21 membros não dispõem de uma alternativa nacional.
Cada transação acarreta comissões que funcionam como um imposto privado sobre o comércio europeu. O atual impulso da UE para a autonomia estratégica na defesa, nos semicondutores e na infraestrutura de nuvem pouco significa se não se estender aos sistemas de pagamentos que sustentam a economia europeia.
Para uma geração que viveu a integração principalmente como um conjunto de restrições, o euro digital poderia se tornar uma instituição europeia altamente visível que facilita a vida. Poucas iniciativas na agenda europeia poderiam demonstrar os benefícios tangíveis da integração e da cooperação transfronteiriça de forma tão eficaz.
Se os próximos anos restabelecerão o projeto europeu para um mundo radicalmente reconfigurado ou marcarão o início de uma fragmentação mais profunda é algo que pode muito bem depender do desenrolar do debate sobre o euro digital.
Uma UE unida continuaria a ser uma potência continental com um compromisso único com a democracia liberal, os direitos humanos e um futuro sustentável, enquanto uma Europa fragmentada seria muito mais vulnerável à coação externa.
O BCE não pode defender politicamente o euro digital. A Comissão Europeia, os governos nacionais e o Parlamento Europeu devem fazê-lo. E devem ser honestos sobre o que defendem: o euro digital não é só um esforço para modernizar o sistema de pagamentos da zona do euro; é uma instituição europeia que por acaso tem a forma de um sistema de pagamentos.
Os decisores políticos devem defender essa causa de forma clara e veemente. O euro digital não deve se tornar mais um artefato tecnocrático, imposto de cima e alvo de desconfiança generalizada. Deve ser uma expressão viva das mais elevadas ambições da Europa.
Tradução por Fabrício Calado Moreira
Copyright: Project Syndicate, 2026.