Bitcoin: um resumo de 2014 e um prognóstico para 2015

Façamos um experimento mental: voltemos a outubro de 2008. Nesse instante do tempo – em meio ao estouro da grande crise financeira deste milênio –, imaginem um programador completamente desconhecido e anônimo publicar um paper sobre um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer que não dependeria de nenhuma entidade central responsável pela emissão de moeda ou conciliação das transações – a criptografia se encarregaria dessas tarefas.

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Façamos um experimento mental: voltemos a outubro de 2008. Nesse instante do tempo – em meio ao estouro da grande crise financeira deste milênio –, imaginem um programador completamente desconhecido e anônimo publicar um paper sobre um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer que não dependeria de nenhuma entidade central responsável pela emissão de moeda ou conciliação das transações – a criptografia se encarregaria dessas tarefas.

Agora imaginemos que esse programador afirmasse que tal sistema inédito não somente funcionaria como também, em questão de poucos anos, a sua moeda criptográfica nativa teria um preço de mercado relevante – com uma base monetária dentre as cem maiores moedas mundiais – e seria aceita por grandes empresas globais como Microsoft e Dell. Imaginem que ele prognosticasse que milhares de pessoas ao redor do mundo usariam esse sistema, ultrapassando a marca de 100 mil transações diárias em pouco tempo.

Imaginem, também, que ele previsse que essa tecnologia inovadora seria encarada e estudada seriamente por economistas, banqueiros centrais, legisladores, etc., e que, mais do que apenas um sistema financeiro sem intermediários, essa invenção seria uma quebra de paradigma na ciência da computação, uma nova forma de estabelecer segurança e confiança em uma rede complexa, dispersa e distribuída, cujos desdobramentos poderiam impactar além do mundo financeiro.

Naquele momento, se você escutasse esse sujeito fazendo tais afirmações e previsões, o que pensaria? Que esse cidadão misterioso é um lunático sonhador ou que seria caso típico de hospício? Quais as chances de que isso pudesse realmente acontecer? Qual a probabilidade de dar certo?

Provavelmente, pensaríamos todos que haveria zero probabilidade de sucesso. Isso jamais poderia ocorrer.

Mas ocorreu. Deu certo. E está tendo um enorme sucesso. Obviamente, estamos falando do Bitcoin, um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer.

Contrariando a probabilística, o bom senso dos especialistas – inclusive dos experts em criptografia, como afirma Hal Finney, o primeiro recipiente de uma transação no sistema – e o ceticismo geral, o Bitcoin teve seu início no dia 3 de janeiro de 2009, está em pleno funcionamento e segue sendo desenvolvido e aprimorado.

Há pouco mais de uma semana, a mineração do bloco gênese completou exatos seis anos – o nascimento oficial do sistema Bitcoin. Há mais de meia década iniciou-se o grande experimento monetário do milênio.

Aos olhos dos críticos contumazes, o fato de o Bitcoin ter sobrevivido mais um ano é em si surpreendente. Depois de inúmeras mortes anunciadas, Bitcoin is still not dead.

A verdade é que a sua sobrevida não é fruto do acaso. Muito pelo contrário. É resultado do esforço de milhares de empreendedores, desenvolvedores e programadores e das próprias características do sistema idealizado por Satoshi Nakamoto. Afinal de contas, essa tecnologia inovadora proporciona diversas vantagens aos seus usuários; o aumento na demanda pela moeda e pelas novas aplicações da invenção é uma consequência natural.

Mas isso não quer dizer que 2014 foi um ano fácil e tranquilo. Longe disso. A começar pela fatídica derrocada da maior exchange até então, a MtGox, que veio a derrubar a cotação da criptomoeda mundo afora. Se por um lado a quebra da MtGox fez o ecossistema do Bitcoin tremer, por outro, tornou evidente a resiliência e a segurança do protocolo em si – não foi uma falha do Bitcoin, mas, na verdade, um problema restrito a uma empresa amadora e, ao que tudo indica, fraudulenta.

Além disso, a vulnerabilidade de uma exchange centralizada motivou a indústria a buscar novas soluções para mitigar os riscos do negócio, como mecanismos para provar a solvência das empresas e carteiras com MultiSig (assinaturas múltiplas), inovação que proporciona uma segurança adicional ao detentor de bitcoins.

Revendo alguns posts antigos deste blog, encontrei uma previsão minha acerca do ano que iniciara: previ que 2014 seria repleto de notícias de novas empresas, novos comerciantes e afins adotando o Bitcoin como uma nova forma de pagamento, arriscando dizer que o preço ficaria em segundo plano.

Errei em parte.

De fato, o número de estabelecimentos aceitando bitcoins aumentou incrivelmente, sendo que ninguém, no mais otimista dos cenários, esperava ver a Dell e a Microsoft aderindo à moeda digital tão cedo, ou o PayPal integrando o bitcoin a sua plataforma – embora de maneira muito tímida ainda. Essa previsão, acertei na mosca.

