Nada melhor do que a autorregulação do mercado

A crise da exchange japonesa suscitou muitos pedidos de maior regulação da indústria, levando alguns a clamar pela regulação governamental. Sempre fui muito cético com relação ao controle do mercado via legislação, pois ela introduz incentivos perversos, substituindo a prudência natural dos empresários e a desconfiança benéfica dos consumidores por regras ditadas por terceiros que nada têm a perder quando algo der errado.

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Como antecipei em artigos anteriores, depois do colapso da MtGox, algumas exchanges e empresas de carteiras online passaram a desenvolver mecanismos de comprovação dos saldos de bitcoins em reserva. Algumas adotaram relatórios de auditoria amplos e transparentes, e outras, como a CoinKite e a Kraken, implementaram o desenvolvimento proposto pelo programador Greg Maxwell, de comprovação de reservas por meio da criptografia.

A Vault of Satoshi, do Canadá, é a mais recente exchange a aplicar essa funcionalidade e, segundo ela, a primeira a disponibilizar aos seus clientes um serviço de auditoria completo de comprovação de solvência. Não é “apenas uma auditoria”, mas também uma prova criptográfica de que ela mantém reservas em bitcoins dos saldos de seus clientes (leia aqui para entender com detalhes a técnica de criptografia utilizada).

A crise da exchange japonesa suscitou muitos pedidos de maior regulação da indústria, levando alguns a clamar pela regulação governamental. Sempre fui muito cético com relação ao controle do mercado via legislação, pois ela introduz incentivos perversos, substituindo a prudência natural dos empresários e a desconfiança benéfica dos consumidores por regras ditadas por terceiros que nada têm a perder quando algo der errado.

Nada melhor do que o próprio mercado – empresas, usuários, programadores, etc. – encontrar as soluções para os problemas enfrentados. Acredito que essa será uma tendência predominante, em que mais do que apenas confiar em exchanges, os usuários poderão certificar-se a qualquer momento de que as empresas depositárias realmente mantêm em reserva os saldos de seus clientes.

É claro que isso não elimina por completo o risco de fraude ou práticas precárias de segurança, mas acrescenta mais um mecanismo de vigilância e controle pelos próprios atores do mercado.

Esse arranjo diverge bastante do sistema bancário tradicional, em que a regulação estatal é vasta e institui como norma – em vez de impedi-la! – a prática de reservas fracionárias.

“Dentre todas as maneiras de se organizar o sistema bancário, a pior é justamente a que temos hoje.” Essas palavras foram proferidas por ninguém menos que Sir Mervyn King, presidente do Banco Central da Inglaterra (Bank of England), em outubro de 2010, no seminário anual realizado pela revista The Economist (o Encontro de Buttonwood) em Nova York.

A verdade é que história do sistema bancário tradicional é repleta de crises, turbulências, euforias, depressões, quebras generalizadas, altos lucros e flutuações desenfreadas.  E, não obstante, o setor parece não ter aprendido muita coisa ao longo do tempo.  O dilema do sistema bancário ainda nos assombra: quando uma maioria de correntistas repentinamente resolve sacar o dinheiro de suas contas, não há dinheiro suficiente nos cofres dos bancos.

Centenas de anos de experiência bancária não foram capazes de sanar a inerente instabilidade de uma prática imprudente: a de manter em reservas apenas uma fração dos depósitos dos clientes.

E como os correntistas poderiam precaver-se contra essa prática bancária centenária? Sacando seus depósitos, não havia outra forma. Entretanto, se muitos desconfiassem da solvência de seu banco – e este efetivamente adotasse reservas fracionárias – e decidissem retirar seu dinheiro imediatamente, já seria tarde demais. O banco quebraria, e os depositantes perderiam seus fundos.

Com o Bitcoin, esse cenário pode ser evitado. Graças aos avanços da tecnologia, a prudência na prática bancária pode ser reinstaurada. Os clientes, por sua vez, poderão comprovar que suas exchanges estão atuando honestamente sem ter de recorrer à velha e desastrosa corrida bancária.

E essa é a grande revolução do Bitcoin. Por um lado, a moeda digital ensina aos bancos centrais o real significado de uma política monetária rígida e independente – impedindo surtos inflacionários. Por outro, o Bitcoin reestabelece na prática bancária a prudência na conduta dos negócios, algo natural em qualquer outra indústria.

Porque quando a boa teoria econômica é incapaz de convencer os bancos e governos da instabilidade inerente das reservas fracionárias, a realidade do Bitcoin se encarrega de demonstrá-la, e a inovação tecnológica, de resolvê-la. Que essa lição seja aprendida de uma vez por todas.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil