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O Brasil é um país de contradições de escala continental. Convive com problemas estruturais que resistem a décadas de tentativas de solução e carrega uma dívida social que ainda não conseguiu, nem de longe, honrar.
Mas é também um país capaz de protagonizar avanços que surpreendem o mundo. A agricultura é um exemplo conhecido: em produtividade e modernização, o Brasil está entre os líderes globais em diversas culturas.
O sistema financeiro é outro. E é sobre esse segundo Brasil que trata este artigo.
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Capitaneado pelo Banco Central, o país construiu ao longo dos últimos 25 anos uma das infraestruturas financeiras mais sofisticadas do mundo. É uma história de acertos consistentes, cada um construído sobre o anterior.
Após o saneamento do sistema financeiro promovido pelo PROER na década de 1990, o BC lançou o projeto de Spread Bancário, com o objetivo de desenvolver o mercado de crédito a partir de bases mais sólidas. Instrumentos como FIDCs, alienação fiduciária e patrimônio de afetação foram criados, redesenhando o arcabouço legal do mercado de capitais brasileiro.
Em paralelo, o BC avançou em regulação prudencial: mais capital para operações arriscadas incluindo operações de crédito, limites de risco de mercado e parâmetros mínimos de liquidez por instituição. O sistema ficou mais seguro.
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Em maio de 2002, nasceu o novo Sistema de Pagamentos Brasileiro, trazendo modernização operacional e dando origem à TED. Em 2013, a criação das Instituições de Pagamento abriu o mercado para novos entrantes, quebrando exclusividades históricas.
Em 2016, o BC formalizou tudo isso numa visão estratégica unificada: a agenda BC+, renomeada para BC# em 2019, com pilares claros de inclusão financeira, redução dos custos de intermediação, competitividade e transparência.
O Pix, lançado em 2020, foi o produto mais visível dessa agenda: tornou-se a principal forma de pagamento do país em tempo recorde e virou caso de estudo no mundo inteiro.
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Cada um desses avanços, somados aos demais, criaram o ambiente que possibilitou o surgimento de empresas como Nubank, Stone, PicPay, Cloudwalk e Klavi, referências globais de inovação financeira que não existiriam sem esse ecossistema regulatório cuidadosamente construído.
Esta não é uma lista exaustiva. É uma seleção deliberada de marcos que convergem para o tema central deste artigo. Um avanço que aglutina muitos dos anteriores e representa o próximo capítulo dessa história.
Esse avanço se chama Open Finance
Durante décadas, o sistema financeiro brasileiro funcionou como um oligopólio bem-vestido: cerca de 90% dos correntistas concentrados em apenas cinco bancos, juros altos e poucos incentivos para o cliente trocar de instituição. Novos entrantes faziam ofertas no escuro, sem histórico, sem contexto, sem chance real de competir com quem já conhecia o cliente há anos.
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Foi para romper essa lógica que nasceu o Open Finance, perfeitamente alinhado à agenda BC# e seus objetivos de inclusão financeira, redução dos custos de intermediação e aumento da competitividade.
A premissa é simples: os dados financeiros de uma pessoa pertencem a ela, não ao banco onde estão guardados. E se o titular puder mover esses dados com liberdade, a concorrência muda de patamar.
Em fevereiro de 2021, o sistema entrou em operação. A adoção foi exponencial. Em 2023, dois anos após o lançamento, eram 15 milhões de clientes e 22 milhões de consentimentos ativos. Ao completar cinco anos, em fevereiro de 2026, o ecossistema já somava mais de 100 milhões de clientes conectados, 154 milhões de consentimentos ativos e mais de 800 instituições participantes.
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Em operações de crédito originadas com base em dados compartilhados, o ecossistema já acumula R$ 31 bilhões, sendo R$ 12 bilhões só no primeiro semestre de 2025.
O impacto vai além dos números. O Brasil tem cerca de 30 milhões de autônomos, que representam aproximadamente 15% do PIB: taxistas, motoristas de aplicativo, motoboys, caminhoneiros, trabalhadores informais.
Durante décadas, essa parcela enorme da população viveu praticamente excluída do sistema de crédito, sem ter como comprovar renda nos moldes exigidos pelos bancos.
Ao autorizar o compartilhamento de seus dados bancários via Open Finance, essas pessoas viabilizam pela primeira vez uma análise granular e individualizada do seu perfil financeiro real, abrindo portas que estavam fechadas há gerações.
Estudantes e famílias de baixa renda passam a ter acesso a crédito educacional baseado em perfil financeiro real, não apenas em score de bureau.
Na gestão financeira e wealth management, a mudança também é estrutural. Assessores de investimento e plataformas de planejamento financeiro passaram a eliminar a coleta manual de dados, acessando informações consolidadas de múltiplas instituições diretamente via Open Finance.
O que antes levava dias de planilhas, hoje acontece em segundos, com visão completa do patrimônio do cliente.
O que diferencia o modelo brasileiro não foi apenas a ambição, mas a execução. Enquanto outros países deixaram o Open Banking se desenvolver organicamente, o BC tomou o volante: puxou a agenda, padronizou as APIs, definiu os contratos e forçou os grandes bancos a participarem desde o início. Não havia como ficar de fora.
O resultado dessa escolha deliberada aparece na comparação com o Reino Unido, pioneiro no tema: cinco anos após seus respectivos lançamentos, os britânicos contavam com 7 milhões de usuários; o Brasil, com mais de 100 milhões.
Hoje, o país lidera um ranking entre 78 nações com regulações de Open Finance, referência estudada por reguladores da Europa, Ásia e América Latina.
Olhando para os últimos 25 anos, é difícil não reconhecer a consistência e a qualidade do que o Banco Central construiu. Cada iniciativa trouxe benefícios reais e concretos para milhões de brasileiros, ampliando o acesso, reduzindo custos e tornando o sistema mais justo e competitivo.
O BC tem sido, em grande medida, um dos maiores catalisadores de inovação financeira do mundo. Agora, com o Open Finance em plena maturação, a expectativa é que o BC continue fiel a esse histórico.
Que siga evoluindo o ecossistema, lapidando o que ainda precisa de ajuste, expandindo o que já funciona e construindo sobre uma base que é, hoje, a mais avançada do planeta.
O Open Finance tem tudo para ser o próximo grande capítulo dessa história de acertos. E o Brasil, mais uma vez, tem a chance de mostrar ao mundo o que uma regulação bem feita é capaz de realizar.
Este artigo tem as co-autorias de Luiz Fernando Figueiredo ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio/conselheiro da Klavi e Felipe Bruno Chan CEO da Klavi.