COMO ANDA A RENTABILIDADE DAS MONTADORAS DE VEÍCULOS?

Uma visão da rentabilidade das montadoras no "novo mercado"

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Segundo o Banco Central do Brasil, no final do ano passado (2013), as montadoras de veículos do Brasil remeteram para as suas matrizes a bagatela de US$ 3,29 bilhões em pagamento de dividendos.

Num mercado onde as vendas apresentaram retração de quase -2% (apenas autos. O setor automotivo – incluindo automóveis, caminhões, ônibus e máquinas agrícolas – retraiu-se quase -5%),  esse volume representa uma evolução de 36% sobre o ano de 2012,  quando a remessa foi de US$ 2,44 bilhões.

Se olharmos um pouco mais para trás, entre 2006 até 2013, as montadoras mandaram de lucro às suas matrizes, o volume total de US$ 28,81 bilhões, o que representa uma média anual de US$ 4,12 bilhões. Logicamente que esse valor médio está longe da marca histórica de 2008 (US$ 5,62 bilhões) ou a de 2011 (US$ 5,58 bilhões), mas, mesmo assim,  é UM SENHOR RESULTADO!

O ponto que queremos debater aqui são dois:

O primeiro é que, independentemente da qualidade dos carros vendidos, impostos ou do preço de venda serem abusivos ou não, em geral, SER UMA MONTADORA DE VEÍCULOS NO BRASIL É COMO GANHAR NA LOTERIA! Se a gente pegar todos os investimentos feitos nesse período pelas montadoras, com sorte (numa visão extremamente benevolente),  podemos afirmar que investiram aqui, no Brasil, metade do que elas mandaram para as suas matrizes. Mas não necessariamente  elas desembolsaram alguns bilhões de dólares… talvez tenham  pego o dinheiro emprestado de algum banco, como, por  exemplo hipotético, o BNDES…

Sabemos que o objetivo de qualquer empresa é ser lucrativa e remunerar bem o seu acionista. Bem como, qualquer lançamento de algum novo veículo demanda muito tempo e dinheiro. E nesse contexto o mercado brasileiro está fazendo o seu papel para elas, mostrando ser bem rentável.

O segundo ponto é o mais interessante, para nós!

OK! O mercado automotivo é MUITO rentável. Mas é rentável para todos? Usarei mais uma vez o exemplo da FORD. Porquê a FORD? Por que ela tem 10% do mercado, possui uns dos melhores balanços para se analisar (no caso dos balanços da empresa podemos estimar com um pouco mais de precisão a lucratividade brasileira) e adoramos os carros da marca.

Vamos lá:  no mesmo período a divisão da América do Sul da Ford (Brasil algo próximo a 70%) gerou uma lucratividade de US$ 5,768 bilhões. Num total de 3,723 milhões de veículos vendidos, o que gerará uma lucratividade por veículo de US$ 1.549,29.

O ponto interessante aqui é que a FORD (América do Sul) participou nesse período com  8,4% de todos os carros vendidos pela marca. Mas no quesito lucratividade,  a participação dessa divisão foi de 32,5% (quase quatro vezes mais). Isso serve para colaborar com o nosso primeiro argumento. Mas o mais interessante foi o que aconteceu com a lucratividade da marca, ao longo do tempo. No período de 2006 até 2010, essa divisão registrava lucro médio anual de US$ 945,6 milhões. Já no ciclo de 2011 até 2013, essa lucratividade média foi de US$ 346,67 milhões. Ou seja, lucratividade 63% menor!

Se olharmos os anos isolados de 2012,  com lucratividade de US$ 213 milhões e o ano de 2013 com PREJUÍZO DE US$ 34 MILHÕES percebemos que alguma coisa mudou e está mudando…

E o que aconteceu para essa queda brusca? Aconteceu que novas marcas entraram. Se analisarmos lá atrás, de 2006 até 2010, o mercado era basicamente das quatro grandes (VW, Fiat, GM e FORD). Tivemos a entrada de marcas em nichos específicos (como a Toyota e a Hyundai), o que gerou concorrência acirrada e respectivamente perda de Share para as “quatro grandes”,  principalmente.

O pensamento final que fazemos é o seguinte:  se a FORD, que detém 10% do mercado (dentre as quatro grandes),  foi a que sofreu menos em vendas no ano passado e, mesmo assim, encerrou com prejuízo de US$ 34 milhões, quem foi que remeteu os US$ 3,29 bilhões para as suas matrizes? 

 

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.