BOLHA AUTOMOBILÍSITA???

Um complemento sobre o tema.

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Tivemos, no último dia 30/04, matéria publicada aqui no INFOMONEY tratando sobre o tema (http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/carros/noticia/3318418/dividas-altas-inadimplencia-demissoes-brasil-pode-ter-bolha-automobilistica).

Decidimos aproveitar o espaço para colocar a nossa visão.

Aquele texto abordava temas como: estoque alto, a baixa demanda e até a dificuldade na liberação do crédito. Tudo isso é verdade, mas, no caso do setor automotivo, o problema é um pouco mais embaixo.

O que acreditamos que está ocorrendo? Em linhas gerais, estamos vendo uma “prostituição do mercado”. Mas, como assim?

O grande problema aqui é que elas (as montadoras) estão esquecendo de trabalhar o seu principal bem: “o cliente”. Mas como??? Se estão batendo recorde de vendas ano após ano nos últimos cinco anos? O que percebemos é que estão esquecendo de trabalhar o “consumidor normal”, consumidor esse, assim como eu e você.

Vou tentar explicar melhor:

Vendo o mercado americano (antes da crise financeira),  já sabíamos que algo não ia bem com a economia. Numa visão bem simples, o americano médio, possui três grande despesas: Carro (leasing); Casa (hipoteca) e plano de saúde – nesta ordem. Tirando isso, todo o resto da renda deles vira consumo.

E como estava o mercado de automóvel no período de 2003 até 2006? O mercado de carros estava “flat” neste período, com o volume de vendas oscilando pouca coisa. No ano de 2003, tivemos volume de 16,7 milhões de carros e, já no ano de 2006, o volume foi de 16,5 milhões, com singela diminuição de 200 mil carros entre os anos.

Aqui, verifica-se que, as vendas aos consumidores “normais” , estavam em decadência desde 2003. O mercado diminuiu 200 mil unidades no período de 2003 até 2006. No caso das vendas para os consumidores “normais”, a perda foi de 1,1 milhão de carros vendidos no período. Ou seja, quem estava comprando carro era o frotista, não o consumidor comum. Quando aconteceu a crise em 2008, o mercado de veículos americano registrou 13,2 milhões de carros vendidos, ou 3,5 milhões de carros comercializados a menos, sobre 2003. Sendo que a diminuição das vendas aos consumidores comuns foi de 3,45 milhões; e de 50 mil para os frotistas.

Houve, naquela época, por parte das montadoras, um apelo muito grande de se trabalhar com as empresas frotistas ao invés dos consumidores normais.

Mas o golpe final para as montadoras foi no ano de 2009, quando os “grandes clientes” , devido a situação econômica dos EUA, deixaram de comprar carro. Registrou-se uma queda de quase -20% nas vendas em 2009 sobre 2008, onde os frotistas tiveram retração de quase -35%. Fato normal, uma vez que, com a diminuição da atividade econômica, parou-se de fazer investimentos.

Voltando para o mercado brasileiro. Como anda a nossa situação? Bem… no caso do mercado americano, as vendas aos “grandes clientes” estavam na ordem de 20% a 22% do total vendido na época da crise. No mercado brasileiro, as vendas aos frotistas já correspondem por 26% do total vendido. Somente nos últimos dois meses (março e abril), quase 30% do volume de veículos comercializados foi  para esses clientes.

Pegando os resultados do 1º quadrimestre de 2010, obtivemos 1,001 milhão de carros vendidos contra 1,052 milhão deste ano, um crescimento de 4,3%. As vendas no varejo (consumidores normais) tiveram retração -3%, e as vendas aos grandes clientes elevaram-se 32%. Em resumo, hoje menos pessoas estão comprando carro do que em 2010.

Um percentual de 26% das vendas para grande contas é altamente preocupante! Além disso, existe mais um lado perverso!

Quando uma grande conta compra um carro, ela não paga o preço que nós, simples mortais, pagamos. Em geral, o preço  é quase 15%  mais barato (quando não for BEM MAIS). Ou seja, se um carro custa R$ 50 mil, paga-se uns R$ 42 mil, pelo mesmo veículo. Isso significa que, daqui a 12/18 meses, quando esse carro entrar no mercado de seminovos, a perda que o consumidor normal (o que comprou por 50k) terá, será maior. Esse frotista geralmente faz com que o preço dos carros seminovos despenquem. Por isso que a maioria das pessoas falam que, quando um carro sai da concessionária, ele já tá valendo uns 20% a menos.

Tá bom? Não… ainda tem mais! A venda indiscriminada feita para CNPJ por parte das montadoras, faz com que as concessionárias (elo de distribuição) “morram” aos poucos. Em geral, quando um consumidor compra um carro numa concessionária, esta trabalha com uma margem entre 8% a 10%. Dependendo da venda feita a CNPJ, o concessionário ganha uma margem mínima (algo tendendo a zero); sendo que este possui toda uma estrutura para bancar. O final da história estamos vendo agora. Uma quantidade significativa de concessionários fechando as portas e mais uma quantidade gigantesca de empresas em dificuldades e com a intenção de encerrar as atividades.

A situação que vislumbramos é que, com um parceiro comercial fraco (financeiramente) ou uma loja fechada, há a diminuição da capilaridade da montadora em chegar ao cliente comum; fazendo assim com que as montadoras registrem perdas no futuro. Algumas marcas (como a FIAT, A LÍDER DE MERCADO), já operam com mais de 40% das suas vendas através dessa modalidade.

O gráfico abaixo mostra como está o Market Share das marcas neste ano. Separamos aqui as vendas totais daquelas feitas para CNPJ. Percebam que só as duas principais marcas (VW e FIAT) perdem quase 7 pontos percentuais de Share.

O nosso medo é que elas estraguem toda uma cadeia, motivada por política de comercialização distintas. Onde o consumidor paga pelo seu carro 50k e o CNPJ paga 42k. Se existe tanta margem assim, porquê não fazer uma equalização dos preços?

Finalizando, dos 1,052 milhão de carros vendidos neste ano, as montadoras venderam quase 270 mil para esses “clientes especiais”. Ou seja, de quatro meses de vendas, três foram feitos pelas concessionárias e 1 pelas montadoras.

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.