Lula solto aumenta pressão sobre resultados econômicos de Bolsonaro

Com a sombra do petista, sobra menos tempo para o governo aprovar sua agenda e começar a demonstrar os frutos que pode colher dela

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(Gibran Mendes / CUT Paraná)

Os discursos de Lula à saída da cadeia dão contornos aos dois inimigos principais com os quais o petista pretende lidar em sua caravana pelo país em direção a 2022 – que será tão longa quanto permitirem as outras decisões sobre ele que o Judiciário tem pela frente.

O primeiro é a já conhecida narrativa da perseguição política de Sergio Moro e Jair Bolsonaro – agora adicionada às críticas aos “milicianos”, como ele passou a se referir ao governo –, que leva à já explorada polarização entre o petista e o presidente. Lula solto é cabo eleitoral para dos lados da disputa, reduzindo o espaço do centro.

O segundo inimigo é a política econômica do “destruidor de sonhos” Paulo Guedes – algo que o PT já teria adotado como bandeira principal, não tivesse tão preso ao “Lula Livre”. Tanto em Curitiba quanto em São Bernardo, Lula falou no congelamento do valor do salário mínimo, bateu na reforma da Previdência e tentou atacar a agenda positiva da queda de juros, questionando o juro pago pela população.

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Nesse sentido, Lula solto é pior que Lula preso para o ambiente de reformas.

São dois problemas: o primeiro é o impacto em votações no Congresso que pode ter a força que Lula fará contra as reformas, principalmente em regiões em que a popularidade do petista é mais alta. Ainda assim vale lembrar que o governo nunca pôde contar com a oposição para aprovar sua agenda – e é difícil imaginar que o deputado de centro, mesmo nessa situação, vire as costas para o governo e sobreviva três anos só embalado pelo discurso contra Bolsonaro.

Isso quer dizer que pode ficar um pouco mais difícil para o governo encontrar seus 308 votos, mas ele continua tendo as ferramentas necessárias para alcançá-los. Nunca é demais lembrar que o governo se serviu, sim, de elementos da relação política tradicional com o Congresso para aprovar a Previdência – e nada indica que vá tratar das outras reformas de maneira diferente.

O segundo ponto é observar em qual medida a força feita por Lula pode gerar ainda mais pressão por uma retomada rápida da economia, que estimule a impaciência já demonstrada por Jair Bolsonaro com a política de ajustes (a confusão sobre o teto de gastos, por ora desfeita, é bom exemplo disso).

Nesse caso, Lula estreita um pouco a janela para a conclusão das reformas – com a sombra do petista, sobra menos tempo para o governo aprovar sua agenda e começar a demonstrar os frutos que pode colher dela, sob pena dos argumentos do ex-presidente terem cada vez mais apelo à população e ao eleitorado.

Nesse caso, Bolsonaro se beneficia mais uma vez da polarização criada com o petista – as pesquisas que conduzimos mostram um “entrincheiramento” dos que aprovam o governo desde o início do mandato, o que pode ajudá-lo a manter níveis de popularidade aceitáveis enquanto a agenda tramita no Congresso.

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Também como já havíamos escrito ainda na semana passada, quanto maior o êxito da agenda bolsonarista, em especial se traduzida em crescimento econômico e geração de empregos, menor é a chance de prosperarem narrativas mais críticas ao governo. O discurso de Lula é apelativo agora, mas dentro de algum tempo será posto à prova: se Bolsonaro tiver conseguido êxito na recuperação, a fala de Lula fica vencida. Caso contrário, dará a narrativa de 2022.

Nesse sentido, e considerando o nível de apelo fácil do discurso de Lula, é até positivo que Bolsonaro não tenha entrado na disputa pela pauta econômica por enquanto – enquanto Sergio Moro faz as vezes de rival na outra seara. A principal resposta econômica será o resultado da agenda que, por enquanto, Lula critica.

Independentemente de qualquer resultado, Lula ganha ainda mais força para ser o polo em torno do qual se articula a esquerda, principalmente em termos eleitorais. Será importante observar qual caminho traçarão Ciro Gomes e outros atores da esquerda que almejavam ocupar o vácuo que poderia existir. É razoável esperar algum grau de tensionamento, mas que não deve ser suficiente para tirar de Lula a condição de pivô.

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