Novas empresas, investidores institucionais, Niall Ferguson e o Bitcoin

Na economia do Bitcoin, notícias importantes ocorreram nos últimos meses. Novas empresas aceitando a moeda. Economistas, investidores e banqueiros centrais reconhecendo o mérito de um dinheiro apolítico. E a cotação do bitcoin segue firme, em um patamar seis vezes acima do de doze meses atrás.

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Na economia do Bitcoin, notícias importantes ocorreram nos últimos meses. Do ponto de vista de mercado, mais um gigante do varejo online aderiu à moeda digital. Desta vez foi a Newegg, empresa especializada em produtos de tecnologia com quase US$ 3 bilhões de vendas anuais, que desde o início do mês aceita pagamento em bitcoins.

Também recentemente, a empresa americana especializada em e-commerce de flores 1-800 Flowers passou a incorporar a moeda digital às suas formas de pagamentos.

Mas o Bitcoin não ganha aderentes apenas no comércio online. No setor de educação, o King’s College, de Nova York, tornou-se a primeira instituição de ensino superior nos Estados Unidos a aceitar a moeda digital para pagamento de seus cursos.

De acordo com o presidente da escola, Gregory Thornbury, é difícil estimar quantos alunos aproveitarão essa nova facilidade de pagamento. Isso não o preocupa, porém, pois a decisão foi mais baseada em um desejo de ser inovador, forward-thinking. “[O Bitcoin] assemelha-se bastante ao e-mail de 20 anos atrás”, afirma Thornbury: “Por que precisamos disso [se ninguém o usa ainda]? E aí todo mundo aderiu ao e-mail”.

Ainda no âmbito acadêmico, em abril passado, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), dois alunos levantaram meio milhão de dólares para distribuir US$ 100 em bitcoins para cada estudante de graduação da universidade com a finalidade de promover o aprendizado do uso da criptomoeda.

No mercado do turismo, a maior agência online do mundo tomou a decisão de oferecer bitcoins como forma de pagamento para reservas de hotéis. A Expedia junta-se, assim, à CheapAir na lista de players no setor de turismo aderentes à criptomoeda global.

Por fim, é imprescindível mencionar a Dish Network, empresa americana atuante no ramo de televisão e internet por satélite, cuja decisão de incorporar bitcoins à sua operação a colocou no topo da lista como a maior companhia a aceitar a moeda na venda de produtos e serviços. Fundada em 1980 e listada na Nasdaq desde 1995, a receita bruta da Dish alcança aproximadamente US$ 14 bilhões anuais.

Paralelamente, no mercado de informações financeiras, o bitcoin também vem ganhando reconhecimento. Além do próprio InfoMoney em território nacional – onde já existe uma página dedicada à criptomoeda –, desde maio de 2014 os famosos terminais da Bloomberg disponibilizam dados e cotações do bitcoin em tempo real.

Da mesma forma, o Yahoo Finance passou a integrar as cotações do bitcoin ao seu serviço de informações de mercado há pouco tempo. Não querendo perder terreno, o Google Finance seguiu a tendência e agora também disponibiliza as cotações da moeda digital.

De fato, isso em nada surpreende, uma vez que o diretor de Ideias do Google, Jared Cohen – coautor do livro “A Nova Era Digital” –, já havia demonstrado sua receptividade às criptomoedas em diversas ocasiões, como fez durante o evento SXSW, em março deste ano, quando afirmou que as criptomoedas “como o Bitcoin são inevitáveis e vieram para ficar.”

Novos comerciantes e empresas aceitando bitcoins é uma tendência que foi destacada por este blog logo no seu início, há seis meses, e, felizmente, tem se confirmado ao longo desse período. É a legitimidade de mercado se materializando.

Mas gostaria de destacar outro ponto bastante relevante verificado nos últimos meses: a forma pela qual economistas, legisladores, políticos, empresários, jornalistas e leigos em geral têm tratado o fenômeno. Antes a criptomoeda não merecia atenção; ou era meramente uma bolha inflada por gênios da computação e demais incautos, ou era mais uma forma escusa de financiar atividades ilícitas e lavar dinheiro – o paraíso dos criminosos.

Hoje esse tom já não prevalece. E embora legisladores e reguladores possam ter preocupações legítimas, rejeitar solenemente o bitcoin não é mais uma alternativa viável. A existência da criptomoeda é uma realidade, e cada vez mais indivíduos vislumbram o potencial e as vantagens que uma moeda apolítica pode trazer à sociedade.

Até mesmo banqueiros centrais têm reconhecido alguns dos méritos de uma moeda emitida de forma descentralizada, livre das pressões políticas. Escrito pelos economistas do Banco da Inglaterra e da Noruega Andrew G. Haldane e Jan F. Qvigstad, o paper “The Evolution of Central Banks: A Practitioner’s Perspective concede que “se o bitcoin provar ser robusto, ele será um passo adiante no sentido de pensar em como a confiança na moeda é criada e mantida, bem como no futuro do dinheiro e das formas de pagamentos”.

