Grande imprensa exala mercantilismo em notícias sobre balança comercial

Balança comercial indica a diferença entre as exportações e importações de bens e serviços: menor saldo não pode ser tratado como equivalente a pior

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Saiu o primeiro indicador econômico consolidado de 2019: o resultado da balança comercial. Foi o pior resultado dos últimos 5 anos segundo manchetes do Jornal Nacional, Folha de São Paulo, O Globo e diversos veículos da grande imprensa. Felizmente, as manchetes são enganosas. A balança comercial teve o menor resultado em 5 anos, mas isto não significa que seja o pior.

A balança comercial indica a diferença entre as exportações e importações de bens e serviços. Quando a imprensa trata “menor” como equivalente a “pior”, o recado é claro: na visão de quem escreve as manchetes, exportar é melhor do que importar.

Não é verdade. O comércio internacional traz ganhos para exportadores e importadores. Assim como comprar não é pior do que vender, importar não é pior do que exportar.

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Imagine, por exemplo, o caso de uma pessoa que importa certo medicamento da Alemanha ao invés de comprar um equivalente nacional que custaria o dobro. Ou de uma empresa que importa maquinário para aumentar a sua produtividade.  Ou dos pais que levam os filhos à Disney pela primeira vez e desfrutam de excelentes experiências em família nos parques mais icônicos do planeta. Nestes casos, como em muitos outros, a importação aumenta o bem-estar do importador.

Portanto, não há motivos para preconceitos. A importação tem a mesma motivação da exportação: a satisfação daqueles que participam da troca.

O resultado divulgado quinta-feira certamente não foi bom. Houve queda de 7,5% nas exportações, apesar da alta do dólar em 2019. Essa queda foi ainda mais pronunciada nas exportações de manufaturados, que caíram 11,1%, e de semimanufaturados, cuja queda foi de 8%. Ou seja, os exportadores de bens com maior valor agregado sofreram mais. Até a exportação de produtos básicos, como commodities, caiu cerca de 2%. Também caíram as importações, em cerca de 3,3%. Ou seja, não há muito para comemorar no resultado divulgado ontem.

Dentre outros fatores, a crise econômica na Argentina ajuda a explicar o que ocorreu. Nos últimos anos, nossos vizinhos ao sul se consolidaram como terceiro principal destino das exportações brasileiras. Com a crise econômica, o volume exportado para lá caiu significativamente.

Em 2019, a Argentina caiu para a quarta posição e gastou U$ 9,7 bilhões de reais em produtos produzidos no Brasil. Os Países Baixos hoje ocupam a terceira posição, com U$ 10,1 bilhões. Não houve mudança nos dois primeiros colocados:  os EUA importaram 29,6 bilhões de dólares em produtos brasileiros, enquanto a China comprou U$ 65,4 bilhões.

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Ou seja, a imprensa não errou ao noticiar o resultado da balança comercial como genericamente negativo. Simultaneamente, durante uma alta do dólar que deveria favorecer a balança comercial, caíram as exportações de produtos manufaturados, dos semimanufaturados, dos produtos básicos e das importações. É difícil encontrar uma boa notícia nestes números.

O erro central está na equivalência entre menor e pior.  Entre 2014 e 2016, a balança comercial saltou de U$ -4,1 bilhões para U$ 47,6 bilhões. Esse resultado refletiu, dentre outros motivos, uma severa queda nas importações brasileiras por causa da crise econômica. No mesmo sentido, o risco-país disparou, levando consigo a taxa de câmbio. Naquele contexto, o aumento do saldo na balança comercial ocorreu por péssimos motivos, que não mereciam comemoração. Dá para chamar isso de melhoria?

No fundo, a ideia de que um saldo maior na balança comercial é melhor – ou vice-versa – é fruto do pensamento econômico mercantilista que norteia muitos economistas e jornalistas brasileiros.

Por isso, ainda é preciso ressaltar a todo momento: importar não é pior do que exportar. Se perdermos isto de vista, nossa indústria pode ser uma das vítimas por conta da dificuldade para adquirir maquinário estrangeiro e outros bens de capitais que são extremamente úteis para aumentar a produtividade dos manufaturados nacionais. O comércio internacional não é um jogo de soma zero, onde um precisa perder para que o outro ganhe. Esquecer esta velha lição, conhecida pelos economistas há séculos, desde David Ricardo, é o caminho mais curto para quebrar a indústria brasileira.

P. S. – É um orgulho poder escrever isso para vocês: aqui no InfoMoney, esse erro não ocorreu. A manchete usou apenas a palavra “menor”, sem juízo de valor.

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Pedro Menezes

Pedro Menezes é fundador e editor do Instituto Mercado Popular, um grupo de pesquisadores focado em políticas públicas e desigualdade social.