Eleições americanas podem surpreender e afetar o Ibovespa

Para colocar alguns números na discussão, destacamos um estudo realizado pelos times de Análise Política e Estratégia Macro da XP sobre o impacto dos principais cenários eleitorais nos mercados por lá e por aqui

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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*Os autores fazem um agradecimento especial a Alberto Bernal, estrategista chefe global da XP Investimentos, por sua colaboração

A eleição americana está no radar dos investidores como um evento que pode trazer volatilidade até o final do ano.

Para colocar alguns números na discussão, destacamos um estudo realizado pelos times de Análise Política e Estratégia Macro da XP sobre o impacto dos principais cenários eleitorais nos mercados por lá e por aqui.

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Cenário 1: Eleição de Joe Biden (Democrata) com Congresso dividido

O cenário-base do time de Análise Política da XP é uma vitória democrata na Casa Branca e na Câmara dos Representantes, mas com os republicanos mantendo o controle do Senado.

Consideramos que seria um cenário positivo para os investimentos, já que as propostas mais arrojadas de Joe Biden teriam que ser negociadas e moderadas para ser aprovadas.

Além disso, um resultado eleitoral acirrado daria pouco espaço para que a ala mais progressista do Partido Democrata, que defende propostas como a quebra do monopólio de empresas de tecnologia ou a proibição de seguros de saúde privados, ganhe maior influência nas decisões da Casa Branca.

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Cenário 2: Eleição de Donald Trump (Republicano) com Congresso dividido

O segundo cenário com maior probabilidade de se materializar é uma continuação do atual quadro político, ou seja, Donald Trump na presidência, republicanos retendo maioria no Senado e democratas na Câmara dos Representantes, o que seria também positivo para os mercados.

A vitória de Trump significaria que não haveria novos aumentos de impostos ou mudanças relevantes no sistema de saúde, como defendido pelos democratas.

Do mesmo modo, o controle democrata da Câmara dos Representantes implicaria na moderação de propostas republicanas mais arrojadas, o que fomentaria estabilidade política.

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Nos dois cenários, apesar de uma composição setorial potencialmente diferente, esperamos reação semelhante dos mercados, com o S&P em 3.550 pontos e o Ibovespa em 115 mil ao fim de 2020. Estimamos que haveria também pouco impacto para taxa de câmbio, mantendo a expectativa de R$ 5,20 por dólar no fim do ano.

Cenário 3: Eleição de Joe Biden (Democrata) por larga margem e com Senado democrata

Esse cenário tem probabilidade menor do que os outros dois, mas é o mais adverso para os mercados.

Vale ressaltar que uma vitória democrata no Senado deve acontecer apenas se Joe Biden vencer a presidência por ampla margem, já que existe uma forte correlação entre a votação presidencial e parlamentar, num cenário de polarização.

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Não acreditamos que esse cenário deve se materializar, dado a tendência positiva, ou ao menos de estabilidade, nas variáveis de maior peso na definição da eleição, como o Covid-19 e a economia, que devem favorecer Trump e diminuir a vantagem do democrata.

De toda forma, neste quadro Biden encontraria pouca resistência às suas propostas, inclusive as mais arrojadas, como aumentos de tributos, regulação antitruste mais agressiva e controle de preços de medicamentos.

Nessa conjuntura, a maior parte dos setores sofreria com o aumento de impostos, mas o farmacêutico e de energias não renováveis sofreriam mais devido à reorientação da Casa Branca.

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Para esse cenário, esperamos que S&P vá a 2.900 pontos no final do ano, 18% abaixo do cenário base, enquanto o Ibovespa ficaria em 92,7 mil pontos, 19% abaixo do cenário base. No lado do câmbio, a projeção é que o dólar alcançaria R$ 5,36 no final de 2020.

Pensando em riscos para essas projeções, pelo choque no mercado americano ter uma configuração mais local e que deve ser contrabalanceado de alguma forma pelo Fed, os efeitos no Brasil tendem a ser limitados e podem ser menores do que estimamos, não maiores.

Para efeitos de comparação, um levantamento feito pela XP com 48 investidores institucionais nos dias 8 e 9 de setembro mostrou que expectativa é que o Ibovespa feche o ano em 109 mil pontos e o câmbio a R$ 5,20, antes de se considerar o cenário eleitoral americano.

Para esses gestores e economistas que responderam à sondagem, o efeito praticamente nulo nos cenários em que o Senado continua com os republicanos e no cenário em que Biden vence e seu partido controla ambas as Casas legislativas, a expectativa de queda no Ibov é de apenas 3.7%, bastante abaixo da expectativa que colocamos em nosso exercício (até -19%). O efeito esperado para o câmbio, no entanto, é nulo.

Comércio global

No lado do comércio global, a abordagem da política externa num governo Biden deve ser mais institucional que a do atual presidente e coordenada com países aliados, o que deve reduzir incertezas.

No entanto, não esperamos que o democrata reverta tarifas impostas sobre produtos chineses, já que o eleitorado americano tem uma visão cada vez mais negativa da segunda maior economia do mundo.

Quanto às relações comerciais e diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, uma vitória de Biden seria acompanhada de uma nova tendência nas relações presidenciais entre os países dado o alinhamento entre o presidente Jair Bolsonaro e Donald Trump.

Aumenta a possibilidade de episódios de tensão em torno do tema ambiental, dado que o tópico tem peso na agenda democrata e o governo brasileiro tem tido dificuldade em projetar uma imagem positiva sobre sua política nessa área na comunidade internacional.

No entanto, as relações comerciais e diplomáticas entre os países são sólidas e de longa data e, portanto, não devem ser afetadas de forma significativa.

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Richard Back

É coordenador de macro sales e análise política da XP Investimentos. Acompanha o cenário brasileiro há uma década e especializou-se também em política internacional.

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Sol Azcune

Formada em relações internacionais na faculdade de SOAS, University of London, tem experiência em relações institucionais, tendo trabalhado na Câmara de Comércio Argentino Brasileira e na Unilever Brasil. É analista política na XP Investimentos desde junho de 2019, onde busca traduzir o universo político internacional para o mercado.

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Victor Scalet

É analista político e estrategista macro da XP Investimentos, responsável pela pesquisa XP/Ipespe. É mestre em economia e, antes de se juntar à XP, trabalhou por sete anos na área econômica de instituições financeiras.