O potencial do Bitcoin para fazer o bem

Em um passado não muito distante, o Bitcoin costumava ser associado a todo tipo de fim ilícito: compra de drogas e outros produtos proibidos, lavagem de dinheiro e até mesmo para financiamento de redes terroristas. Em um passado não muito distante, Bitcoin e Silk Road – notório mercado negro online que foi encerrado pelas autoridades americanas no ano passado – eram considerados duas faces da mesma moeda, ou, talvez, sinônimos. A “moeda do crime on-line”, como cunhou a revista Veja no começo deste ano – o que rendeu um post neste blog, rebatendo os diversos equívocos da matéria. Mas este passado fica cada vez mais para trás e as más associações do Bitcoin pouco a pouco se dissipam.

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Em um passado não muito distante, o Bitcoin costumava ser associado a todo tipo de fim ilícito: compra de drogas e outros produtos proibidos, lavagem de dinheiro e até mesmo para financiamento de redes terroristas.

Em um passado não muito distante, Bitcoin e Silk Road – notório mercado negro online que foi encerrado pelas autoridades americanas no ano passado – eram considerados duas faces da mesma moeda, ou, talvez, sinônimos. A “moeda do crime on-line”, como cunhou a revista Veja no começo deste ano – o que rendeu um post neste blog, rebatendo os diversos equívocos da matéria. Mas este passado fica cada vez mais para trás e as más associações do Bitcoin pouco a pouco se dissipam.

De fato, se 2013 foi o ano em que não podíamos falar do Bitcoin sem que se invocasse o Silk Road na mesma frase, este ano que se encerra será marcado por uma tendência radicalmente oposta: a de usar bitcoins para apoiar causas nobres e instituições sem fins lucrativos.

Vejamos alguns casos recentes. Em setembro passado, aderiu ao bitcoin a United Way, instituição americana de mais de 125 anos de existência; é a maior entidade privada sem fins lucrativos do mundo, levantando mais US$ 5 bilhões em doações anuais.

Apenas alguns dias depois do anúncio da United Way, juntou-se ao time de non-profits que aceitam o bitcoin nada menos que o Greenpeace. E adotar a criptomoeda para doações é, em realidade, algo essencial ao modelo de negócio do Greenpeace, já que a empresa não aceita contribuições nem de corporações nem de governos, apenas de indivíduos.

Outra caraterística fundamental para a defensora do meio ambiente é a privacidade que o bitcoin permite ao doador – muitas vezes um fator decisivo para realizar uma doação –, além dos menores custos de transação e riscos de fraude, logicamente.

A Cruz Vermelha Americana tampouco quis ficar para trás, passando a aceitar contribuições em bitcoin desde novembro.

E se você tem interesse em ajudar crianças necessitadas ao redor do globo, pode doar bitcoins à Save The Children, a mais recente organização sem fins lucrativos a adotar a moeda digital. Provendo ajuda e socorro a mais de 140 milhões de crianças no mundo todo, a empresa já pôde contar com a generosidade da comunidade do Bitcoin no ano passado e está convencida do potencial da moeda digital para alavancar o terceiro setor em nível global.

Em se tratando de instituições de caridade na indústria do Bitcoin, merece especial destaque a BitGive Foundation – cuja fundadora Connie Gallippi esteve como palestrante na Labitconf 2014 Rio – por ser a primeira empresa sem fins lucrativos do mundo do Bitcoin.

Envolvida em diversas ações sociais e filantrópicas, no começo do mês a BitGive lançou uma excelente campanha intitulada “Bitcoin Giving Tuesday” (Terça-feira da Doação do Bitcoin), incentivando a comunidade a gastar bitcoins com o próximo em causas nobres, em contrapartida ao Black Friday, em que se gasta, normalmente, consigo próprio.

E justamente na terça-feira da campanha – superando todas as expectativas –, o volume de transações na rede Bitcoin ultrapassou o recorde anterior, batendo a marca de 103 mil em um único dia.

Se causas sociais, fins nobres e ações de caridade são iniciativas muitas vezes globais – assim como as organizações por trás de muitas dessas empreitadas – doações não podem jamais ser delimitadas, ou inibidas, por linhas territoriais invisíveis. Por isso o bitcoin pode ser uma excelente solução ao terceiro setor.

