ENTENDENDO UM POUCO MELHOR O MONOPÓLIO DA HONDA

Um dos segmentos que mais cresceram ao longo das últimas três décadas foi o segmento de motocicletas. Sendo que a Honda ao longo desse periodo é líder do mercado com Share acima de 80%. O que a levou a esse cenário tão confortante?

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Um dos segmentos que mais cresceram durante a história do Plano Real, foi o setor de motocicletas.  A estabilidade/crescimento econômico fez com que o mercado de duas rodas apresentasse crescimento médio anual de 17% NOS ÚLTIMOS 20 ANOS!

Apenas como ponto ilustrativo, no ano de 1993 (antes do lançamento do plano Real) tivemos 68 mil motocicletas vendidas naquele ano. Já em 2012, fechamos o ano com 1,625 milhões de motocicletas vendidas.

Ou seja, em 2012, praticamente 15 dias de vendas corresponderam pelas vendas totais do ano de 1993.

Pegando a quantidade de motocicletas vendidas no período de 1986 até 2013, registramos que tivemos mais de 20,3 milhões de unidades vendidas. E, é aqui que começamos nossos questionamentos.

Dessas 20,3 milhões de motocicletas vendidas, 16,4 milhões foram de motocicletas Honda. Isso faz com que a Honda detenha participação média de mercado de 81%, sendo que essa fatia oscilou entre um mínimo de 61,3% e um máximo de 92,2%.

O grande ponto é: Por que a Honda manteve uma participação média de 81% ao longo dos últimos 28 anos? O que a faz tão diferente que durante essas quase três décadas ninguém a “realmente incomodou” ?

Durante a história dessa hegemonia da Honda tivemos quatro grandes fatores que explicam o sucesso dela:

  • Na década de 80 e início de 90, tínhamos dois grandes  players: Honda e Yamaha. Mercado então dividido numa proporção de 60% e 40%. Naquele momento,  a Honda apostou (e ganhou) ao lançar primeiro uma nova geração de motores. Os chamados motores quatro tempos originaram-se dos  antigos motores dois tempos.  No início dos anos 90, quando o governo federal  implementou políticas de emissão de poluentes,  os motores quatro tempos se consolidaram de vez e, aqui, a Honda ganhou grande vantagem por ter sido a pioneira neste quesito.
  • Junto com o lançamento do novo motor a Honda investiu pesadamente em motocicletas de baixa cilindradas e pequenas. O que a Honda estava vendo (ou antevendo) era que a motocicleta iria ganhar o seu papel de importância no quesito mobilidade urbana. Além disso, com a consolidação do plano Real, tivemos o surgimento de novas profissões como o motoboy, mototaxi e afins. Enquanto a Honda lançava em 1992 a motoneta (C100 Dream),  a Yamaha demorou cinco anos para lançar um produto similar (Yamaha Crypton);
  • Preços Fixos – Após a mudança de motorização e lançamento de motocicletas menores e de baixa cilindradas, a Honda havia se consolidado no mercado de duas rodas. Neste contexto, um dos pontos que ajudou em muito o desenvolvimento desse setor foi a política de preços  adotados pela Empresa. Durante o período de 1994 até 1999 os preços médios das motocicletas Honda foram reajustados  – em média – apenas ¼ do que apontavam os índices de inflação da época. Ou seja, “tecnicamente” os preços de boa parte das motocicletas Honda mantiveram-se inalterados  ao longo desses seis anos!

O que registramos nesses três tópicos, foi que a mudança de motorização, novos modelos menores e uma política de “preços congelados” fez com que a Honda se consolidasse e criasse uma série de barreiras para as novas marcas que tentassem entrar no mercado.

Além disso, existe um quarto fator. Como o público prioritário do segmento de motocicletas são os consumidores das classes “C” e “D”, que, em geral  não possuem acesso a crédito para a aquisição da motocicleta, investiu-se num produto 100% brasileiro, que é o Sistema de Consórcios.

Quando é ofertada linha de crédito para a venda de motos, comparando-se com a linha de automóveis, temos uma taxa de juros três vezes maior;  além do percentual de entrada também ser maior que o de automóveis  e  prazo de financiamento bem mais curto. Acreditamos que o consórcio é um grande responsável  pelo crescimento e consolidação da Honda como líder de mercado no setor de duas rodas. Atualmente,  o Consórcio Nacional Honda é o maior entre todas as empresas autorizadas a operarem pelo Banco Central (em número de consorciados).

E aqui vão  alguns dados do Consórcio Nacional Honda, para comprovar a sua importância:

  • Em abril deste ano, possuíam um montante de 819.310 consorciados ativos não contemplados, ou seja, o consórcio da Honda possui uma carteira de vendas futuras de aproximadamente 7 meses de vendas da marca;
  • Comparando essa carteira de clientes não contemplados, com os dados de produção da Yamaha, ela equivale a quase 6 anos de produção de motocicletas Yamaha.
  • Estimamos que 55% das motocicletas Honda vendidas neste ano, foram através do consórcio da montadora.

Ou seja, a Honda consegue prever qual será a produção de motocicletas no próximo mês, baseando-se na carteira futura de clientes que ela tem. Coisa que as outras montadoras não conseguem fazer com a mesma precisão que ela.

Por fim, no sistema atual, dificilmente a Honda terá oscilações drásticas no seu Market Share – pelo menos, não na próxima década…. 

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.