Como os países podem reagir às importações chinesas sem afetar comércio global

A máquina de exportação da China é um alerta para os países, mas as barreiras à importação são a resposta errada

Dani Rodrik

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Exportações da China crescem, e mundo se pergunta como reagir (Foto: Kevin Frayer/Getty Images/Project Syndicate)
Exportações da China crescem, e mundo se pergunta como reagir (Foto: Kevin Frayer/Getty Images/Project Syndicate)

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CAMBRIDGE – À medida que o superávit comercial da China cresce, com suas exportações de manufaturados dominando cada vez mais os mercados globais, o resto do mundo se debate com a questão de como responder. Os países devem erguer barreiras comerciais contra a China? Tentar se desvincular da China, repatriando a manufatura e construindo cadeias de abastecimento nacionais? Imitar sua estratégia de impulsionar a manufatura por meio de políticas industriais?

Os formuladores de políticas devem começar perguntando por que as exportações da China são um problema. Afinal, as importações baratas simbolizam os ganhos do comércio. Em áreas importantes, como energias renováveis, a inovação e a capacidade de produção chinesas produziram benefícios climáticos significativos – um bem público global. Além disso, os déficits comerciais bilaterais por si só são pouco preocupantes. Grandes desequilíbrios comerciais gerais podem ser um problema, mas são mais bem tratados com políticas macroeconômicas do que com estratégias setoriais voltadas para a China.

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Ainda assim, há três argumentos razoáveis para explicar por que as exportações da China são problemáticas. Eles focam em considerações de segurança nacional, impacto sobre a inovação e perda de empregos. Cada um desses motivos exige uma estratégia separada. Contudo, como os atuais formuladores de políticas muitas vezes os confundem, obtemos resultados ruins em termos de políticas.

Comecemos pela segurança nacional. Os líderes dos EUA e da Europa cada vez mais veem a China como um adversário e uma ameaça geopolítica.

Ou seja, há uma justificativa válida para políticas comerciais e industriais que protejam interesses estratégicos e de defesa, como a redução da dependência de suprimentos militares críticos e a proteção de tecnologias sensíveis.

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Quando tais medidas são implementadas, os governos têm a obrigação de mostrar aos cidadãos – bem como à China, para que as tensões internacionais não sejam ampliadas – que suas políticas são adequadamente direcionadas a bens, serviços e tecnologias relacionados à segurança nacional e que são bem calibradas para evitar exceder seu objetivo.

Aqui, a estratégia de “quintal pequeno, cerca alta” articulada por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional do presidente Joe Biden, continua sendo a abordagem correta. Aplicada com seriedade, essa doutrina garantiria disciplina no uso de medidas comerciais para fins de segurança nacional. Também incentivaria uma troca mútua de explicações e diálogo, evitando assim uma escalada prejudicial.

Em seguida, pegue-se o caso da inovação. A preocupação aqui é que as exportações da China possam minar as capacidades inovadoras dos países importadores, reduzindo as perspectivas de prosperidade futura.

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Embora a manufatura empregue uma parcela cada vez menor da força de trabalho das economias avançadas, ela continua sendo uma fonte desproporcionalmente grande de P&D e transbordamento de inovação. Quando essas atividades são substituídas pelas importações chinesas, os ganhos do comércio são reduzidos ou mesmo transformados em perdas.

Porém, abordar esse problema também requer uma resposta calibrada e diferenciada. As políticas devem focar nos segmentos mais avançados da manufatura, onde as perspectivas para novas tecnologias e externalidades de inovação são maiores.

Não faz sentido proteger bens de consumo ou indústrias estabelecidas que usam tecnologias padrão. No setor automotivo, por exemplo, EUA e Alemanha devem se concentrar na próxima geração de veículos elétricos, em vez de nos veículos elétricos de mercado de massa que a China se tornou tão boa em produzir.

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A maneira correta de combater as importações chinesas em áreas tecnologicamente sofisticadas é implementar políticas industriais modernas que incentivem de modo direto o investimento e a inovação por meio do fornecimento de insumos públicos, coordenação e subsídios, quando necessário.

Na prática, outros países devem imitar as próprias políticas industriais da China, embora com adaptações adequadas aos contextos econômicos, políticos e institucionais locais. A proteção às importações é, na melhor das hipóteses, um escudo temporário atrás do qual essas políticas podem produzir seus frutos ao longo do tempo.

Por fim, vejamos o caso dos empregos. Há uma preocupação legítima de que as importações chinesas tenham efeitos adversos sobre o emprego, particularmente em regiões menos desenvolvidas onde se concentram indústrias concorrentes (o chamado choque chinês).

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Essa preocupação vai além das considerações tradicionais de equidade. Áreas que sofrem perdas de empregos também tendem a apresentar disfunções sociais e políticas: aumento das taxas de criminalidade, desintegração familiar, dependência de opiáceos, mortalidade e apoio ao populismo autoritário.

No entanto, o foco nos empregos não justifica o apoio à indústria manufatureira e à proteção das importações. Na verdade, é difícil imaginar como os empregos perdidos no setor de manufatura poderão ser substituídos, independentemente do grau de repatriação alcançado.

Por quase uma década, os EUA buscaram a revitalização da indústria manufatureira, de maneiras variadas, por meio de tarifas de importação (no primeiro e no atual mandato do presidente Donald Trump) e políticas industriais (sob Biden).

Contudo, a participação da indústria manufatureira no emprego continuou a diminuir. Os países europeus têm experimentado tendências semelhantes, embora a partir de pontos de partida diferentes.

Um crítico poderia argumentar que uma postura mais agressiva em relação às importações chinesas poderia reverter essa tendência. Mas esse otimismo é prejudicado pelo fato de que a própria China vem perdendo dezenas de milhões de empregos na indústria, mesmo continuando a dominar a produção global.

Políticas mais agressivas podem trazer de volta parte da indústria, mas poucos empregos serão criados como resultado. A automação na indústria não pode mais ser revertida.

Bons empregos são essenciais para restaurar a saúde de nossa classe média. Uma estratégia de bons empregos deve necessariamente se concentrar em serviços como cuidados, varejo, hotelaria e trabalho temporário, uma vez que estes continuarão a absorver a maior parte do emprego futuro.

Como argumento em meu novo livro, isso pode ser alcançado por meio de uma combinação de iniciativas de desenvolvimento regional baseadas em parcerias entre órgãos governamentais e empresas, e investimentos adicionais em tecnologias favoráveis à mão de obra que aumentam e expandem a gama de tarefas realizadas por trabalhadores sem formação superior.

Ambas as vertentes dessa estratégia exigem ação governamental, mas de um tipo muito diferente da proteção da indústria nacional.

A máquina de exportação da China é um alerta para os formuladores de políticas econômicas do mundo todo. Mas as barreiras à importação são a resposta errada e desviam a atenção das prioridades reais.

As políticas devem ser orientadas por objetivos econômicos, sociais e de segurança nacional articulados de maneira clara. Em geral, isso exige respostas direcionadas, com foco em segmentos relativamente restritos da indústria manufatureira. E, no caso dos empregos, exige uma reconsideração do papel do setor de manufatura na geração de prosperidade econômica.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

Dani Rodrik, professor de economia política internacional na Harvard Kennedy School, é ex-presidente da Associação Econômica Internacional e autor de Shared Prosperity in a Fractured World: A New Economics for the Middle Class, the Global Poor, and Our Climate (“Prosperidade compartilhada em um mundo fraturado: Uma nova economia para a classe média, os pobres globais e nosso clima”, em tradução livre do inglês) (Princeton University Press, 2025).

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Dani Rodrik

Professor de economia política internacional na Harvard Kennedy School e ex-presidente da Associação Econômica Internacional