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Eu sei que parece bom demais para ser verdade. Mas é exatamente isso: é bom, e é verdade. Décadas de pesquisas científicas revelaram que é possível reduzir de forma substancial, em alguns casos, quase pela metade, o risco de desenvolver câncer ao longo da vida.
É isso que sugere o relatório anual da American Association for Cancer Research (AACR), organização científica norte-americana que há décadas consolida e avalia evidências sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer. Segundo a entidade, aproximadamente 40% de todos os casos de câncer e 44% de todas as mortes pela doença nos Estados Unidos estão associados a sete fatores de risco potencialmente modificáveis.
Mas quais são, exatamente, esses fatores?
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1) Tabagismo
O tabagismo continua sendo o principal fator de risco isolado, responsável por 19,3% de todos os casos de câncer nos Estados Unidos. Apesar da queda histórica no número de fumantes, o cigarro permanece associado não apenas ao câncer de pulmão, mas a pelo menos outros 17 tipos de câncer, incluindo bexiga, pâncreas, esôfago e tumores de cabeça e pescoço.
2) Sobrepeso e obesidade
O excesso de peso contribui para aproximadamente 7,6% de todos os casos de câncer nos EUA e está associado ao aumento do risco de cerca de 15 tipos diferentes de câncer. A relação entre adiposidade excessiva e carcinogênese é mediada por múltiplos mecanismos metabólicos, hormonais e inflamatórios.
3) Consumo de álcool
O consumo de álcool responde por cerca de 5,4% dos casos de câncer. A associação entre álcool e câncer é bem estabelecida, com aumento do risco de ao menos sete tipos de câncer, incluindo fígado, mama, esôfago e cavidade oral. Vale lembrar que não existe um nível de consumo totalmente isento de risco.
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4) Radiação ultravioleta
A exposição excessiva à radiação ultravioleta, sem proteção adequada, é responsável por aproximadamente 4,6% dos casos anuais de câncer nos EUA e por cerca de 92% dos casos de melanoma, o tipo mais letal de câncer de pele.
5) Padrões alimentares inadequados
A dieta também aparece como um fator relevante. Padrões alimentares pobres em fibras, grãos integrais, frutas e vegetais, e ricos em carnes vermelhas e carnes processadas estão associados a 4,2% de todos os casos de câncer no país.
6) Infecções oncogênicas preveníveis ou tratáveis
Infecções como HPV e Helicobacter pylori são responsáveis por cerca de 3,8% dos casos de câncer. Esses patógenos podem alterar a função celular, suprimir o sistema imunológico e desencadear inflamação crônica — mecanismos bem descritos que contribuem para o desenvolvimento do câncer.
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7) Sedentarismo
A inatividade física responde por aproximadamente 3,1% dos casos de câncer. O relatório da AACR recomenda a prática de 150 a 300 minutos semanais de atividade física moderada, associada à redução do risco de diversos tipos de câncer.
Combinados, esses fatores modificáveis poderiam prevenir cerca de 760 mil novos casos de câncer nos EUA e aproximadamente 270 mil mortes no país. No caso do Brasil, se assumirmos os mesmos fatores de risco e suas proporções (que provavelmente não são exatamente as mesmas), a redução potencial poderia ser de aproximadamente 280 mil novos casos de câncer e 100 mil mortes por ano.
Promissor? Extremamente. Apesar de ainda vivermos em uma era marcada pelo aumento consistente da obesidade populacional, maior consumo de alimentos ultraprocessados e níveis de atividade física abaixo do recomendado, a ciência já começou a oferecer ferramentas concretas para alterar esse cenário. Medicamentos injetáveis para pacientes com obesidade (e diabetes tipo 2), por exemplo, não apenas estão transformando o manejo dessas condições, como já apresentam indícios de redução da incidência de alguns tipos de câncer nessas populações.
