Os Idos de Março

"Se você ficar uma semana fora do Brasil, tudo muda. Se você ficar 7 anos fora, nada muda." Gustavo Franco
Por  Alexandre Aagesen
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Há 2068 anos um cabra alto de 55 anos chamado Caio Júlio César foi assassinado nas escadarias do senado de Roma, virando o mundo de cabeça pra baixo. Cá estamos, 2068 anos depois e os idos de março seguem sendo uma época perigosa, que segue virando o mundo de cabeça pra baixo. Quem só se informa pelo One Page (por favor, pare, tem muita coisa melhor para você estar lendo) parou dia 8 com a impressão de que a inflação estava sob controle (ou quase) e que os juros estavam prontos para cair. Mas, como tudo muda em uma semana, e particularmente nessa semana que passamos. Dados de atividade mostram economias do mundo todo voando! Dados de emprego (Non-farm Payroll lá fora e CAGED aqui) surpreenderam muito para cima. CAGED particularmente. Dados de inflação (aqui pode escolher, CPI, PPI, IPC-A) todos na lua. PPI particularmente. Dados de Orçamento (EUA), acho que o Biden pediu para o nosso Fernandinho aqui escrever o projeto: mais gastos do governo e mais impostos para fechar a conta – já viu isso em algum lugar?

Também completamos 4 anos de um evento que virou o mundo MESMO de cabeça pra baixo. Quatro anos desde o início da pandemia por aqui. Quatro anos tranquilos e felizes, e hoje, depois de mil quatrocentos e sessenta e um dias ou 35 mil horas, ou 2,1 milhões de minutos depois, tenho certeza de que todos nos sentimos uns 15 anos mais velhos. Mas também tivemos o nosso Banco Central aqui, presidido por aquele cidadão, com diretores técnicos e decisões serenas e pacientes, sendo escolhido (de novo) o melhor Banco Central do mundo. Garantindo a estabilidade do poder de compra da moeda, zelando por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e fomentando o bem-estar econômico da sociedade. Powered by Banco Central!

Também tivemos evoluções geopolíticas deixando o mundo de ponta cabeça, claro. Não dá mais para falar de finanças ou economia sem levar em consideração. Foi aprovado no Congresso americano o banimento (ou a obrigatoriedade de venda) do Tiktok nos EUA. Automaticamente a China reencarnou o ex-senador Joseph McCarthy e acusou os EUA de protecionismo. EUA comunista e China defendendo o livre mercado? Falei que o mundo estava de ponta cabeça. Também tivemos o Putin subindo o tom, trucando e falando com todas as letras que estava pronto para uma guerra nuclear (dica: ninguém nunca está pronto para uma guerra nuclear). Claro que o Macron não ia deixar barato e gritou SEIS! O presidente francês disse que era o presidente francês e que, como presidente francês, ele poderia decidir mandar tropas francesas (enviadas pelo presidente) para a Ucrânia, lutar contra a Rússia. OTAN suou frio aqui, mas caso você não tenha entendido, ele é o presidente francês. Tanta pose de força me parece querer compensar alguma fraqueza, mas quem sou eu para julgar? Logo eu, que não sou nem presidente nem francês. Ainda.

Por fim, ainda vale a pena destacar as eleições na Rússia que aconteceram nesse final de semana. Acho que ninguém podia imaginar quem seria o próximo líder destemido da mãe-Rússia, mas deu ele mesmo, com quase 90% dos votos. E olhando para frente, essa semana temos mais uma “super” (entre aspas) quarta. Você conhece a dinâmica: decisão de política monetária no melhor Banco Central do mundo, no mesmo dia que um outro, provinciano lá, presidido pelo senhor Jerome “Burns” Powell. Na decisão daqui, zero espaço para surpresa, afinal o melhor Banco Central do mundo se comunica muito bem com o mercado: 50 pontos base e um comunicado copy-paste do último (há quem diga que vai tirar o plural “das próximas reuniões”, mas não acho). Já lá fora, um gigantesco ponto de interrogação. Espere volatilidade na quarta-feira. A decisão em si está dada: manutenção. Mas na comunicação vem junto um novo dot-plot. Esse vai ficar velho já na quinta, mas queremos todos saber quantos cortes os diretores pretendem dar em 2024. Tem gente falando zero e ainda tem gente falando em quatro. Comunicação bem-feitinha, eim? Depois dessa semana, ainda temos 6 reuniões e 3 dot-plots por lá. Enquanto isso, Powell que tinha que decidir entre Recessão e Inflação, vem trabalhando pelos dois. Bom trabalho Jay! Por fim, nem tudo é de ponta cabeça. Andrade Gutierrez e Novonor (antiga Odebrecht) vão tocar as obras da refinaria de Abreu e Lima. Pera, eu já vi esses nomes todos juntos antes, mas não gostei do final. Bem que o Samuel Rosa já havia usado “é como não morrer de raiva com a política” como régua de improbabilidade e impossibilidade.

Ficou com alguma dúvida ou comentário? Me manda um e-mail aqui.

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Alexandre Aagesen Com mais de 15 anos de mercado financeiro, é CFA Charterholder, autor do livro "Formação para Bancários", host do podcast "Mercado Aberto" e Investor na XP Investimentos

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