AS VENDAS DE VEÍCULOS E O MEDO

Tentando explicar a queda nas vendas de veículos...

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Nos últimos meses, vários analistas do setor automotivo tentam entender o que “raios” acontece com as vendas de veículos.

E a tônica é verdadeira…

No ano passado, projetávamos um mercado com queda na ordem de -4%. Já em fevereiro, revimos as nossas projeções e apontamos um mercado com queda na ordem de -9,5%. Pois bem… até o dia 22/06, o setor registrava 1,5 milhão de carros vendidos e queda de -8% sobre o mesmo período do ano passado.

Infelizmente,  as nossas projeções estão quase lá… (pessoalmente, acredito que erraremos “para menos”).

Mas, afinal de contas, o que está acontecendo?

Se um “alienígena” chegasse aqui e olhasse alguns indicadores, ele também não saberia explicar. Vamos lá:

1.       A taxa de desemprego (mar/14) estava em 4,6%.  Há um ano atrás, era na ordem de 5,7% e há dois anos atrás, estava em 6,1%. Percebe-se que melhoramos muito neste aspecto.

2.       O volume de vendas no comercio varejista dos últimos 36 meses apresenta um crescimento médio mensal de 6%.

3.       O rendimento “real” dos trabalhadores apresenta um crescimento médio de 3,2%. Ou seja, os dissídios, além de corrigirem a inflação, geraram ganho real ao trabalhador;

4.       Em 2006 – 65% da população era da classe D/E, hoje é algo próximo a 50%

5.       As reservas internacionais, que eram de US$$ 38 bilhões em 2002, saltou para US$ 86 bilhões em 2006 e hoje estão na casa de US$ 380 bilhões.

 

Esses cinco pontinhos ordinários colocados aqui, indicam que o mercado (falando apenas do automotivo) não deveria estar nesta atual situação.

E ainda insistem  que o problema é o fator crédito….

Não que ele não seja…. Mas, em abril/12,  tínhamos uma disponibilidade de quase R$ 178 bilhões para fazer financiamento automotivo, e neste ano estávamos com valor próximo a R$ 190 bilhões. Ou seja, a carteira de 2014 aumentou em relação a de 2012 e mesmo assim venderemos menos que 2012.

Resumindo: Crédito, TEMOS. Baixo índice de desemprego, TEMOS. Melhoria do rendimento dos trabalhadores, TEMOS. Ascenção de novos consumidores em novas classe sociais, TEMOS. Quase R$ 40 bilhões em novos investimentos das montadoras, TEMOS.

MAS POR QUE RAIOS AS VENDAS ESTÃO EM QUEDA?!?!?!

Bem… aqui entra o fator subjetivo que explica tudo, principalmente para o nosso alienígena que desembarcou aqui em terras TUPINIQUINS.

ESTAMOS VIVENDO UMA FASE DE MEDO.

Como assim??

Vamos lá:

A FECOMERCIO/SP, com grande propriedade, divulga mensalmente o seu ICC – INDICE DE CONFIANÇA DO CONSUMIDOR.  Em resumo, o ICC identifica o “humor”  mediante sua percepção relativa às suas condições financeiras, às suas perspectivas futuras e também à percepção que o consumidor tem das condições econômicas do país.

O índice deles varia de 0 a 200.

Para nós, quando esse índice está com “nota 7” (algo próximo a 140),  isso tenderá a gerar consumo, um bom consumo. No começo do ano de 2013, esse índice era nota 8 (mais ou menos 160). Uma maravilha na nossa visão! Porém, a partir de março/abril 2013 esse índice começou a cair continuamente. Exatamente nos períodos das manifestações e quando começaram a estourar uma série de pepinos na esfera polÍtica. Encerramos o ano de 2013, com nota de 6,8. Passamos de ano, sem recuperação, devido ao conselho de classe.

Só que as coisas não melhoraram…

Começamos o ano com nota 6,5,  e agora em maio estamos com média 5,5. Bem distante da nossa média 7 e, provavelmente, uma recuperação não dará mais jeito para este ano…

Esse é o grande problema que o setor automotivo – e também outros setores da economia – vivenciam. O medo ou a desconfiança que os consumidores tem sobre as suas perspectivas futuras. É lógico e natural! Se tenho dúvidas do que vai acontecer daqui para frente, não vou me endividar comprando um carro, ou qualquer outro bem! A indice atual de 109,49, apontada pelo FECOMERCIO/SP é 25% inferior ao índice de 12 meses atrás (145,97) e é 33% inferior a marca de 24 meses atrás (163,05).

Tá bom?? Não, tá ruim pra caramba! Esse é o PIOR ÍNDICE DOS ÚLTIMOS 103 MESES!!!

Por mais que tenhamos “bons indicadores”, parece que o medo está vencendo…

E aqui não existe milagre. Você não pode usar o “poder da caneta” e fazer com que todos comecem a consumir. Existe um medo, uma insegurança do que vai ser do país/economia daqui pra frente… Se eu tenho medo eu não compro, é lógico e natural.

O lado ruim é que, daqui até as eleições, não tem sinal de melhoras. Após elas, saberemos se teremos uma tempestade ou um mar calmo à frente…

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.