Criatividade em jogo: como criadores lucram com autenticidade na era da IA

Como manter a autenticidade e a confiança na criação de conteúdo em um futuro cada vez mais artificial?

Karina Tronkos

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Se todo conteúdo pode ser automatizado, o que significa ser um criador de conteúdo nos anos que estão por vir? A chegada de aplicativos como Sora (da OpenAI) e Vibes (da Meta), que são redes sociais formadas inteiramente por vídeos gerados por inteligência artificial, anuncia um novo tempo.

Hoje, a distinção entre real e artificial se embaralha: aquilo que é “feito por máquina” nunca pareceu tão real, e o que é “feito por humanos” precisa se provar autêntico a cada publicação. O cenário é dinâmico, com ferramentas avançadas sendo lançadas a todo momento e tornando cada vez mais acessível a geração de conteúdos sintéticos.

Grandes poderes, grandes responsabilidades

Ao alcance de qualquer criador de conteúdo, IA é ferramenta que potencializa a criação, mas também pressiona por responsabilidade ética. Quando eu penso em criação de conteúdo, a famosa frase de Stan Lee: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” ecoa na minha mente.

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Produzir, editar e distribuir conteúdos em escala num mundo hiperconectado é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um desafio. Ferramentas como o Google Gemini levaram a geração e edição de imagens a níveis inéditos de precisão, acelerando processos e democratizando recursos. Por outro lado, o excesso pode gerar desinformação, dependência e até minar nosso senso crítico.

Do ponto de vista de negócios, essa aceleração já mostra impacto direto: um estudo da AWS revelou que 95% das empresas que adotaram IA registraram aumento de receita, com crescimento médio de 31%. Além disso, 96% observam ganhos significativos de produtividade, o que permite redirecionar recursos para inovação e relacionamento com clientes. Para criadores de conteúdo e empreendedores digitais, isso significa abrir espaço para explorar formatos novos e aprofundar conexões com suas audiências, sem sacrificar a qualidade.

O desafio da autenticidade na era digital

Nunca foi tão simples produzir textos, imagens, músicas ou vídeos com alguns cliques. O impacto disso é notório: surge o fenômeno da “internet morta”, em que a enxurrada de conteúdos sintéticos diminui o valor do que ainda é único e autenticamente humano.

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A noção de “internet morta” ganhou corpo a partir de discussões em fóruns online ainda nos anos 2010, mas se consolidou para além da teoria conspiratória. Segundo um relatório da Statista (2024), aproximadamente 47% do tráfego da internet é gerado por bots, sendo que cerca de 30% desse tráfego é composto por bots maliciosos, responsáveis por disseminar fake news, golpes e manipulação de tendências. Isso vem tornando o ambiente virtual saturado de vozes artificiais muitas vezes indistinguíveis das reais.

Nesse universo onde o artificial prolifera, os riscos se ampliam. Deepfakes ultrarrealistas escancaram uma nova categoria de ameaça, com manipulações de voz, rosto e contexto capazes de minar a confiança, erodir reputações e comprometer até processos democráticos.

Não por acaso, respostas concretas já começam a emergir: a Dinamarca, por exemplo, aprovou recentemente uma lei que garante direitos autorais sobre traços de identidade pessoal, como rosto e voz — sinal claro de que cresce, globalmente, a preocupação em proteger o que nos define enquanto humanos.

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O valor do conteúdo humano

Na contramão do crescimento de conteúdos sintéticos, vemos o florescimento de canais e projetos que valorizam o “feito à mão”. O canal “Yellow Cherry Jam”, dedicado ao “Human Made Lo-fi Music” (em tradução livre: “Música Lo-Fi feita por humanos”), ilustra esse fenômeno: autenticidade vira diferencial. Afinal, pessoas ainda buscam conexão com pessoas.

Isso também se reflete em dados: criadores de conteúdo que usam IA de forma estratégica — sem abrir mão da autoria — estão monetizando mais. Um exemplo notório é o do youtuber Lucas Clash On, que conseguiu aumentar sua receita em cerca de R$ 240 mil em um ano ao adotar soluções de IA para dublagem dos vídeos, o que permitiu a expansão internacional do canal e diversificação de público.

Para influenciadores, o impacto financeiro vem não apenas do aumento de audiência, mas da redução de custos operacionais, já que ferramentas inteligentes tornam processos como tradução, legendagem e edição muito mais eficientes e acessíveis. Aqui, não é a substituição que produz valor, mas o reforço da identidade do criador.

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Por mais contraditório que pareça, essa valorização da criatividade humana está refletida na mais recente campanha global da OpenAI, exibida durante os jogos da NFL em horário nobre. A campanha foi totalmente produzida por pessoas — fotógrafos, diretores, atores e roteiristas — sem o uso de imagens geradas por IA.

Kate Rouch, chief marketing officer da OpenAI, explicou: “Filmando em 35mm, usando músicas realmente icônicas e ótimos diretores, isso reforça a tese da campanha, que é a de que essas são ferramentas para ampliar a criatividade humana, de formas muito pequenas e cotidianas, mas também em palcos maiores.” Ela ressaltou que, embora a empresa use intensamente o ChatGPT para ideação e produção, o processo criativo é “deliberadamente ancorado na criatividade humana”, evidenciando que a IA existe para ampliar, e não substituir, o talento humano.

IA como aliada: amplificando a criatividade

É inegável que as ferramentas de IA ampliam nossa visão de mundo, revelam padrões antes invisíveis e sugerem novos ângulos para a criação. No entanto, elas não têm o olhar crítico, a intuição nem a bagagem cultural que apenas o criador humano traz. Como criadora de conteúdo, adotei a IA como uma parceira em um diálogo ativo.

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Utilizo-a para levantar questionamentos, testar hipóteses e expandir meus horizontes. Não para substituir minha autoria, mas para desdobrá-la em níveis que talvez eu não alcançasse sozinha. O segredo está em tratá-la como copiloto, fazendo perguntas que retornam como novas perguntas, impulsionando um ciclo fértil de ideias e descobertas.

Para negócios e criadores independentes, o uso estratégico da IA traz benefícios sólidos. Segundo dados da Hostinger, mais de 50% das empresas já adotam IA generativa para criação de conteúdo, atendimento ao cliente e automação de processos, revelando uma transformação profunda na forma de produzir e distribuir materiais digitais. Esses números indicam que investir em IA pode otimizar esforços, reduzir custos e, consequentemente, gerar maior alcance e engajamento nas plataformas digitais — fortalecendo os resultados financeiros sem abrir mão da qualidade.

O equilíbrio entre eficiência e ética

Automatizar tarefas repetitivas, personalizar conteúdos e ampliar a produtividade são alguns dos benefícios do uso da inteligência artificial. Mas produtividade não pode atropelar princípios. É imprescindível que as organizações adotem práticas
responsáveis, garantindo que a criatividade e a inovação caminhem lado a lado com o respeito à privacidade, à justiça e à autoria.

Recentemente, o Google DeepMind lançou a ferramenta SynthID, que adiciona uma marca d’água invisível em imagens geradas por IA, possibilitando a sua identificação mesmo após edições — uma iniciativa importante para preservar a integridade no ambiente digital. Iniciativas como essas são mais que necessárias.

Dilemas e possibilidades éticas

O avanço tecnológico pressiona o debate: quem é responsável pelos desvios de uma IA? Como lidar com o viés presente nos dados de treinamento? E quem detém o direito autoral sobre criações híbridas? A discussão extrapola o indivíduo e envolve sociedade, governos e corporações. A colaboração ampla para criar políticas, educar usuários e estabelecer padrões éticos se torna tão importante quanto a inovação em si.

No Brasil, o marco regulatório aprovado pelo Senado em 2024, agora em análise na Câmara, estabelece diretrizes para o uso responsável de IA, incluindo proteção de direitos autorais, transparência e sanções para infrações. Internacionalmente, a legislação ainda evolui, mas cresce a preocupação com responsabilidade, privacidade e ética, que guiarão o futuro das tecnologias e o equilíbrio entre inovação e direitos fundamentais.

O futuro: autenticidade como superpoder

À medida que gerar conteúdo se torna trivial, distinguir o que é autêntico vira o verdadeiro diferencial. Não importa quão poderosa seja a IA: o que realmente conecta é a história, o repertório, a experiência singular do criador. Como disse o jornalista e escritor Sydney J. Harris, “o perigo não é que computadores passem a pensar como pessoas, mas que pessoas passem a pensar como computadores”. Nesse novo cenário da criatividade, manter o elemento humano é, e continuará sendo, nosso maior diferencial e nossa maior responsabilidade.

Eu te pergunto: em um mundo em que tudo pode ser criado, o que vale a pena ser criado?



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Karina Tronkos

Karina Tronkos é criadora de conteúdo no Nina Talks