Na mesma linha, a conferência Bitcoin Finance 2014, realizada em Dublim há poucos dias, contou com a presença de um diretor do Banco Central da Irlanda, Gareth Murphy, o qual reconheceu o potencial de ruptura de uma tecnologia como o Bitcoin, vislumbrando um futuro de coexistência entre moedas fiduciárias e moedas digitais.

Definitivamente, a abordagem hoje predominante é mais diligente, é mais investigativa, menos tendenciosa e parcial, como o paper da Deloitte University Press, publicado em junho, intitulado Bitcoin: Fact. Fiction. Future”. Nele os autores buscam entender e explicar a tecnologia, bem como idealizar os possíveis cenários do futuro do Bitcoin.

O mesmo não pode ser dito sobre o working paper da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado também no mês passado. Sob o título de The Bitcoin Question: Currency versus Trust-less Transfer Technology, os autores concluem que os legisladores, dentre outras medidas, devem banir de forma generalizada o uso do bitcoin no sistema de liquidação bancário para “assegurar que o sistema monetário não seja minado”.

Mais relevante do que as precipitadas conclusões em si (vale a pena ler a excelente crítica de Jon Matonis, diretor executivo da Bitcoin Foundation) é o fato de mais uma entidade respeitada e reconhecida internacionalmente tratar da criptomoeda de forma séria, admitindo o seu surgimento como uma resposta à perda de confiança nos sistemas monetário e bancário tradicionais – tendência acentuada pela crise de 2008.

Entretanto, e a despeito de alguns dos costumeiros alertas de reguladores e bancos centrais, sempre muito cautelosos em relação às moedas digitais – a mais recente sendo a da Autoridade Bancária Europeia –, empresas longevas e estabelecidas têm decidido inovar e experimentar. A Mastercard incluiu o termo bitcoin em um pedido de patente recente. Já a Western Union reconhece o mérito de uma moeda apolítica como o bitcoin, mas mantém certas reservas e restrições quanto a incorporá-lo no seu negócio.

Um dos acontecimentos recentes mais notáveis, no entanto, foi o discurso do Sr. Lim Boon Heng, chairman da Temasek Holdings, no lançamento do novo escritório da empresa em Nova York. A Temasek é uma companhia de investimento cujo proprietário é o governo de Cingapura, com um portfólio de mais de US$ 170 bilhões.

Durante dito evento, que contou com uma plateia de 270 convidados – basicamente líderes de grandes corporações, incluindo o CEO do JP Morgan Chase, James Dimon –, o Sr. Lim reiterou o comprometimento da empresa com investimentos de longo prazo, mas afirmou que também estão de olho nas oportunidades do mundo digital do futuro. No mês passado, a Temasek realizou um experimento com o Bitcoin em que todos os colaboradores participaram – do motorista ao membro do conselho –, com o objetivo de conhecer e se familiarizar com a criptomoeda.

Isso corrobora o que afirmamos acima – a mudança de abordagem em relação às criptomoedas, hoje mais séria –, mas, além disso, sugere que o dinheiro institucional pode estar mais perto do Bitcoin do que pensamos. Mencionar o Bitcoin em um evento composto primordialmente por líderes empresariais de todo o mundo, cujo interlocutor é o chairman de um dos principais investidores institucionais do globo – sendo um dos seus conselheiros o Sr. Robert B. Zoellick (presidente do Banco Mundial entre 2007 e 2012) –, não é nada irrelevante.

Por falar em investidores, não podemos deixar de comentar o sucesso do leilão de 30 mil bitcoins apreendidos do falecido site Silk Road, realizado pelo Departamento de Justiça dos EUA. Com um total de 45 participantes no leilão, todos os lotes acabaram sendo arrematados por um único investidor: Tim Draper, do fundo de venture capital Draper Fisher Jurvetson. A demanda superou todas as expectativas.

Sem dúvida alguma, os últimos meses foram repletos de turbulências. Depois de derrocada da MtGox e a consequente volatilidade no preço do bitcoin, muitos acreditavam que a moeda digital chegara próximo de seu fim. Mas isso não aconteceu. De fato, os episódios negativos tornaram o Bitcoin ainda mais forte e robusto do que antes, e hoje sua cotação segue firme, em um patamar seis vezes maior do que há um ano.

Para finalizar, vale a pena citar o famoso historiador e professor da Universidade de Harvard Niall Ferguson. Em um recente artigo sobre “Redes e Hierarquias” na revista The American Interest, Ferguson expõe a sua visão sobre o fenômeno: “Ainda é muito cedo para prever se o Bitcoin terá sucesso como uma moeda paralela, mas também é muito cedo para prever que ele fracassará. De qualquer modo, governos podem fracassar, também”.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil