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LONDRES – “A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder a ela”, exclama Lord Henry Wotton no romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Os chilenos levaram esse conselho a sério.
Há quatro anos, eles foram tentados pela promessa de uma “refundação” progressista do Chile sob o comando de Gabriel Boric, ex-líder estudantil. Os chilenos cederam à tentação e o elegeram o presidente mais jovem e mais à esquerda desde o retorno do país à democracia em 1990.
A imigração ilegal, o aumento da criminalidade e uma economia em baixa sob Boric levaram os eleitores a outra tentação: a do ex-congressista de extrema-direita José Antonio Kast, cujas promessas de expulsar imigrantes e reduzir impostos ecoam as do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os chilenos cederam à tentação mais uma vez, elegendo Kast presidente com um número recorde de votos.
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O governo de Boric foi decepcionante até mesmo para seus próprios apoiadores. Seu plano para uma nova constituição produziu um rascunho tão radicalmente “politicamente correto” que quase dois terços dos eleitores o rejeitaram num referendo.
Quando os jovens ministros da Frente Ampla, do próprio Boric, se mostraram em sua maioria incompetentes, os social-democratas do Chile vieram em socorro, fornecendo uma equipe de mãos seguras. Ainda assim, com exceção de uma reforma previdenciária no início de 2025, o governo pode reivindicar poucas realizações.
Não é de se admirar, então, que os eleitores tenham punido a coalizão de Boric nas urnas. Jeannette Jara, sua candidata e ex-ministra comunista do gabinete de Boric, obteve míseros 41,8% dos votos. Kast venceu por mais de 16 pontos percentuais – o pior resultado eleitoral da esquerda desde 1990.
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Kast também irá decepcionar? É provável que sim. Sabemos, por experiência de outros países, que populistas de direita obtêm seu apoio mais por meio de posturas identitárias do que por conquistas políticas, e as promessas de campanha de Kast parecem, em sua maioria, improváveis.
Embora Kast evite cuidadosamente usar a palavra deportação, sua promessa é remover a maioria ou todos os 337 mil migrantes sem documentos do Chile. Trump não cumpriu uma promessa semelhante, e Kast também não o fará.
O Estado chileno (incluindo o Judiciário, que na maioria dos casos deve autorizar as deportações) não tem capacidade para identificar, prender, deter, julgar e depois deportar um número tão grande de pessoas. O ex-presidente conservador Sebastián Piñera deportou menos de 7 mil pessoas quando esteve no cargo entre 2018 e 2022; o total sob Boric é ainda menor.
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A outra grande promessa de Kast é cortar US$ 6 bilhões, ou 7% do total, do orçamento do Chile. Isso também é improvável. Como na maioria dos países, a maior parte dos gastos vai para direitos como pensões e subsídios educacionais que ninguém – nem mesmo Kast – quer cortar.
Fora que, para aprovar qualquer lei no Congresso, ele precisará dos votos de políticos de centro-direita que, em tese, são a favor de menos gastos, mas, na prática, tendem a protestar sempre que os cortes afetam seus eleitores.
Se Kast não cortar gastos, ele não terá margem fiscal para reduzir os impostos sobre empresas, como prometeu fazer e como esperam seus apoiadores no mundo dos negócios. Sua promessa insensata de abolir os impostos sobre a propriedade de residências principais pode tornar a situação fiscal ainda mais difícil.
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A grande questão, e a mais importante, é se um Kast frustrado tentará cortar custos e enfraquecer os freios e contrapesos da democracia liberal – como fizeram outros líderes de extrema-direita, de Jair Bolsonaro no Brasil a Nayib Bukele em El Salvador, passando por Viktor Orbán na Hungria e Trump.
Apesar de todas as deficiências de seu governo, Boric tem sido escrupulosamente democrático. Quando a nova constituição que ele defendia foi derrotada nas urnas, Boric aceitou de modo elegante o resultado. Diferentemente de outros líderes de extrema-esquerda da América Latina, ele não hesitou em chamar Nicolás Maduro, da Venezuela, de ditador, nem em denunciar a invasão criminosa da Ucrânia por Vladimir Putin.
Kast será tão escrupulosamente democrático? Sua afirmação de que o general Augusto Pinochet, ditador do Chile de 1973 a 1990, votaria nele se estivesse vivo não é bom presságio. Tampouco o são os comentários feitos por Kast durante a campanha, sugerindo que ele não precisava do Congresso para alcançar seus objetivos e que bastaria emitir decretos (mais tarde, ele voltou atrás nessas declarações).
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Contudo, os partidos de centro-direita dos quais ele terá que depender serão uma força moderadora. Ele adotou um tom conciliador em seu discurso de vitória, prometendo um governo de acordos amplos. Ele manterá sua palavra? Será como Trump ou como a mais moderada Giorgia Meloni, da Itália? Ninguém pode ter certeza.
De uma forma ou de outra, a vitória de Kast terá consequências duradouras. Esta eleição foi uma ilustração perfeita da máxima de Yeats de que “o centro não se sustenta”.
A candidata de centro-esquerda na disputa, a altamente qualificada Carolina Tohá, perdeu para Jara por uma ampla margem nas primárias do bloco pró-governo. E a candidata de centro-direita, a altamente qualificada Evelyn Matthei, chegou às eleições gerais, mas terminou em quinto lugar.
Assim como os argentinos, americanos, britânicos e tantos outros, os chilenos não estão dispostos a apoiar candidatos discretamente competentes quando têm à disposição populistas beligerantes e agressivos.
É provável que o centro político encolha ainda mais. Ao se unirem a Boric no cargo, os social-democratas salvaram seu governo, mas corroeram seu próprio capital político. Como os liberais democratas britânicos aprenderam quando se uniram aos conservadores numa coalizão, o parceiro menor não recebe crédito pelas conquistas do governo, mas recebe toda a culpa por seus fracassos.
O mesmo acontecerá agora com as forças de centro-direita do Chile. A oferta para se juntar ao gabinete de Kast será tentadora demais para recusar. Se ele começar a brincar com as regras democráticas, eles terão que sorrir e aguentar no início. Se ele persistir, porém, eles terão de reagir, com uma briga política feia na sequência. Nenhum dos resultados renderá muito amor dos eleitores à centro-direita.
Com os tradicionais partidos centristas do Chile bastante enfraquecidos, o novo formador de opinião no Congresso será o Partido Popular de Franco Parisi, demagogo que ficou em terceiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais . Tendo cedido às tentações populistas em dois ciclos eleitorais consecutivos, os eleitores cederão ao seu próprio encanto daqui a quatro anos, espera Parisi.
Ou, tendo aprendido da maneira mais difícil que ceder à tentação só produz ressaca, os chilenos podem decidir votar num reformador discretamente competente. Essa é a esperança que renasce eternamente.
Tradução por Fabrício Calado Moreira
Andrés Velasco, ex-ministro das Finanças do Chile, é reitor da Escola de Políticas Públicas da London School of Economics and Political Science
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