A NOVA TENDÊNCIA NA PRODUÇÃO DE VEÍCULOS

O setor automotivo ao longo da sua história vem sofrendo diversas alterações. A última delas foi na década de 70/80 com a implementação do "sistema Toyota de produção". Será que hoje, não estamos vivenciando uma nova onda...

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Nesta última semana, uma série de notícias  sobre o setor automotivo nos geraram grandes reflexões. Tivemos o falecimento do Eiji Toyota (criador do famoso sistema de produção da Toyota), que revolucionou a marca e fez com que diversos outros fabricantes o adotassem; as últimas informações contábeis e financeiras de montadoras europeias, que mantém o “grande desastre que elas estão vivendo”. E, nesta semana, ocorre o “Global New Dealers Convention”, da Hyundai, em Seul, do qual viemos participar.

E, daqui, partimos para as nossas análises.

O sistema de produção Toyota foi um marco para o setor, revolucionando toda a sistemática de produção. Isso garantiu à Toyota tornar-se a montadora  de veículos que mais vende e produz carros no mundo. Da mesma forma, os últimos resultados dos balanços de algumas montadoras europeias (Ex. Grupo PSA, Renault) mostram um cenário “apocalítico” para essas marcas. Tivemos também marcas americanas consagradas que estão em situação complicada, tais como: a Chrysler que quebrou (e foi adquirida pela Fiat), a GM que entrou na UTI e parece que está melhorando e a própria Ford que, digamos, chegou a ter um princípio de AVC.

Já a Hyundai… bem, a Hyundai está saindo de uma posição muito boa para EXCELENTE!

Mas, afinal de contas, por que a Hyundai, no meio de todas as marcas, é a única que está se sobressaindo? Nesta semana que estamos em Seul conhecendo um pouco mais a marca, descobrimos o motivo para essa reviravolta. Fazendo um breve resumo, a Hyundai é uma marca nova (nascida em 1963 – contra as centenárias Mercedes e Peugeot, por exemplo) que começou a se desenvolver mais fortemente a partir de 2000 com a sua forte política de qualidade nos produtos.

Até aí, nada de novo. Todas as marcas tem, como foco principal, a QUALIDADE. Mas o que a fez se diferenciar no meio deste setor? O que a fez num período de pouco mais de uma década e meia a se destacar tão fortemente ante marcas centenárias?

O que descobrimos foi que a Hyundai mudou a sistemática de produção de seus carros.

Como funciona, a grosso modo, a produção de um carro? Em geral, uma montadora se instala em determinado local junto com uma série de empresas de autopeças que fornecem o seus insumos. Assim, as marcas são consideradas – literalmente – MONTADORAS DE VEÍCULOS.

E essa é a tônica presente na maiorias das marcas. Mas, como já sabíamos e viemos a confirmar, a metodologia de produção de carros da Hyundai é um pouco diferente. Como funciona a produção de um carro da Hyundai, na Coreia do Sul, ou seja, como foi fabricado aquele i30, Sonata ou Azera que você vê na rua?

Em linhas gerais é assim: o insumo básico para a produção do carro é o aço; todas as montadoras o compram diretamente de alguma uma Siderúrgica. A Hyundai também… só que ela compra aço da HYUNDAI STEEL. As peças dos veículos são adquiridas pelas empresas sistemistas que geralmente estão no complexo industrial da montadora. E não é diferente do caso da Hyundai, só que ela possui outras SETE empresas que produzem as peças para a montagem dos carros, que foram feitas através do insumo básico (aço) adquirido de alguma siderurgia…

Bom… so far, so good! Uma vez produzido o carro no longínquo oriente de Marco Polo, eu preciso mandá-lo  para o Ocidente. O transporte de veículos importados, normalmente é feito através de navios. E vocês podem  imaginar quem é um dos maiores produtores de navios e também possui um porto?

Além disso, o grupo possui no total 57 empresas que auxiliam a marca: temos, por exemplo a HYUNDAI CONSTRUCTION onde, dentre outras coisas, podem construir fábricas de automóveis, empresas de logística, softwares; além de cinco empresas do ramo financeiro.

O interessante aqui é que a Hyundai não “monta” apenas os seus carros como todas as outras. Quase todo o processo de fabricação do veículo, desde a extração do minério de ferro em Carajás/PA, até a chegada do mesmo na concessionária é feita – em grande parte – por alguma das empresas que compõem o conglomerado. Eles trazem o minério em seus navios, descarregam no seu porto, transformam-no na sua siderurgia que gera o aço para a fabricação das peças e dos seus carros, que vão para o seu porto e pegam o seu navio até o país de destino.

O que percebemos é que existe um “pequeno ganho de escala”, e esse ganho está refletindo em uma melhoria continuada dos seus produtos. Tanto é verdade que a Hyundai foi a primeira montadora a colocar na rua um veículo movido a Hidrogênio.

Nesse cenário, um dos grandes ganhadores é o consumidor. Como certa vez disse a revista Fortune: HYUNDAI – COMPETITORS HATE THEM. CUSTOMERS LOVE THEM.

Observação – Não mantemos qualquer tipo de vinculo comercial com a Hyundai ou com qualquer empresa pertencente ao grupo, bem como, essa viagem não foi paga por eles.

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.