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No que tange aos ultraprocessados e ao consumo de álcool, a história brasileira mostra que mudanças estruturais são possíveis. Hoje, o Brasil apresenta alguns dos menores índices de tabagismo de sua história, resultado direto de décadas de políticas públicas, regulação, tributação e educação em saúde iniciadas nos anos 1980 e 1990.

Ainda assim, os avanços observados estão aquém do que as evidências científicas disponíveis hoje nos permitem concluir. E o motivo não parece ser falta de conhecimento — mas sim o excesso de ruído.
Oitavo fator
Cada vez mais, estou convencido da existência de um oitavo fator de risco modificável: a desinformação em saúde. Em um ambiente digital onde conteúdo é produzido em escala industrial — agora acelerado por inteligências artificiais treinadas para substanciar o discurso de seus senhores —, informações incorretas, imprecisas ou deliberadamente falsas circulam com alcance sem precedentes. Não raramente, esse conteúdo é promovido por profissionais com grande audiência, que relativizam consensos científicos bem estabelecidos, negam riscos comprovados ou desestimulam tratamentos eficazes, frequentemente enquanto vendem cursos, programas ou suplementos sem evidência de benefício clínico.
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Exemplos disso incluem campanhas de abominação ao uso do protetor solar — que comprovadamente reduz casos de câncer de pele — ou o estímulo ao consumo excessivo de carne vermelha (reconhecidamente um fator de risco modificável pela AACR para diversos tipos de câncer, como o colorretal, que vem aumentando na população jovem nas últimas décadas).
Estudos recentes quantificam esse impacto de forma clara. Em uma análise populacional publicada no JAMA Oncology, pacientes com câncer adeptos a terapias alternativas apresentaram maiores taxas de rejeição a terapias anticâncer, como cirurgia, quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia. O resultado? Esse grupo exibiu um aumento de mais de duas vezes no risco de morte em comparação àqueles tratados com abordagens baseadas em evidência. O efeito foi consistente em câncer de mama, colorretal, pulmão e próstata. Outro estudo observacional, publicado no JAMA Open Network, com 785 pacientes com câncer de mama invasivo, mostrou que o uso de terapias alternativas está associado a atrasos significativos no início do tratamento quimioterápico.
Esse cenário é particularmente preocupante no Brasil. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) identificou o país como um dos piores entre os avaliados na capacidade de seus cidadãos distinguirem notícias verdadeiras de falsas.
Se considerarmos estimativas conservadoras de que 30% a 40% dos casos de câncer são potencialmente evitáveis, o Brasil convive hoje com centenas de milhares de diagnósticos que não precisariam ocorrer. Cada novo caso de câncer gera custos diretos ao sistema de saúde — internações, cirurgias, quimioterapia, radioterapia e medicamentos de alto custo — além de custos indiretos associados à perda de produtividade, afastamentos prolongados e mortalidade precoce. Um impacto econômico que pode facilmente alcançar dezenas de bilhões de reais por ano, segundo dados agregados do INCA.
Mas, afinal, o que podemos fazer para prevenir o câncer?
Para os sete primeiros fatores de risco modificáveis, a resposta já é conhecida pelo leitor: parar de fumar, manter peso saudável, reduzir ou evitar álcool, proteger-se do sol, adotar uma alimentação de melhor qualidade, vacinar-se e tratar infecções oncogênicas, além de praticar atividade física regularmente.
Para o “oitavo fator”, minha recomendação é cercar-se de uma rede confiável. Referências confiáveis em saúde compartilham algumas características claras: baseiam-se em estudos revisados por pares, citam fontes verificáveis, reconhecem incertezas e limites da ciência, não prometem soluções simples para problemas complexos e, sobretudo, não têm interesse financeiro direto em convencer você a abandonar tratamentos comprovados. Desconfie de discursos que se colocam como “contra o sistema” e que relativizam consensos científicos ou nutricionais amplos.
Na era das inteligências artificiais, rico é aquele que é bem informado.
E rico de saúde é aquele que segue as recomendações científicas.