A recessão global de 2020 está encerrada, e será seguida de recuperação em “V”

Tudo indica que a recessão global, por mais intensa que possa ter sido, tenha mesmo se encerrado no segundo trimestre de 2020, mais especificamente em abril

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(Getty Images)

A reabertura das economias seguiu seu curso ao longo das últimas semanas.

Nos EUA, ainda que tenha sido observado um repique de casos em estados do sudoeste, onde a penetração da epidemia ainda era muito pequena, não foram registrados aumentos significativos nos casos nos locais onde a doença já havia penetrado com força, como em Nova York.

Na Europa, o controle da epidemia é quase absoluto e praticamente não foram observados novos focos ao longo do movimento de reabertura.

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O aparecimento de casos no sudoeste dos EUA é apresentado por alguns observadores como evidência de “segunda onda”, que poderia ocasionar o retrocesso das recentes medidas de retorno à normalidade das economias.

Em nossa avaliação, essa narrativa não é correta, pois trata-se na verdade da “primeira onda” em locais onde a epidemia mal tinha sido observada. Preocupante seria o reaparecimento da doença nos locais onde a mesma já tenha sido controlada, o que não vem acontecendo.

Em função do processo de reabertura, e também como consequência da rapidez no deslanche e da magnitude dos programas de apoio à renda e ao emprego, os dados econômicos relativos a maio e junho, no hemisfério norte, seguiram fortes, sugerindo uma recuperação rápida da economia.

Tudo indica que a recessão global, por mais intensa que possa ter sido, tenha mesmo se encerrado no segundo trimestre de 2020, mais especificamente em abril.

Os gráficos abaixo ilustram a rapidez com que a atividade tem retornado à normalidade: as vendas no varejo dos EUA, em maio, já se encontravam a apenas 8% do nível registrado em fevereiro. Na Europa, o índice PMI, que mede a confiança de empresários com a economia, já mostrava, em junho, praticamente o mesmo nível observado antes da eclosão da pandemia.

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A recuperação da confiança e do nível de atividade está intimamente relacionada ao medo das pessoas com relação ao contágio.

O melhor preparo dos sistemas de saúde, mais equipados e com recursos humanos mais treinados, meses após o início da pandemia, e o recente avanço observado nas pesquisas quanto a vacinas contribuem para diminuir o receio dos indivíduos, e reforçar o padrão em “V” da recuperação.

Além disso, a pouca efetividade das medidas formais de distanciamento implementadas na primeira fase da doença (tema que abordamos em nossa coluna anterior) sugere que a reintrodução das mesmas, em intensidade semelhante, é improvável, ainda que haja repiques de casos em locais onde a doença já foi controlada, o que também contribui para a melhora dos índices de mobilidade e atividade.

Muitos analistas temem que o ritmo intenso de recuperação da atividade possa não ser mantido quando os programas de apoio à renda forem desmobilizados.

Essa é uma possibilidade concreta, pois, caso a renda transferida na forma de auxílio não seja substituída por renda oriunda do mercado de trabalho, a recuperação poderá de fato sofrer um revés.

É importante, nesse sentido, novamente observar o que vem acontecendo na Europa e no estado de Nova York, onde a retomada das atividades de serviços como hotéis, restaurantes, salões de beleza, academias de ginástica etc. não vem sendo acompanhada de um ressurgimento nos casos.

À medida em que essa dinâmica vá ganhando corpo, o retorno orgânico do mercado de trabalho e da confiança deve se generalizar.

A observação desses acontecimentos nas regiões em que a flexibilização já é mais ampla deverá contribuir para a reprodução desse processo benigno em outras regiões do globo que estejam mais atrasadas no ciclo da epidemia.

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Não existe qualquer motivo para que observemos, no Brasil, uma dinâmica que seja materialmente distinta da descrita acima.

Como em vários lugares do mundo onde a dinâmica da doença ainda não se encontre em declínio, embora não exista mais praticamente qualquer risco de colapso dos sistemas de saúde, e havendo ainda restrições importantes à movimentação, a recuperação da atividade tem se dado mais fortemente nos mercados de bens, sendo ainda tímida nos serviços.

O auxílio emergencial de R$ 600 reais será prorrogado por mais dois meses a partir de julho, e tem cumprido importante papel na sustentação da renda dos indivíduos mais vulneráveis.

O programa de preservação do emprego, tendo permitido a redução dos salários, com contraparte parcial pelo Tesouro Nacional, permitiu a manutenção de quase 12 milhões de empregos – um sucesso absoluto.

A taxa Selic foi reduzida a 2,25% e os spreads bancários têm caído de forma significativa, o que tem contribuído para a redução da cunha financeira sobre famílias e empresas.

A relação dívida bruta / PIB sofrerá um aumento de 20-25 p.p. , em linha com o o que será observado em diversos outros países.

A verdade é que, ao contrário do que muitos observadores qualificados têm sugerido, não há nada especialmente diferente que esteja acontecendo no Brasil e não esteja acontecendo em outras grandes economias, no que se refere ao manejo e à resposta da política econômica à situação de crise.

Ao longo do segundo semestre, a equipe econômica e o Congresso Nacional deverão definir o formato e a magnitude do “Renda Brasil”, um programa de complementação de renda que deverá combinar alguns dos atuais programas sociais no plano federal, como o Bolsa Família, o seguro-defeso e o abono salarial.

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É perfeitamente possível tornar os programas mais abrangentes e eficientes, ao mesmo tempo em que se respeite o teto de gastos a partir de 2021, pilar fundamental da política econômica atual. É essa a nossa expectativa.

A base parlamentar do governo foi recentemente reorganizada, o que deve permitir o avanço, nos próximos meses, de matérias que não dependem de quórum constitucional, como o novo marco regulatório do gás, a lei de autonomia do Banco Central e a privatização da Eletrobras.

A recente aprovação do novo marco legal do saneamento foi uma excelente notícia, que deverá impulsionar, a curto prazo, os investimentos no setor.

Se estivermos corretos quanto à perspectiva de gradual dissipação do medo dos indivíduos, a recuperação do mercado de trabalho será rápida. Assim, o PIB cairá, em 2020, bem menos do que muitos analistas esperam.

Nossa projeção é de uma retração de 6% em 2020, seguida de crescimento de 5% em 2021. Se a recuperação global prosseguir evoluindo em “V”, como nos parece que será o caso, não haverá motivo algum para que o mesmo padrão não seja observado no Brasil.

Pedro Jobim

É sócio-fundador da Legacy Capital. Atua no mercado financeiro desde 2002, tendo sido economista-chefe do banco Itau BBA e da tesouraria do banco Santander. É engenheiro mecânico-aeronáutico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mestre em economia pela PUC-Rio e Ph.D em economia pela Universidade de Chicago.