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NEW HAVEN – Há alguns anos, tive o pressentimento de que a cultura de longa data da China de debates acalorados sobre política econômica iria desaparecer. E agora isso aconteceu. Essa é a mensagem transmitida pelo triste fim do Fórum de Desenvolvimento da China (China Development Forum – CDF, na sigla em inglês), encontro do qual tive o privilégio de participar desde sua criação.
Pelo menos até este ano. Depois de participar em 25 CDFs consecutivos – o que faz de mim o delegado estrangeiro com mais tempo de participação –, não fui convidado em 2026. Os organizadores me enviaram, tardiamente, uma nota formal agradecendo pela minha participação ao longo dos anos, juntamente com seus votos de “um Ano do Cavalo muito saudável, feliz e próspero”.
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Fiquei desapontado, mas dificilmente chocado. Em 2024, fui informado de que, embora ainda pudesse participar no CDF, não me seria permitido falar em nenhuma sessão pública.
Minhas opiniões sobre a China (e especialmente sobre Hong Kong) tinham se tornado mais cautelosas, e me foi dito que meus comentários sobre a economia chinesa tinham “gerado escrutínio intenso e até controvérsia” entre a imprensa chinesa e estrangeira, o que lhes sugeriu que quaisquer comentários que eu fizesse no CDF seriam “mal interpretados e até mesmo explorados de forma sensacionalista” pelos meios de comunicação social. Os organizadores foram explícitos ao afirmar que isso não seria do meu interesse – nem do da China.
Ainda assim, participei no fórum como espectador em 2024 e de novo no ano passado. Como escrevi na época, o objetivo era continuar a comparecer e testemunhar o destino do CDF.
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Embora não tenha conseguido fazê-lo este ano, meus amigos na China me deram um resumo de como foi o evento. O CDF tem agora um dia a menos, tendo sido reduzido de três para dois dias em 2024, e o primeiro-ministro Li Qiang fez um discurso de abertura pelo terceiro ano consecutivo, em vez de organizar um diálogo interativo no final.
Uma cópia pirata da agenda revela 13 seminários com duração média de 90 minutos, contando com um total de 117 oradores. Tendo em conta as falas de abertura dos moderadores das sessões e os ajustes de tempo de cortesia para oito oradores principais, quatro laureados com o Prêmio Nobel e um discurso especial do CEO da Apple, Tim Cook, isso se resume a uma média de cerca de seis minutos por orador. Isso torna quase impossível dizer algo de significativo e deixa pouco espaço para perguntas, quanto mais para debate.
Estas sessões em ritmo acelerado dificilmente fizeram justiça ao tema importante do CDF deste ano: como garantir um desenvolvimento de alta qualidade e criar novas oportunidades à medida que a China inicia seu 15.º Plano Quinquenal.
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O início de um novo plano é um momento crucial para a liderança chinesa ponderar — e, sim, debater — as oportunidades e desafios estratégicos que se avizinham. Infelizmente, o CDF, em sua forma atual, está mal equipado para cumprir essa função crítica.
Uma agenda fragmentada, repleta de contribuições com a duração de frases de efeito de uma multidão de oradores — muitos dos quais sabem pouco sobre os temas sobre os quais foram designados a opinar — é incapaz de fomentar debate sobre qualquer coisa, especialmente um novo plano quinquenal.
Na minha opinião, se é que ela conta (claramente não muito na China hoje), o 15.º Plano Quinquenal é decepcionante, pois basicamente repete o 14.º Plano Quinquenal que acaba de terminar.
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A principal prioridade continua a ser novas forças produtivas de alta qualidade, especialmente tecnologia avançada. Com a demanda interna em declínio, isto deixa a economia chinesa fortemente dependente das exportações, numa época em que a demanda externa enfrenta fortes ventos contrários, devido a tensões geopolíticas e ao aumento do protecionismo.
Contudo, o novo plano se limita a palavras vãs em relação ao consumidor chinês, há tempos o candidato mais óbvio para preencher o vazio deixado pela fraqueza do mercado imobiliário pós-crise e pelo excesso de investimento nos setores público e privado.
No que diz respeito ao reequilíbrio impulsionado pelo consumo, os líderes chineses no topo continuam a falar muito, mas não estão dispostos a agir de acordo.
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Em vez de abordar os excessos da poupança preventiva motivada pelo medo, que trava o consumo discricionário no longo prazo, o novo plano, como o antigo, promove campanhas de troca de automóveis, eletrodomésticos e outros bens duradouros que simplesmente se servem da procura que, de qualquer forma, teria sido satisfeita. Se eu estivesse no CDF este ano, teria levantado essa questão pelo enésimo ano consecutivo.
Será rancor meu porque não fui convidado este ano? É mais uma sensação de desilusão diante da negação, por parte do governo chinês, de um problema grave de crescimento e de sua fixação em reprimir o debate em favor das “boas histórias da China”.
Sempre me lembrarei da minha primeira participação no CDF, em 2001. O então premiê, Zhu Rongji, tinha lançado a conferência um ano antes como uma plataforma de interação e debate entre ministros do governo chinês, acadêmicos (estrangeiros e nacionais) e alguns executivos empresariais.
Isso sublinhou a genialidade de Zhu como pensador estratégico: se os líderes seniores da China não conseguissem lidar com feedback difícil imediatamente após a conclusão do Congresso Nacional do Povo, a maior reunião política do ano, a lógica era que não mereciam seus lugares no Conselho de Estado.
Naquela ocasião, tive longas discussões com Zhu e seu sucessor, Wen Jiabao, sobre a necessidade imperativa de um reequilíbrio impulsionado pelo consumo. Fiel ao espírito original do CDF, nem sempre concordávamos. Mas nunca houve problema em ser franco e aberto ao expressar discordâncias.
Os líderes chineses reconheciam a importância do debate construtivo. Infelizmente, isso foi antes, e não agora. O resultado é que a China vai sofrer.
Tradução por Fabrício Calado Moreira
Direitos autorais: Project Syndicate, 2026.
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