Uma moeda global – qualquer um pode doar às empresas aqui citadas de qualquer parte do mundo – aliada a uma tecnologia inclusiva – qualquer um pode conectar-se à plataforma financeira global do Bitcoin e doar qualquer quantia às causas que lhe são mais caras – é um complemento perfeito a quem quer fazer o bem e impactar a vida de pessoas necessitadas, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.

Hoje em dia, a associação do Bitcoin a atividades ilícitas já não ocorre com a mesma frequência que um ano atrás. Aliás, isso é cada vez mais raro. E será cada vez mais a exceção à regra. Porque no fim das contas fica claro a todo mundo que o Bitcoin nada mais é do que uma tecnologia.

E como já escrevi neste blog, o Bitcoin pode ser usado para o bem e para o mal, mas a tecnologia em si é neutra.

Um bisturi na mão de um cirurgião salva vidas; mas pode matar se usado por um psicopata. Uma máquina fotográfica eterniza momentos inesquecíveis e emocionantes na vida de cada um, mas, nas mãos de um pedófilo, pode registrar situações abomináveis. Da mesma forma, um carro que pode tirar vidas quando conduzido por um alcoólatra também pode levar uma noiva à igreja no dia de seu casamento.

O Bitcoin não é bom ou mau. É uma moeda nova, uma tecnologia inovadora, a qual permite infindáveis possibilidades, muitas das quais nem conseguimos prever no momento. Mas assim como qualquer tecnologia, ele pode ser usado para fins moralmente deploráveis ou até mesmo criminosos.

Precisamos entender que o ato ilícito está na ação do contraventor e não na tecnologia; porque esta, por definição, significa simplesmente empregar o conhecimento científico em aplicações práticas, significa possibilitar ao homem novas formas de fazer mais com menos recursos – produtividade –, ou de realizar coisas até então impossíveis. A tecnologia facilita qualquer atividade humana – para isso serve a tecnologia!

Ninguém pensaria em obstruir ou proibir a fabricação de telefones celulares porque o crime organizado faz amplo uso dessa tecnologia para levar à cabo suas contravenções.

Que legisladores não tomem decisões apressadas, impondo enormes obstáculos com o objetivo de frustrar o uso ilícito do Bitcoin e, simultaneamente, acabando por privar as pessoas de bem de beneficiarem-se dessa inovação. Não joguemos o bebê fora junto com a água suja do banho. Há um tremendo potencial para beneficiar bilhões de pessoas no mundo, e esse uso supera de longe o uso da tecnologia para fins ilegais por uma pequena minoria.

As implicações da criptomoeda ao terceiro setor são incríveis. Por exemplo, se você tem uma ONG atuando em território nacional e deseja levantar fundos para as suas campanhas, você não precisa ficar restrito a colaboradores domiciliados no país, porque com o Bitcoin o seu mercado de doadores potenciais é o mundo inteiro.

Isso nunca ocorreu antes. Nunca houve, na história da humanidade, uma moeda e um sistema de pagamentos global sem fronteiras que possibilitasse a transferência de pequenos ou grandes valores com a facilidade e a rapidez de quem envia um simples email. Isso é transformador, é disruptivo.

Que essa invenção possa ser usada para o mal, é inegável. Porém, o mesmo pode ser afirmado sobre qualquer tecnologia. Sempre foi assim. E sempre será assim. Faz parte da natureza humana. Mas eu acredito na humanidade, nas pessoas de bem, nas mentes criativas e empreendedoras que buscam incansavelmente inovar e solucionar os problemas do mundo. E creio que essas pessoas são a maioria numa sociedade, em que prevalecem aqueles que trabalham honestamente e se preocupam genuinamente com o próximo.

No fim das contas, tudo depende de cada indivíduo. Você pode usar o bitcoin para comprar mercadorias ilícitas, tentar lavar dinheiro ou qualquer outro fim condenável. Mas você também pode usar bitcoins para ajudar crianças na África, proteger baleias com risco de extinção no Oceano Pacífico, ou aliviar o sofrimento de desabrigados pelo último tufão no Caribe. Eu sei qual uso eu prefiro. E acredito que a maioria da sociedade está comigo.

E você, qual uso do bitcoin você prefere?

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil