O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O SETOR AUTOMOTIVO?

Nas últimas semanas, vivenciamos uma série de notícias sobre o setor.  Mas, o que de fato ocorre?

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Caro leitor, cara leitora…. vocês  já devem ter lido diversas notícias sobre o setor automotivo nas mais diversas mídias. E, hoje, encerramento do 1º Quadrimestre do ano, os resultados que todos apresentam é que o setor registra retração de -4,63%. Com volume de vendas de 1,053 milhão contra 1,104 milhão sobre o primeiro quadrimestre do ano passado.

Realmente as vendas estão um fiasco! Para quem acompanha a gente, nós tínhamos projetado (em novembro do ano passado) para o ano de 2014, uma queda média  de -3,75%, chegando até -5%. Pois bem, estamos revendo as nossas projeções para baixo… mas para baixo mesmo! Provavelmente uma queda de dois dígitos!

Mas o que acontece afinal com o setor automotivo? Vamos tentar explicar em três tópicos:

 

O CONSUMIDOR:

 

Esse é um dos principais fatores que geram grande impacto nas vendas. O que percebemos? Toda a dinâmica de vendas está atrelada ao “humor” do consumidor. Esse humor é medido com excelência pelo pessoal da FECORMECIO/SP.

Esse “humor” que o pessoal da FECORMECIO avalia – em linhas gerais – mostra como os consumidores veem a sua condição financeira e suas perspectivas futuras. E o que vem acontecendo? Nós acreditávamos que esse humor do consumidor iria melhorar no começo desse ano. Mas, na verdade, ocorreu o inverso! O índice continuou a se deteriorar neste ano, ou seja, o consumidor está menos otimista com as suas perspectivas futuras.

Mas, não é que o índice oscilou “um pouquinho” para baixo… registramos, em abril deste ano, o pior índice dos últimos 101 meses! Ou seja, o humor atual do consumidor brasileiro está igual ao de dezembro de 2005.

Só nos últimos 12 meses, esse índice registrou queda de -12%.

A regra é clara, Arnaldo! Se o consumidor está com medo/receio das suas expectativas financeiras futuras, então não irá se endividar.

 

CRÉDITO

 

Existe crédito? Lógico que sim! Segundo o BC, o saldo da carteira de crédito para a pessoa física fazer aquisição de veículos está na ordem de R$ 193 bilhões, colocando um para mais ou um para menos!

Uauuuu… é bilhão que não acaba mais! Mas o grande problema é que a carteira de crédito está “estagnada” há mais ou menos 18 meses! Isso está fazendo com que os bancos sejam “um pouco mais criteriosos” na liberação do crédito. Pois bem, se eu já tinha receio em relação à minha situação financeira futura, e se o crédito está mais difícil, a aquisição de um carro novo fica inviável.

 

MONTADORAS

 

E as montadoras? Bem elas vão continuar pressionando a todos! Porquê?  As vendas estão com queda de -4,6%, neste primeiro quadrimestre, e devemos encerrar o ano com queda próxima a dois dígitos. Sim, a queda nas vendas é real! Mas não significa queda de LUCRATIVIDADE.

E não foi mesmo! O que apurarmos, é que as montadoras neste ano faturaram R$ 48,84 bilhões contra R$ 48,17 bilhões sobre o mesmo período do ano passado, ou seja, registramos aumento no faturamento de quase R$ 670 milhões, num mercado que está em retração de vendas.

Além disso, vamos voltar aos livros de administração de faculdade. O que eles dizem? Se o mercado está em queda, devemos reduzir os nossos custos. E isso já ocorre, todas as montadoras já diminuíram o ritmo de produção, ou seja, pela baixa demanda interna ou por causa do vizinho quebrado que não compra mais os nossos carros. Estamos vendo PDV, diminuição de turnos e até demissões.

Se diminui-se custos e o faturamento aumenta, pode-se deduzir que “talvez” o lucro poderá ser mantido e até aumentado.

Enquanto isso, veremos uma infinidade de” mimimis” solicitando um fundo garantidor para o financiamento de carros, redução do IPI e afins.

Concluindo esse último tópico: se as vendas caíram e o faturamento aumentou, que dizer que o carro ficou mais caro! O carro médio do 1º quadrimestre do ano passado era de R$ 44,67 mil contra R$ 47,66 desse ano. Aumento de quase R$ 3 mil. Por fim, se aumentou o faturamento o governo também está faturando (principalmente o IPI) mais e financiando suas despesas – seja lá quais forem….

 

RESUMO DA ÓPERA: Consumidor com medo do futuro + crédito restritivo + carro R$ 3 mil mais caro = queda nas vendas.

 

Para quem acompanha o INFOMONEY, deve ter visto uma matéria falando sobre “a bolha automobilística” (http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/carros/noticia/3318418/dividas-altas-inadimplencia-demissoes-brasil-pode-ter-bolha-automobilistica).  O tema (titulo) está certíssimo, mas a ideia central um pouco fora da realidade. Vamos tentar mostrar – na semana que vem – como está a bolha (que já é real) e que só nos dois últimos meses foi responsável por mais de 28% das vendas de carros.

 

 

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.