O pior investimento do Brasil (infelizmente…)

Quando pensamos em investimentos, infelizmente são poucas pessoas que imaginam investir em um negócio próprio no Brasil. Mas quais motivos levam a esse pensamento? Será que abrir sua própria empresa vale a pena?

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Infelizmente o investimento mais importante para o país, na esmagadora maioria dos casos é a pior alternativa no caso do Brasil. Investir no seu próprio negócio já é difícil por definição, mas aqui é especialmente pior, lugar onde de acordo com o ranking do relatório Doing Business do Banco Mundial que avalia os melhores países para se fazer negócio, ficamos em 130º lugar de 185 países (atrás de todos os BRICS).

O que todos queremos é que nosso país cresça, se desenvolva, dê oportunidades à sua população, gere (bons) empregos e inovação. Queremos um país de destaque internacional, que seja motivo de exemplo de sucesso mesmo para as economias mais desenvolvidas da atualidade. Contudo, para que tudo isso seja possível é necessário antes de mais nada que tenhamos cada vez mais brasileiros empreendedores, e que não apenas acreditem na sua capacidade de crescimento e desenvolvimento profissional de maneira independente, mas que também tenham boas chances de conquistar essa sua independência.

“Baseado em fatos reais”

A motivação que me fez escrever sobre esse assunto, foi justamente uma conversa despretensiosa e um rápido depoimento que tive com uma jovem empresária da cidade de Maringá-PR, que há quase um ano vendeu um imóvel de sua família para montar um pequeno restaurante que serve pratos executivos no almoço no centro da cidade, e que com elevados custos fixos, hoje passa dificuldades para conseguir manter seu negócio.

De acordo com a empresária, seu restaurante custa cerca de R$ 20.000,00 mensais apenas para existir, considerando aluguel, salários dos funcionários, impostos e outros custos. Nessas condições, seria necessário que ela vendesse cerca de 70 a 80 refeições diárias para sustentar o negócio ainda sem muito lucro, mas pagando todas as contas com tranquilidade. Entretanto, mesmo sem atingir a quantidade mínima de refeições, ou seja, mesmo acumulando prejuízos até agora, a empresária ainda precisa pagar impostos, em um cenário no qual ela literalmente está pagando para trabalhar. Hoje, com medo de entrar para a estatística de empresas que quebram precocemente, a empresária conta que já passou por maus momentos sendo obrigada a “implorar aos prantos” para que o proprietário da sala onde seu restaurante se localiza renegociasse o valor do aluguel.

Caso semelhante é o de um empresário de Piracicaba-SP, que decidiu há cerca de 1 ano e meio arcar com um financiamento de médio prazo para abrir uma franquia de Milk Shake na cidade. Em trechos de seu depoimento, o empresário diz que: “O meu maior problema foi abrir uma franquia. É dito por aí que franquias servem para quem não tem know-how e literalmente compra a receita de um empreendimento de sucesso. O problema é que você vira empregado da franquia e não dono do seu negócio.

Outro problema são as altas taxas de tudo. Eu pago boletos que o contador diz pra eu pagar porque simplesmente nunca tinha ouvido falar de tais cobranças. São taxas municipais, estaduais, federais, municipais de novo, e aí estaduais novamente, finalizando com altas taxas federais.

Outro problema que precisei encarar, foi a extrema dificuldade em conseguir crédito com os bancos. Todos! Não há como conseguir crédito a juros razoáveis, apenas a taxas próximas dos “créditos pré-aprovados” de pessoas físicas.

Tive problemas com uma funcionária que eu peguei roubando dinheiro do caixa na câmera. Paguei o que eu devia a ela e ela ainda me processou, levando mais dinheiro ainda, afinal, por mais que se ouça o contrário, o trabalhador ainda ganha todos os casos contra o patrão.

Além disso tudo, ter o próprio negócio exige dedicação em tempo integral. Principalmente se você tiver funcionários, pois você jamais encontrará funcionário melhor que o patrão, então precisa ficar do lado deles cobrando.”

Apesar de triste, o caso desses empreendedores é comum para boa parte dos empresários brasileiros que se arriscam, e que de acordo com o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), 15,41% quebram no primeiro ano de vida e 41,86% de 1 até os 5 anos de vida.

Por que é tão difícil investir em um negócio próprio no Brasil?

Agora a dúvida que fica é: mas o que diferencia o Brasil de outros países para que aqui seja tão difícil de se empreender?

Bom, alguns problemas já são velhos conhecidos de todos os brasileiros (mesmo quando consumidores) como a elevadíssima carga tributária, que inclusive foi um dos alvos da recente polêmica a respeito do preço do videogame da Sony, o Playstation 4, que independentemente de os cálculos da empresa estarem certos ou errados, sem dúvidas foi motivo de grande atrito entre os consumidores e a marca. Outro aspecto importante também é a quantidade e complexidade desses tributos que entre impostos, taxas e contribuições, acumulam 88 tipos diferentes dentre as esferas federal, estadual e municipal e consomem em média cerca de 2600 horas de cada empresário por ano só para que se consiga organizar o pagamento dessas contas.

Ainda em relação à carga tributária, os custos trabalhistas do país também pesam bastante no orçamento, uma vez que em muitos setores o custo de um trabalhador é mais que o dobro do que ele efetivamente recebe, isto é, se um colaborador ganha um salário de R$ 2.000,00 em uma empresa, esta desembolsa na verdade cerca de R$ 4.000,00. É por essas e outras que existe uma sede tão grande da população brasileira em relação à eterna espera pela reforma tributária.

Outro aspecto que contribui muito negativamente para os negócios no Brasil é a carregada, lenta e custosa burocracia que dificulta tanto a abertura e fechamento de empresas como outras negociações como fusões e aquisições, abertura de capital, entre outros. Só para se ter ideia, enquanto na média de todos os países do relatório Doing Business do Banco Mundial leva-se 30 dias para abrir uma empresa, aqui no Brasil levamos vergonhosos 119 dias.

Também temos ainda todas as dificuldades de uma já conhecida péssima infraestrutura que encarece o custo de produção desde a base da matéria prima, influenciando toda a cadeia produtiva nacional.

Por último, mas não menos importante e apesar de já ter melhorado muito na última década, ainda existe um concorrente de peso e bastante desleal no país: uma das taxas de juros reais mais altas do mundo. Os juros altos são um dos principais problemas, pois prejudicam muito as inversões na economia real tanto do ponto de vista de que encarecem o custo de capital de terceiros (leia-se, custo dos empréstimos), como também concorrem diretamente com as decisões tomadas pelo empresário. Afinal, se você dispusesse de R$ 1.000.000,00 no bolso agora, o que o levaria a arriscar esse dinheiro em algo de alto risco, que te dê (muito) trabalho e ainda te dê um retorno de longo prazo e sem liquidez, se você pode investir, por exemplo, em títulos públicos como a LFTs (Letras Financeiras do Tesouro) que te remuneram a Selic a atuais 9,5% a.a., você faz em 10 minutos pela internet direto da sua casa e depois não tem mais dor de cabeça, são livres de risco e ainda possuem liquidez diária?

Melhoras a caminho

Apesar de ainda termos um cenário bastante difícil para os novos empreendedores algumas melhoras já vem acontecendo nos últimos anos e mais boas novas devem vir pela frente.

Dentre algumas propostas interessantes que estão no congresso, existe uma (que já foi inclusive aprovada no Senado) na qual o governo deverá isentar de impostos por até 2 anos prorrogáveis por igual período, empresas classificadas como Startups de tecnologia. Embora ainda existam bastante críticas que deverão ser revisadas no projeto, sem dúvidas a simples existência do mesmo já pode ser considerada uma vitória no Brasil.

Outra proposta muito interessante que apareceu na mídia por esses dias, é um projeto de lei que pretende criar incentivos para a participação de pequenas e médias empresas na bolsa, facilitando assim o acesso ao crédito de capital próprio e consequentemente estimulando o investimento privado no país.

Um último projeto de lei bastante interessante sem dúvidas é o de redução de burocracia para a abertura de micro e pequenas empresas proposto pelo ministro da Secretaria de Micro e Pequenas empresas. Se aprovado, esse projeto reduzirá de 180 para apenas 5 dias a abertura dessas empresas!

Conclusão

O objetivo desse texto é justamente levantar uma “pulga atrás da orelha” do leitor a respeito das condições às quais é submetido quem quer se arriscar a abrir seu próprio negócio para se tornar um profissional independente. É evidente que simples falhas de gestão ou mesmo a falta de experiência do empresário também contribuam para o insucesso do investimento. Abrir sua própria empresa sempre envolverá riscos e não se espera nada diferente disso para quem busca um retorno acima da média. Entretanto o que devemos exigir, é que ao menos não se criem complicações desnecessárias além das quais já existem por natureza.

Como disse no início do texto, garantir que a melhor escolha de investimentos seja a abertura de um negócio produtivo gera emprego, inovação, competitividade e crescimento para o país.

E mesmo com todas as adversidades apresentadas, parece que por sorte o famoso ditado de que “brasileiro não desiste nunca” se revela verdadeiro e de acordo com o SEBRAE, mais de 30% das pessoas entre 18 e 64 anos (ou 36 milhões de pessoas) estão envolvidos na criação ou administração de algum tipo de negócio e portanto são considerados empreendedores. Em outras palavras, isso quer dizer que só não temos mais empreendedores que os EUA e China.

Já imaginou se nossos empresários não quebrassem tanto (41% em até 5 anos e mais de 75% em até 12 anos)?

Como vimos, melhoras já estão a caminho, mas mesmo assim ainda estamos a anos-luz de termos condições adequadas para que nos tornemos um país desenvolvido. Provavelmente estaremos trilhando um bom caminho, se algum dia eu puder voltar a escrever sobre esse tema sob o título: O melhor investimento do Brasil!

Felipe Medeiros