Moedas digitais: o novo campo de pesquisa do MIT

É notável – e também promissor – o mais novo projeto do Massachusetts Institute of Technology Media Lab: a Digital Currency Initiative (Iniciativa Moeda Digital), a ser encabeçado por Brian Forde, ex-assessor sênior da Casa Branca para assuntos de inovação móvel e de dados.   A empreitada é notável porque, pela primeira vez, uma universidade de ponta, mundialmente reconhecida no seu ramo de atuação, abraça a invenção do Bitcoin e das criptomoedas como um novo campo de pesquisa digno de tratamento e investigação científicos.

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As origens da internet remontam à rede da ARPA, ou ARPANET, da década de 1960, cuja sigla significa Advanced Research Projects Agency. Criada em 1957, a agência governamental é subordinada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e sua missão inicial era desenvolver ciência e tecnologia militar – seu nome atual é Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA).

Um dos projetos de pesquisa patrocinados pela ARPA foi o estudo da computação de pacotes (packet switching), liderado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), tecnologia cujo uso hoje em dia é fundamental ao funcionamento da internet.

Larry Roberts, pesquisador do MIT, foi um dos idealizadores da ARPANET, e, ao redor de 1969, a rede já estava em plena operação, conectando quatro universidades (UCLA, Stanford, UCSB e a Universidade de Utah) com o objetivo de pesquisar e desenvolver redes. Em menos de dois anos, outros nós seriam conectados à rede, incluindo a Universidade de Harvard e a NASA, chegando a um total de 15. E já em 1973, a ARPANET se tornaria global ao interligar a University College, de Londres, e a Royal Radar Establishment, da Noruega.

Outro famoso cientista da computação vinculado à ARPA, ao MIT e à academia estadunidense em geral foi J. C. R. Licklider, cujas ideias sobre redes de computação globais permearam diversas invenções na criação e desenvolvimento da internet.

Inúmeros pesquisadores do MIT, de Stanford, entre outras universidades, tiveram um papel determinante no desenvolvimento do conjunto de protocolos da internet. O mundo acadêmico, a pesquisa e a investigação científica foram – e continuam sendo – decisivos na concepção e gênese da rede mundial de computadores.

Diante desses fatos, é notável – e também promissor – o mais novo projeto do MIT Media Lab: a Digital Currency Initiative (Iniciativa Moeda Digital), a ser encabeçado por Brian Forde, ex-assessor sênior da Casa Branca para assuntos de inovação móvel e de dados.  

A empreitada é notável porque, pela primeira vez, uma universidade de ponta, mundialmente reconhecida no seu ramo de atuação, abraça a invenção do Bitcoin e das criptomoedas como um novo campo de pesquisa digno de tratamento e investigação científicos.

 O MIT Media Lab, onde será hospedada a Digital Currency Initiative, é um laboratório único e “antidisciplinar” que encoraja a mistura e a combinação de áreas de pesquisas aparentemente díspares, é mantido por uma rede de mais de 70 membros, incluindo corporações líderes mundiais, e conta com um orçamento anual de US$ 50 milhões.

De fato, a tecnologia disruptiva do Bitcoin encaixa-se perfeitamente no ambiente e propósito do MIT Media Lab. Segundo Forde, “O objetivo da iniciativa é reunir especialistas globais em áreas que vão desde a criptografia até a privacidade e sistemas distribuídos, para assumir essa nova e importante área de pesquisa”.

A iniciativa do MIT é, também, promissora, porque proverá mais legitimidade às moedas digitais, trazendo mais credibilidade à tecnologia, além do rigor acadêmico no contínuo desenvolvimento e aprimoramento do código do Bitcoin.

Apesar de não tomar para si a manutenção e o desenvolvimento do código-fonte do Bitcoin, a Digital Currency Initiative já anunciou a primeira grande medida desde seu recente lançamento: Gavin Andresen, Wladimir van der Laan e Cory Fields, três dos desenvolvedores líderes do Bitcoin, aderiram à iniciativa do Media Lab e serão suportados financeiramente pelo novo projeto. A partir de agora, a continuidade e o aperfeiçoamento do protocolo terão um local muito mais apropriado para tanto – antes, Gavin, Wlad e Cory estavam na folha de pagamentos da Bitcoin Foundation, cujo objeto social passa por um momento turbulento de revisão.

De certa forma, a invenção do Bitcoin pode ser vista como uma continuação da própria internet – os protocolos de comunicação da web permitiram a criação do protocolo do Bitcoin. A pesquisa científica de comunicação em redes alcançou um nível avançado de evolução: de redes centralizadas a descentralizadas e distribuídas, como o Bitcoin.

Em essência, estamos falando de tecnologia, uma tecnologia de disrupção capaz de alcançar e sustentar segurança em uma rede aberta sem precisar confiar em nenhum usuário individualmente. Abarcar o mundo acadêmico na pesquisa e desenvolvimento das moedas digitais é um movimento natural e muito benéfico para o futuro da ciência da computação.

Na lista de pioneiros da internet, não há um “único” inventor, há inúmeros. Cada um contribuiu com um pedacinho de conhecimento que, no conjunto, deram origem à rede mundial de computadores como hoje a conhecemos. No caso do Bitcoin, o criador tem nome, ou melhor, um pseudônimo, Satoshi Nakamoto. Mas, independentemente de o nome se referir a uma pessoa ou a um grupo de indivíduos, a verdade é que a própria criação do Bitcoin dependeu de diversos outros inventores e cientistas. Pessoas que se dedicaram ao estudo de redes distribuídas, de criptografia, de economia, entre outros, são parte intrínseca do nascimento das criptomoedas.

E para o progresso da ciência, não importa quem descobriu a lei da gravidade, apenas se dita lei é válida e funciona. Da mesma forma, é irrelevante identificar quem inventou o Bitcoin. Basta apenas que a descoberta de Satoshi Nakamoto seja verdadeira e correta. Dispor da academia contribuindo para o desenvolvimento das moedas digitais pela pesquisa e investigação científica corrobora essa afirmação.

A tecnologia do Bitcoin está destinada a impactar a vida de milhões de pessoas nos próximos anos ou décadas. Ao reconhecer e abraçar esse novo campo de conhecimento e pesquisa, o Massachusetts Institute of Technology mantém-se na vanguarda do desenvolvimento de tecnologias emergentes e dá um passo gigantesco para o Bitcoin, abrindo definitivamente as portas do mundo acadêmico a essa invenção.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil