O gosto amargo que pode salvar vidas (e marcas)

A marca traz uma inovação que não aprimora a função principal, mas protege o usuário em um cenário de uso não intencional

Márcio Apolinário

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Sou pai da Nina, que vai fazer 3 anos, e do Jazz, que tem 9 meses. Nessa fase da vida, a gente passa a enxergar risco onde antes só via rotina. É quase um superpoder que se desenvolve, uma lente de aumento para os perigos invisíveis do dia a dia.

Um controle remoto aberto, uma embalagem colorida, uma tomada exposta. Coisas que, para um adulto, são inofensivas. Mas para um bebê curioso ou uma criança exploradora, representam um universo de possibilidades e, infelizmente, de acidentes.

Nada disso foi pensado para uma criança. Mas tudo, inevitavelmente, passa pela mão de uma.

Eu trabalho, presencialmente, três dias da semana em um escritório que fica exatamente ao lado de um mercado OXXO. Costumo passar nele todas as manhãs para comprar iogurte e, recentemente, um produto comum me fez olhar para a inovação de um jeito diferente. Era uma bateria da Duracell. Nada de novo, à primeira vista.

Até perceber um detalhe crucial: ela tinha uma camada de Bitrex, uma das substâncias mais amargas que existem. Confesso: eu não fazia a menor ideia do que era Bitrex até ler a explicação na embalagem.

Se uma criança coloca na boca, a reação é imediata: ela cospe. É um reflexo instintivo, uma barreira natural.

Enquanto pagava meu iogurte, pensei: Aquilo não melhora a bateria em termos de energia ou durabilidade. Mas muda completamente o que pode acontecer ao redor dela. É uma inovação que não aprimora a função principal, mas protege o usuário em um cenário de uso não intencional.

Foi aí que essa bateria fez mais sentido para mim. Porque ela não resolve o uso correto. Ela resolve o uso errado.

Inovação além do cenário ideal

Durante muito tempo, a inovação foi sobre melhorar o que já funcionava. Mais potência, mais velocidade, mais conveniência. A busca incessante por um produto “melhor” em suas características primárias.

Só que, na prática, o problema raramente está aí. Ele aparece quando o produto sai do cenário ideal, do manual de instruções, do controle do fabricante.

Quando é usado fora de contexto, por acidente, por curiosidade infantil ou por um momento de distração. E algumas marcas, com uma visão mais apurada, começaram a entender essa realidade melhor do que outras.

E aí a ficha caiu, de que a verdadeira inovação pode estar em prever e mitigar o erro.

Exemplos de design para o erro humano

O ajuste não veio no discurso de marketing ou em campanhas de conscientização. Veio no próprio produto, no seu design.

Confesso que não lembrava imediatamente de outros exemplos de inovação deste tipo e fui pesquisar.

Veja outros casos que achei onde a inovação focou na consequência do uso, e não apenas no desempenho ideal:

Redefinindo o risco e a responsabilidade

Nada disso melhora a performance da lavagem, a potência do carro ou a eficiência da bateria. Mas redefine o risco. Essas inovações não buscam a perfeição do uso, mas a segurança na imperfeição.

Elas reconhecem que, por mais que eduquemos e nos esforçamos, o erro faz parte da condição humana, especialmente quando há crianças envolvidas.

O que une todos esses casos não é a tecnologia de ponta ou a complexidade da engenharia. É a “decisão”. São marcas que deixaram de pensar apenas em como o produto funciona quando tudo dá certo, no cenário idealizado de um laboratório ou de um manual.

E passaram a pensar, de forma proativa e empática, no que acontece quando dá errado, no caos imprevisível do cotidiano.

O erro como parte do processo

Depois que você tem filho, essa diferença fica mais evidente. A perspectiva muda. Porque o erro não é exceção; ele é parte do processo.

Curiosidade, impulso, segundos de distração. É nesse cenário real, e muitas vezes caótico, que alguns produtos começam a mostrar o quanto foram bem pensados.

Não por sua genialidade tecnológica, mas por sua inteligência em prever a falha.

Talvez a gente esteja entrando em uma fase diferente de inovação. Uma fase menos focada em desempenho bruto e mais preocupada com a consequência, com o impacto real na vida das pessoas.

Produtos que não dependem de um comportamento perfeito do usuário. Marcas que entendem que, no mundo real, o uso nunca é exatamente como foi planejado, e que a segurança e a resiliência são tão valiosas quanto a funcionalidade.

Marcas no mundo real: a inovação silenciosa

No fim, aquela bateria não é só uma bateria melhor em termos técnicos. Ela é um exemplo de algo que ainda aparece pouco no noticiário de inovação, mas que tende a crescer exponencialmente.

É a inovação silenciosa, aquela que não chama atenção quando funciona perfeitamente, mas que faz toda a diferença quando algo dá errado, especialmente quando se trata da segurança e do bem-estar de quem mais amamos: nossos filhos.

É um lembrete de que o design mais inteligente é aquele que nos protege, mesmo quando não percebemos.

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Márcio Apolinário

Márcio Apolinário é o criador do Claritor, uma plataforma modular de inteligência reputacional que transforma dados digitais em insights estratégicos e planos de ação concretos. Com passagens por veículos de imprensa como iG e Metro Jornal, e empresas como Grupo Santander e Pernambucanas, em seus mais de 20 anos de experiência em comunicação, análise de mídia e reputação, Márcio se dedica a desvendar as complexidades do ambiente online para ajudar personalidades e organizações a proteger e impulsionar sua imagem.