A lucratividade do setor automotivo. Mudança de rumo??

Debruçando-se um pouco mais sobre os números do setor.

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Caro leitor, antes de vocês brincarem de “Geni” comigo nos comentários, só queria dizer que: EU CONCORDO COM VOCÊS! O setor automotivo É MUITO RENTÁVEL.

Bem, posto isso, vamos ao que interessa.

Apesar de – no longo prazo – o setor automotivo BRASILEIRO ser um dos mais rentáveis, percebemos que, no decorrer dos últimos anos, essa tônica vem mudando.

E mudando de uma forma bem rápida!

Vamos ilustrar com o exemplo do balanço da FORD. (Porquê vamos utilizar o balanço da FORD? Porque fazem uma separação regional bem interessante, onde apuramos a lucratividade da América do Sul – o Brasil é quase 70% da América do Sul para eles).

Segundo eles, nos últimos 9 anos (2006 até 2014), a lucratividade de sua divisão automotiva (pre-tax) foi de US$ 21,65 bilhões. Considerando um volume de 50,4 milhões de veículos vendidos.

Neste cenário, ainda segundo as informações divulgadas por eles, a América Latina vendeu 4,186 milhões de veículos FORD ao longo dos nove anos. Isso implica em dizer que essa região corresponde por apenas 8,3% do total que a marca vende.

Agora, vamos fazer uma continha bem simples:

Pegando os quase US$ 22 bilhões de lucro e dividindo pelos mais de 50 milhões de veículos vendidos, a lucratividade média por veículo vendido da FORD foi de US$ 429,56. Na mesma linha de raciocínio, a região da América do Sul (Brasil com peso de 70%), teve uma lucratividade US$ 1.100,57. Com lucro total no acumulado dos últimos nove anos de US$ 4,6 bilhões.

Ou seja, a América do Sul, que corresponde por 8% das vendas, responde por 21% da lucratividade da marca.

Mas o grande ponto que percebemos é que essa forte lucratividade começou a desandar a partir de 2012. De 2006 até 2011, a lucratividade média dela aqui no Sul era superior a 2k por carro vendido. Já nos últimos três anos, o prejuízo médio da marca por veículo vendido foi de US$ -655.

Resumindo, a Ford vendeu seus veículos aqui na América do Sul, na média dos últimos três anos, com um prejuízo médio de US$ -655. Só no ano que passou, cada carro vendido gerou uma perda de mais de US$ -2,5 mil.

O que estamos vivenciando na atualidade é um momento de forte diminuição na lucratividade de algumas montadoras. As montadoras mais antigas são as que estão sofrendo mais no atual cenário de retração de mercado.

 

 

LEMBRETE: Tivemos dois anos de queda nas vendas (2013 e 2014); esse ano teremos a terceira queda consecutiva (superior a -6%) e, para agravar ainda mais a situação – das montadoras mais velhas – tivemos a entrada de novas marcas/fábricas nos últimos 4-5 anos. Além disso, quase todas as montadoras apostavam num mercado superior a mais de 4 milhões de unidades para 2015/2016, quando tivemos os mais diversos investimentos.

O ponto aqui é que: concordamos que a lucratividade do setor automotivo brasileiro ainda é alta, MAS ESTAMOS CAMINHANDO PARA UMA FORTE DIMINUIÇÃO DAS MARGENS.

Pegando os reflexos das notícias divulgadas pela mídia no começo do ano, vimos uma série de manifestações trabalhistas de diversas montadoras (em geral as do ABC paulista) sobre a possibilidade do aumento das demissões. Bem, independentemente se são válidas ou não as manifestações; por exemplo, no caso da FORD (que perdeu nos últimos três anos algo próximo a US$ -1,1 bilhão), alguma coisa tinha que ser feita…

Outras montadoras também tiveram perdas. A GM encerrou o ano com algo próximo a US$ 200 milhões de prejuízo. O que notamos é que, gradativamente, as montadoras “tradicionais” estão perdendo mercado e lucratividade. Lembra-se do prejuízo da FORD nos últimos três anos de US$ -1,1 bilhão? Então… segundo informações divulgadas na mídia, a Hyundai investiu uns 80% disso na construção da sua nova fábrica e COM CERTEZA eles não tiveram um balanço tão negativo quanto a FORD. Ou seja, neste exemplo simplista, aonde uma perdeu outra ganhou.

Na verdade, apesar de não haver um detalhamento maior, os dados preliminares do nosso quarteto asiático (Honda, Hyundai, Nissan e Toyota) apontam para números positivos.

Se a situação de algumas montadoras não “está lá grande coisa”, a dos seus concessionários está ainda pior. Das informações que podemos divulgar para vocês, faremos uma analogia com o mercado americano. Um concessionário americano médio, no período de 2012 e 2013, teve uma venda média mensal de 71 carros. A lucratividade do departamento de veículos novos (ano) foi de US$ 111 mil no ano de 2012 e de apenas US$ 69 mil em 2013. Ou seja, um concessionário médio americano tem um lucro (net profit) de quase US$ 105 por carro vendido. A imagem abaixo mostra a lucratividade dos últimos 10 anos dos concessionários americanos.

 

 

O que o mercado aponta para nós é uma forte retração na lucratividade das montadoras, em especial, para as mais antigas sediadas no Brasil. Para as concessionárias brasileiras, a visão é delas entraram num processo de margens negativas já neste ano (fora aquelas que já estão no vermelho). A analogia que fazemos para as concessionárias brasileiras é de que elas estão na mesma posição das concessionárias americanas, mas com um delay de sete anos. Ou seja, entram em uma trajetória de queda enquanto os nossos amigos do Norte entram em uma trajetória de alta.

Como os próximos dois anos serão de baixa atividade econômica e baixa oferta de crédito, teremos volumes menores com a concorrência apertando a todos. O fechamento de postos de trabalho e de empresas deverá ser “uma normalidade” para 2015 e 2016. Infelizmente…

Raphael Galante

Raphael Galante é economista, trabalha no setor automotivo há mais de 20 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.