O que Maquiavel não quer que você saiba

A realidade sempre supera a ficção. Nem Game of Cards nem House of Thrones chega aos pés da realidade.
Por  Alexandre Aagesen
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Eu tenho certeza de que você conhece César Bórgia. O sobrenome não lhe é estranho, mas talvez você não consiga exatamente precisá-lo na história. Deixe-me ajudar. Junto com Bórgia você já deve ter ouvido os sobrenomes Sforza e Médici, todos bons “amigos”. César foi uma tremenda – digamos… personalidade – ao redor de 1500 pela Itália, França e Espanha. Filho de um Papa, assassino (dizem) do próprio irmão, amante (dizem) da própria irmã, traidor (dizem) de todos seus amigos, soberano cruel, general astuto, político… bem, estaria entre os melhores que temos hoje. Se você ainda não o reconheceu, talvez se recorde dele como ‘personagem’ principal do livro “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. Gente boa, como você pode ver. O grande papel dele – particularmente na Itália, era ser um dos principais generais do Papa, no caso, seu pai. Principalmente aquilo que o Papa Alexandre VI, meu xará, queria – mas não podia – fazer. Ele não era um Papa bonzinho, então essas tarefas eram… bem, vocês leram “O Príncipe” (ou pelo menos deveriam ter lido).

Em completamente outro assunto, prometo que não tem relação, o Irã é um lugar engraçado. Não se dão com os árabes, já que são persas. Não se dão com os muçulmanos sunitas (a maioria), já que são xiitas. O presidente (que morreu agora) é eleito por voto popular, mas pera lá. Os candidatos precisam ser aprovados pelo Conselho de Guardiães, claro. Na eleição presidencial de 1997, eles recusaram 98,3% dos candidatos, tranquilo. Para ser completamente isento, o Líder Supremo não está no conselho, mas ele indica 6 dos 12 participantes. Os outros 6 são juristas indicados pelo poder judiciário. O chefe do judiciário é indicado pelo Líder Supremo também, esqueci de comentar. O atual Líder Supremo era presidente quando o anterior (o pai da revolução iraniana) morreu. E o atual Líder Supremo já está ficando mais velho e doente. Então essa “eleição” de agora, para definir o próximo presidente, é particularmente importante para o futuro do país. O que só aumenta a desconfiança com o acidente aéreo do fim de semana. E o novo favorito na corrida presidencial – e o mais beneficiado pelo acidente – se chama Mojtaba Khamenei. Dica: o Líder Supremo atual se chama Ali Khamenei. O sobrenome igual não é coincidência, o Ali é pai do Mojtaba. E o Líder Supremo é quase o Papa ali. Se eu não tivesse medo de entrar na mira dos Khamenei, eu poderia fazer o paralelo com os Bórgia aqui. Mas não é o caso, claro.

Para hoje, mercado em dúvida. Em dúvida com Irã, em dúvida com Fed-boys falando sem parar, em dúvida com a ata do Fed, enfim, em dúvida. Essa última só sai amanhã, e é ela que estamos olhando. Queremos saber o que foi discutido de verdade, sem ser da boca do Powell ou da boca dos babás dele. Como sempre, na dúvida, o café esfria enquanto o suor desce.

Ficou com alguma dúvida ou comentário? Me manda um e-mail aqui.

Alexandre Aagesen Com mais de 16 anos de mercado financeiro, é CFA Charterholder, CAIA Charterholder, autor do livro "Formação para Bancários", professor convidado e Investor na XP Investimentos

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