Mas claramente subestimei a volatilidade no preço do bitcoin ao longo do ano. Errei feio. A cotação da moeda não ficou em segundo plano e continuou preocupando investidores, especialmente aqueles que entraram no começo de 2014, nas máximas do mercado. Não repetirei aqui as causas da queda, já que dediquei um post exclusivo ao tema e mantenho tudo o que disse então.

Porém, a despeito das oscilações e quedas no câmbio do bitcoin no ano passado, as métricas de adoção seguem apontando um crescimento considerável no uso da moeda. Mais carteiras criadas, maior quantidade de comerciantes, maior volume de transações, mais ATMs, maior hashrate, maior número de startups com funding de venture capital, etc. Recomendo fortemente o relatório State of Bitcoin 2015 da CoinDesk, fonte dos slides abaixo.

Falando em VCs, o total de investimentos no setor, em 2014, ultrapassou US$ 335 milhões, um crescimento muito relevante em relação ao ano anterior, quando US$ 96 milhões foram levantados pelas startups da indústria.

Não podemos deixar de mencionar outro aspecto importante verificado no ano de 2014. O tom da imprensa em geral já é outro. No começo do ano passado e durante o colapso da MtGox, as notícias costumavam ser enviesadas e claramente negativas. Bitcoin e crime online costumavam ser irmãos siameses, segundo a imprensa internacional. Para atividades ilícitas, nada melhor do que o bitcoin, diziam as matérias.

Hoje essa abordagem não predomina. É a exceção. E com razão, porque o Bitcoin é, acima de tudo, uma tecnologia, e como tal pode ser empregada para diversos fins. O que vemos hoje são notícias e reportagens muito menos tendenciosas e mais analíticas, sendo em muitos casos até positivas. Quem estuda um mínimo sobre o fenômeno entende perfeitamente o enorme potencial de ruptura dessa inovação. Hoje o Bitcoin já levado a sério. E assim será cada vez mais.

No âmbito regulatório, entretanto, incertezas ainda pairam no ar. A tão aguardada BitLicense do New York State Department of Financial Services (NYDFS) acabou deixando a indústria apreensiva com uma regulação excessiva e inapropriada a uma tecnologia em ascensão. Durante o período de comentários, diversos nomes influentes expressaram suas preocupações e inadequações sobre a lei pretendida. A versão final da BitLicense é esperada em janeiro. Aguardemos o que vem por aí.

Em outras jurisdições, tampouco houve novidades relevantes no âmbito legal e regulatório. Mas houve, sim, coisas positivas e importantes. Assim como na imprensa, a abordagem das autoridades ao redor do mundo, especialmente nos países desenvolvidos, já é outra. Diversos países têm se dedicado a compreender o fenômeno por completo e não apenas rejeitá-lo sem uma análise mais rigorosa. Vale destacar os papers do Banco da Inglaterra e do Federal Reserve.

Talvez o evento mais importante na esfera legal tenha sido os leilões de bitcoins – apreendidos do site Silk Road – realizados pelo United States Marshals (agência do Departamento de Justiça dos EUA). E por que esse episódio foi tão significante? Simplesmente porque o leilão estabeleceu o primeiro precedente de fungibilidade e de legitimidade implícita do bitcoin como mercadoria ou moeda.

Se o governo americano encarasse a moeda digital como algo ilícito ou suspeito, jamais teria leiloado os bitcoins confiscados – por exemplo, seria incabível o US Marshals realizar um leilão para desfazer-se de lotes de cocaína apreendidos. Por isso, a significância desse acontecimento não é nada desprezível.

Mas agora entramos em um novo ano, e infelizmente não dá para dizer que começamos com o pé direito. Mais uma vez, uma falha de segurança em uma exchange. Depois da queda da MtGox, a Bitstamp tomou a dianteira por vários meses, sendo a principal bolsa para negociação em dólares. Sua reputação nunca foi questionada.

Assim, o anúncio de que a Bitstamp havia sido hackeada e de que as negociações seriam suspensas temporariamente pegou todos de surpresa. Em torno de 19 mil BTC foram roubados da exchange, uma pequena fração do volume total custodiado pela empresa, mas ainda assim um volume considerável (cerca de US$ 5 milhões). Felizmente, a companhia conta com investidores de primeira linha, a Pantera Capital, a qual teve um papel fundamental, auxiliando a empresa a corrigir as falhas de segurança, redesenhar o site e tomar diversas medidas para garantir um ambiente seguro de trading (leia o comunicado do CEO da empresa anunciando a reabertura das operações).

Seria esse incidente mais um golpe ao Bitcoin? Sim e não. É claro que tais vulnerabilidades em exchanges deixam os usuários apreensivos e mantêm novos entrantes receosos a aderir à criptomoeda. Isso é sempre ruim. E mostra como esse modelo centralizado de negociação de bitcoins ainda tem muito para ser aperfeiçoado. Talvez ainda tenhamos que aturar diversas “Pets.com” antes de surgir uma Amazon ou um Facebook no ecossistema Bitcoin.

Nesse incidente, porém, não há indícios de fraude por parte da própria empresa. Esse é o lado positivo da história – ao contrário do que ocorreu na MtGox. E o mercado parece concordar – o bitcoin na Bitstamp está sendo negociado praticamente no mesmo patamar que na Bitfinex, sem nenhum spread significativo.

Além disso, episódios como esse deixam cada vez mais claro ao mercado que o problema não é o Bitcoin em si, não são debilidades do protocolo; na verdade, é um problema localizado em uma empresa, em um sistema de segurança talvez precário, mas que em nada tem a ver com a rede peer-to-peer da moeda digital ou com vulnerabilidades na criptografia usada. Se o site do Itaú for atacado e hackers conseguirem desviar fundos de clientes, ninguém questionará a confiança do real. O mesmo vale para uma exchange de bitcoin. Essa distinção o mercado já está absorvendo.

Mas voltando ao ano que se inicia, quais prognósticos podemos traçar?

Primeiro, vale destacar uma tendência que emerge claramente: a tecnologia do block chain. Em vez de falar do bitcoin, a moeda, o mainstream parece estar focando-se muito mais nas possibilidades do block chain como tecnologia – block chain é o nome dado ao registro único e público com o histórico de transações na rede Bitcoin, o livro contábil do sistema. Não me alongarei nesse ponto porque dedicarei um post futuro ao assunto.

Segundo, acredito que haverá maior clareza regulatória. No ano passado, a BitLicense fez a indústria quebrar a cabeça para digerir as intenções dos reguladores. O lado bom foi um amadurecimento dos próprios players do setor e das autoridades acerca das propriedades das moedas digitais e dessa tecnologia inovadora. Talvez neste ano vejamos desdobramentos concretos na esfera legal.

No mercado de exchanges, é difícil prever qualquer coisa. É um mercado ainda novo e cambiante. Se você analisa o market share do ano passado e o compara com o de agora, o cenário mudou bastante. É bem possível que isso continue por algum tempo.

E o preço? Para que lado vai a cotação do bitcoin? “Não sei” é a resposta óbvia e correta. Os volumes de negociação seguem altos. Os últimos meses foram de volumes elevados. Mas a tendência de queda desde o colapso da MtGox tem se mantido. O hack da Bistamp também abalou um pouco o mercado. Para o preço subir no curto prazo, talvez precisemos de mais clareza regulatória, dinheiro de investidores institucionais ou até mesmo alguma crise bancária como a que houve no Chipre em 2013.

Tampouco espere a volatilidade ficar para trás. Embora as oscilações no preço sejam muito menos acentuadas hoje em dia, estão longe de ser desprezíveis para o investidor médio, e assim deve permanecer neste ano. No longo prazo, mantenho minha avaliação: acredito no potencial da tecnologia e na moeda digital como investimento. O momento atual pode ser uma boa janela de compra.

E no Brasil, qual o prognóstico para o ano? Apesar de mais lento que em outros países, o mercado de moedas digitais aqui também avançou. No ano passado, tínhamos apenas duas ou três exchanges relevantes; neste já começamos com alguns novos players promissores, como a FoxBit e a flowBTC, além da notável iniciativa da Coinverse, o Bitcoin Banking brasileiro. Salvo a Tecnisa, não temos nenhuma grande empresa aceitando bitcoin como pagamento. Isso precisa mudar. Mas para acontecer, o número de usuários e os volumes de negociação em solo nacional ainda têm de crescer, e muito.

Por fim, ao mesmo tempo em que não podemos nos resignar e nos conformar com o estágio atual – é preciso aprimorar e amadurecer a indústria –, não podemos perder a perspectiva e o senso de realidade. O Bitcoin tem apenas sies anos de idade. É muito recente. Em termos de giro financeiro, a criptomoeda ainda é uma pequena fração do sistema financeiro global de moedas estatais.

Deixo aqui uma última previsão: em 20 anos, o bitcoin vai ser uma das 20 principais moedas globais. O bitcoin será uma importante variável na condução da política monetária dos bancos centrais, e a tecnologia do block chain será um padrão para diversas outras aplicações. E você usará bitcoin no seu cotidiano.

Qual a probabilidade de isso acontecer? Zero? Você acha que estou ficando louco? Pode ser. Em 2009 eu também definiria como louco um tal de Satoshi Nakamoto. Mas cá estamos. Agora não duvido de mais nada. E você deveria fazer o mesmo.

Espere ser surpreendido.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil