Entre o PIB e o post: o acordo Mercosul-UE e a falência da narrativa única

A análise do debate público digital revela uma profunda dicotomia entre a narrativa oficial, focada no PIB, e a reação expressa em cada post nas redes

Márcio Apolinário

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O acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, fruto de mais de duas décadas de negociações, foi celebrado pelo corpo diplomático e por líderes políticos como um triunfo do multilateralismo e um marco para o crescimento econômico. No entanto, a análise do debate público digital revela uma profunda dicotomia entre a narrativa oficial, focada no Produto Interno Bruto (PIB), e a reação da sociedade civil, expressa em cada post nas redes sociais.

Em um período de 14 dias, o tema gerou um volume significativo de 6.041 menções, concentradas majoritariamente no X/Twitter (96%) em mapeamento feito pelo Claritor, e alcançou um público potencial de 19,8 milhões de visualizações.

A intensidade do debate, porém, não se traduziu em consenso, com a Percepção Online do tema estacionada em uma nota neutra de 5.0 (em uma escala de 0 a 10). Essa nota média, que reflete a polarização entre o entusiasmo oficial e as críticas ferrenhas, é o primeiro sinal da falência da narrativa única, que foi neutralizada por um contraponto crítico.

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A batalha digital em números

A polarização é evidente na distribuição de sentimento e na capacidade de viralização de cada lado:

Fonte: Monitor Claritor (período de 14 dias).

O discurso do PIB: alcance sem adesão

A narrativa positiva, impulsionada por figuras de alto impacto como o presidente Lula e veículos de grande alcance, focou em termos como “acordo”, “livre comércio”, “histórico”, “crescimento” e “oportunidade”. O pico de menções em 17 de janeiro, por exemplo, foi diretamente ligado à publicação de um artigo do presidente em 27 jornais internacionais, reforçando a visão de que o acordo é a “resposta do multilateralismo ao isolamento”.

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Essa estratégia de comunicação de alto nível garantiu que a mensagem oficial tivesse uma viralização esmagadora, com uma média de visualizações por post quase quatro vezes maior que a da narrativa negativa. O discurso do PIB, que promete a criação da “maior área de livre comércio do mundo” e um PIB conjunto de US$ 22 trilhões, dominou o feed dos usuários.

No entanto, o alto alcance não se converteu em uma Reputação Online majoritariamente positiva. O volume de menções negativas (1.719) superou o de menções positivas (1.426), e a Reputação Online permaneceu neutra (5.0). Isso demonstra que, embora a mensagem oficial tenha chegado a milhões, ela falhou em estabelecer um consenso ou em silenciar as críticas.

O contraponto do post: a crítica da “desvantagem”

Do outro lado, a narrativa negativa, embora com menor capacidade de viralização, trouxe um debate mais denso e enraizado em preocupações socioambientais e de assimetria econômica. O volume de menções negativas, superior ao positivo, indica uma base de oposição ativa e vocal.

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A nuvem de palavras negativas expôs termos como “desvantagem”, “desigualdade”, “desmatamento”, “agronegócio” e, de forma mais alarmante, “veneno” e “agrotóxico”. A crítica central, resumida na expressão “trocar vacas por carros”, argumenta que o acordo reforça a posição periférica do Mercosul, facilitando a exportação de commodities e a importação de produtos industrializados, além de abrir as portas para pesticidas proibidos na Europa.

Apesar de ter um engajamento médio por menção significativamente menor (52,9), a persistência e o volume da crítica impediram que a celebração oficial se tornasse a única verdade percebida pelo público. A Reputação Online neutra é o atestado de que a narrativa do PIB não conseguiu se sobrepor à narrativa do post.

Conclusão: a nova dinâmica da diplomacia

O debate sobre o acordo Mercosul-UE serve como um estudo de caso sobre a nova dinâmica da diplomacia e do comércio internacional na era digital. Não basta mais que um acordo seja vantajoso no papel (o PIB); ele precisa resistir ao escrutínio público e à polarização das redes (o post).

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A lição é clara: a viralização da mensagem oficial pode garantir o alcance, mas não a adesão. A falência da narrativa única reside no fato de que, mesmo com o poder de amplificação da máquina governamental, a Reputação Online do acordo foi determinada pela soma das vozes, e não apenas pela mais alta.

O acordo, embora celebrado como um triunfo da diplomacia, carrega consigo um passivo de críticas que, mesmo com menor alcance individual, continuam a pautar a percepção pública e a exigir cautela dos líderes e marcas que navegam neste complexo cenário.

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Márcio Apolinário

Márcio Apolinário é o criador do Claritor, uma plataforma modular de inteligência reputacional que transforma dados digitais em insights estratégicos e planos de ação concretos. Com passagens por veículos de imprensa como iG e Metro Jornal, e empresas como Grupo Santander e Pernambucanas, em seus mais de 20 anos de experiência em comunicação, análise de mídia e reputação, Márcio se dedica a desvendar as complexidades do ambiente online para ajudar personalidades e organizações a proteger e impulsionar sua imagem.