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O acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, fruto de mais de duas décadas de negociações, foi celebrado pelo corpo diplomático e por líderes políticos como um triunfo do multilateralismo e um marco para o crescimento econômico. No entanto, a análise do debate público digital revela uma profunda dicotomia entre a narrativa oficial, focada no Produto Interno Bruto (PIB), e a reação da sociedade civil, expressa em cada post nas redes sociais.
Em um período de 14 dias, o tema gerou um volume significativo de 6.041 menções, concentradas majoritariamente no X/Twitter (96%) em mapeamento feito pelo Claritor, e alcançou um público potencial de 19,8 milhões de visualizações.
A intensidade do debate, porém, não se traduziu em consenso, com a Percepção Online do tema estacionada em uma nota neutra de 5.0 (em uma escala de 0 a 10). Essa nota média, que reflete a polarização entre o entusiasmo oficial e as críticas ferrenhas, é o primeiro sinal da falência da narrativa única, que foi neutralizada por um contraponto crítico.
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A batalha digital em números
A polarização é evidente na distribuição de sentimento e na capacidade de viralização de cada lado:
- Positivo: 1.426 menções (23,6% do total), com uma média de 8.345,2 visualizações e 490,7 de engajamento por menção.
- Neutro: 2.896 menções (48,0% do total), com 3.577,5 visualizações e 218,1 de engajamento por menção.
- Negativo: 1.719 menções (28,5% do total), com 2.383,5 visualizações e 52,9 de engajamento por menção.
- Total: 6.041 menções, com média geral de 4.459,9 visualizações e 240,6 de engajamento por menção.
Fonte: Monitor Claritor (período de 14 dias).
O discurso do PIB: alcance sem adesão
A narrativa positiva, impulsionada por figuras de alto impacto como o presidente Lula e veículos de grande alcance, focou em termos como “acordo”, “livre comércio”, “histórico”, “crescimento” e “oportunidade”. O pico de menções em 17 de janeiro, por exemplo, foi diretamente ligado à publicação de um artigo do presidente em 27 jornais internacionais, reforçando a visão de que o acordo é a “resposta do multilateralismo ao isolamento”.
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Essa estratégia de comunicação de alto nível garantiu que a mensagem oficial tivesse uma viralização esmagadora, com uma média de visualizações por post quase quatro vezes maior que a da narrativa negativa. O discurso do PIB, que promete a criação da “maior área de livre comércio do mundo” e um PIB conjunto de US$ 22 trilhões, dominou o feed dos usuários.
No entanto, o alto alcance não se converteu em uma Reputação Online majoritariamente positiva. O volume de menções negativas (1.719) superou o de menções positivas (1.426), e a Reputação Online permaneceu neutra (5.0). Isso demonstra que, embora a mensagem oficial tenha chegado a milhões, ela falhou em estabelecer um consenso ou em silenciar as críticas.
O contraponto do post: a crítica da “desvantagem”
Do outro lado, a narrativa negativa, embora com menor capacidade de viralização, trouxe um debate mais denso e enraizado em preocupações socioambientais e de assimetria econômica. O volume de menções negativas, superior ao positivo, indica uma base de oposição ativa e vocal.
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A nuvem de palavras negativas expôs termos como “desvantagem”, “desigualdade”, “desmatamento”, “agronegócio” e, de forma mais alarmante, “veneno” e “agrotóxico”. A crítica central, resumida na expressão “trocar vacas por carros”, argumenta que o acordo reforça a posição periférica do Mercosul, facilitando a exportação de commodities e a importação de produtos industrializados, além de abrir as portas para pesticidas proibidos na Europa.
Apesar de ter um engajamento médio por menção significativamente menor (52,9), a persistência e o volume da crítica impediram que a celebração oficial se tornasse a única verdade percebida pelo público. A Reputação Online neutra é o atestado de que a narrativa do PIB não conseguiu se sobrepor à narrativa do post.
Conclusão: a nova dinâmica da diplomacia
O debate sobre o acordo Mercosul-UE serve como um estudo de caso sobre a nova dinâmica da diplomacia e do comércio internacional na era digital. Não basta mais que um acordo seja vantajoso no papel (o PIB); ele precisa resistir ao escrutínio público e à polarização das redes (o post).
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A lição é clara: a viralização da mensagem oficial pode garantir o alcance, mas não a adesão. A falência da narrativa única reside no fato de que, mesmo com o poder de amplificação da máquina governamental, a Reputação Online do acordo foi determinada pela soma das vozes, e não apenas pela mais alta.
O acordo, embora celebrado como um triunfo da diplomacia, carrega consigo um passivo de críticas que, mesmo com menor alcance individual, continuam a pautar a percepção pública e a exigir cautela dos líderes e marcas que navegam neste complexo cenário.