Coisas que nenhum governo pode fazer com o Bitcoin: inflação

Existem coisas que governo nenhum pode fazer com o Bitcoin. Uma delas é inflacionar a oferta de bitcoins. Assim, fique tranquilo, pois independentemente da justificativa usada - construir Brasília, cobrir os rombos dos bancos estatais ou reduzir os juros -, nenhum Tombini poderá inflacionar a quantidade de bitcoins em circulação.

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A inflação é tão velha quanto a própria moeda; com o surgimento desta, vieram as várias formas de adulterá-la. Na antiguidade, quando o dinheiro eram peças metálicas de metais preciosos, como ouro e prata, a forma mais comum e vil era diluir o conteúdo da moeda misturando-a alguma outra substância mais abundante – a notória prática envilecimento.

Evolução da moeda de prata antoniniano

Inicialmente composto de prata pura, o antoniniano, antiga moeda romana equivalente a dois denários, foi tão degradado que acabou sua vida sendo cunhado apenas em bronze. Inflation old school style.

A depreciação da moeda, ou a sua emissão em excesso, é a própria definição de inflação. Aumentar a quantidade de dinheiro em circulação é inflação; o aumento generalizado dos preços, sua consequência.

Com o passar dos anos, infelizmente, os economistas – com os aplausos dos governantes – deixaram perverter-se o real significado de inflação. Hoje em dia, todo mundo pensa que inflação é um aumento dos preços, quando, na verdade, esse é apenas o sintoma. A doença é o aumento da quantidade de dinheiro circulando na economia. A doença é a emissão em excesso de moeda. O aumento dos preços é a febre.

O falecido senador Roberto Campos costumava enfatizar bastante esse ponto, afirmando que “O entendimento de que inflação é o aumento da emissão de moeda leva a conclusões fundamentais. Porque se entendemos que inflação é o aumento de preços, então o culpado é o empresário, pois é ele quem aumenta os preços. Mas se entendemos que inflação é o aumento da quantidade de dinheiro em circulação, aí o culpado é o governo e a coisa muda completamente de figura”.

Ícone liberal no Brasil, Bob Fields.

Logo, o culpado pela inflação não é o tomate, nem o chuchu, nem mesmo o barril de petróleo. Inflação é um fenômeno monetário, always and everywhere, dizia Milton Friedman.

Foi assim na República de Weimar, no início do século XX, quando as impressoras de dinheiro funcionavam a todo vapor.

Alimentando a lareira com cédulas de dinheiro na República de Weimar em 1923.

E, da mesma forma, no Zimbábue, na década passada, quando a hiperinflação fez diversos bilionários, embora todos miseráveis.

Cédula de 100 trilhões de dólares do Zimbábue emitida em 2009.

Mas nem precisamos ir tão longe, ou alguém aqui se esqueceu da hiperinflação brasileira nas décadas de 1980 e 1990? Não há paralelos de uma inflação tão alta que tenha durado tanto tempo. E, pior ainda, sem nem ao menos estarmos em meio a uma guerra ou outra catástrofe que poderia tentar explicar tal anomalia monetária.

Cédula de 500 mil cruzeiros emitida em 1993.

Inflação não é uma lei da natureza, ainda que muitas pessoas tendam a pensar que sim. O seu dinheiro não está fadado à constante depreciação, ano após ano. Seja para pagar dívidas, seja para cobrir déficits públicos, a inflação sempre foi e sempre será uma política – em detrimento de toda a população, obrigada a usar uma moeda que perde poder de compra diariamente.

Das técnicas indecentes de envilecimento das moedas à moderna e ilimitada criação de moeda fiduciária eletrônica, quem paga a conta pela inflação é sempre a sociedade, em especial, os mais pobres. O imposto inflacionário é a forma mais indigna e abominável de expropriar riqueza dos indivíduos.

A inflação é a causa principal da desigualdade em um país. E quanto maior sua intensidade, piores suas consequências. Não há dúvidas de que grande parte da desigualdade social brasileira reside justamente na emissão descontrolada de moeda nas décadas passadas – quase sempre sob os mantos intocáveis da industrialização, das políticas sociais e do assistencialismo (para saber mais, leia este artigo).

O dragão da inflação roubando dos assalariados.

No Brasil atual, a política é depreciar o real a uma taxa (medida pelo questionável IPCA) de mais ou menos 6,5% ao ano – tenho certeza de que o seu bolso acusa um aumento nos preços maior do que o índice oficial do governo.

Na Venezuela e na Argentina, nações sem muito apreço ao ideal de moeda sadia, os índices de inflação passam dos 20% anuais. Em países desenvolvidos, o alvo de desvalorização da moeda, medida por índices de preços ao consumidor, situa-se ao redor de 2% ao ano. Mas por que diabos nosso dinheiro precisa ser desvalorizado?

Felizmente, agora temos uma saída. Com o Bitcoin, o crescimento da oferta monetária é predeterminado e de conhecimento de todos. Atualmente, são emitidos cerca de 25 bitcoins a cada dez minutos, em média. A cada quatro anos, essa quantidade de emissão é reduzida pela metade, mantendo uma taxa de crescimento decrescente da oferta monetária. Não importa o que acontecer, esse mecanismo não pode ser alterado.

Essa “política monetária” rígida permite um aumento de bitcoins em circulação bastante moderado, semelhante ao crescimento do estoque de ouro mundial, por exemplo.

Mas ninguém e obrigado a aderir ao Bitcoin – o que contrasta com as leis de curso forçado que nos compelem a aceitar o real como forma de pagamento em território nacional. Utiliza-o quem assim voluntariamente desejar.

Existem coisas que governo nenhum pode fazer com o Bitcoin. Uma delas é inflacionar a oferta de bitcoins. Assim, fique tranquilo, pois independentemente da justificativa usada – construir Brasília, cobrir os rombos dos bancos estatais ou reduzir os juros –, nenhum Tombini poderá inflacionar a quantidade de bitcoins em circulação.

Em um país com o histórico de agressões contra a moeda como o Brasil, a impossibilidade de qualquer governo inflacionar o Bitcoin é algo notavelmente salutar e muito bem-vindo.

Muitas pessoas, erroneamente, atribuem ao dinheiro a raiz de todos os males. Mas, na verdade, a raiz de todos os males é a inflação, cuja semente germina no controle estatal da moeda. Impedir a inflação é uma das coisas que só o Bitcoin faz por você.

Aguarde o próximo artigo desta nova série: “Coisas que nenhum governo pode fazer com o Bitcoin”. 

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil