América Latina: intensa agenda eleitoral em 2018

No próximo ano, os países da América Latina terão uma intensa agenda eleitoral. Eleições presidenciais ocorrerão na Costa Rica, Paraguai, Colômbia, México e Brasil. Declarações do presidente cubano Raúl Castro afirmam o seu compromisso em promover a transição e a transferência de poder para um novo presidente. Já na Venezuela a vitória do partido do […]

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No próximo ano, os países da América Latina terão uma intensa agenda eleitoral. Eleições presidenciais ocorrerão na Costa Rica, Paraguai, Colômbia, México e Brasil. Declarações do presidente cubano Raúl Castro afirmam o seu compromisso em promover a transição e a transferência de poder para um novo presidente. Já na Venezuela a vitória do partido do governo nas eleições para governadores reafirma o poder de Nicolas Maduro, que pretende garantir mais seis anos de mandato na eleição do próximo ano.

Calendário das Eleições nos países da América Latina – 2018

 

   

04 de Fevereiro

Costa Rica

Eleições gerais Legislativas e presidencial

24 de Fevereiro

Cuba

Eleições legislativas e transferência de poder

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04 de Março

El Salvador

Eleições Legislativas

11 Março

Colômbia

Eleições Legislativas

01 de Abril

Costa Rica

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2º turno Eleição presidencial

22 Abril

Paraguai

Eleições legislativas e presidencial

27 de Maio

Colômbia

1º. Turno presidencial

17 de Junho

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Colômbia

2º. Turno eleição presidencial

Outubro

Venezuela

Eleição presidencial

07 de Outubro

Brasil

Eleições gerais legislativo federal e estaduais, Governadores e Presidente

28 de Outubro

Brasil

2º Turno Governadores e Presidente

 

À primeira vista podemos dizer que a alternância de poder e a realização de eleições periódicas mostram os avanços da democracia na região. No entanto, o olhar detido em cada país nos revela um ambiente ambíguo e complexo com arranjos institucionais que buscam manter o status quo, mas que são cada vez mais pressionados por uma sociedade cansada dos modelos e elites tradicionais.

A sociedade sentiu, nos últimos anos, a perda dos ganhos de renda obtidos com boom dos preços das commodities. Os sinais de recuperação econômica ainda são lentos e as previsões do FMI apontam 1,2% de crescimento na região em 2017, enquanto o restante do mundo terá crescimento de 3,6%. O aumento da violência atinge todos os países e a corrupção endêmica expõe a desconfiança nas instituições e políticos.

Cenários voláteis e descrédito na política

Este quadro leva ao aumento do descrédito quanto ao sistema representativo e partidário. No caso brasileiro acompanhamos o surgimento de movimentos de renovação da política como alternativa aos candidatos e partidos tradicionais. Na Colômbia dos 30 pré-candidatos para a presidência 25 se dizem independentes. No México, segundo o Instituto Eleitoral Nacional, 86 pessoas manifestaram a intenção de disputar o cargo para presidente como independentes e 240 pessoas sem filiação partidária pretendem se candidatar para o cargo de deputado.

A dispersão de candidatos reflete na maior volatilidade das opiniões dos eleitores. Além disso, a emergência de candidaturas independentes dificulta a formação de coalizões e construção de alianças.

No caso das eleições mexicanas nem todos os candidatos são novatos, mas aqueles que se desligaram dos partidos tradicionais e buscam se viabilizar eleitoralmente, entre eles encontram-se a ex-primeira dama Margarita Zavala (ex-filiada ao PAN), o senador independente Armando Rios Piter, o governador de Nuevo León Jaime Rodríguez Calderón “El Bronco (ex-filiado ao PRI).

A alta fragmentação na eleição em 2018 reflete em parte o degaste do governo e do partido PRI. Segundo pesquisa da Pew Research, 28% dos mexicanos aprovam o governo do presidente Enrique Peña Nieto, sendo que a desaprovação aumenta quando se avalia o desempenho presidencial na economia (80% desaprovam); na luta contra a corrupção (77%); na luta contra o narcotráfico (74%) e relações com os Estados Unidos (72%).

Neste quadro eleitoral, o candidato Andrés Manuel López Obrador (AMLO), ex-prefeito da Cidade do México e nacionalista de esquerda, passou a liderar as pesquisas de opinião. Obrador perdeu as eleições em 2006 e 2012, mas, no atual quadro, a chance de ganhar um discurso nacionalista assusta os investidores estrangeiros, que já projetam a desvalorização do peso e maior restrição ao capital estrangeiro no país. No entanto, o candidato vem tentando se aproximar dos empresários e grupos da sociedade civil, em um movimento semelhante ao do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva durante a campanha de 2002. Em um gesto de conciliação, Obrador assinou o acordo denominado Unidade para a Prosperidade do Povo e o Renascimento do México, que conta com a participação de 32 entidades partidárias, empresariais e da sociedade civil. Porém, as desconfianças ainda geram temores e instabilidades.

O ambiente de incertezas não é muito diferente na Colômbia. Será a primeira eleição após a assinatura do acordo de paz entre o Governo e a FARC. Além disso, muitos colombianos estão insatisfeitos com o governo do presidente Juan Manuel Santos. Pesquisa realizada em setembro de 2017 apontava que 54% dos entrevistados desaprovam a gestão do presidente Santos. Além disso, 57% desaprovam o acordo de paz com a FARC e 55% desaprovam as conversações com a ELN (Exército de Libertação Nacional). As grandes desaprovações, no entanto, estão nas políticas de combate ao desemprego (83%) e as ações de combate à corrupção (82%).

Até o momento, três candidatos se destacam nas pesquisas: o ex-vice presidente Germán Vargas Lleras, ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro e Sergio Farjado, ex-prefeito Medelin e ex-governador da província Antioquia. Os três apresentam diferenças pequenas nas pesquisas. Germán Vargas Lleras começou bem nas pesquisas de opinião, mas a circulação de um vídeo em que ele agride o seu segurança fez com que sua desaprovação crescesse e ele caiu nas pesquisas de opinião. O candidato Gustavo Petro, com um perfil mais à esquerda e anti-establishment, tem se consolidado nas pesquisas, bem com o Sergio Farjado que tem uma avaliação positiva na área de segurança pública pela sua gestão na prefeitura de Medelin.

A agenda eleitoral é tão ampla quanto o número de candidatos. As posições sobre o acordo de paz, a inserção dos ex-combatentes, as políticas de combate à corrupção e as políticas econômicas dividem a atenção dos 36 milhões de eleitores.  

Como no debate pré-eleitoral brasileiro, os eleitores mexicanos e colombianos revelam as insatisfações com a política e o discurso populista de direita ou esquerda pode ganhar força eleitoral. Por outro lado, as incertezas são tantas e possibilidade ainda estão abertas que os eleitores podem surpreender a todos. e entre a renovação inconsequente e o velho conhecido, mas seguro. A política latino-americana em 2018 promete ser tão agitada quanto foi em 2017.

 

Denilde Oliveira Holzhacker