Será que o Brasil está correndo atrás da fronteira tecnológica global?

A recente alta da produtividade americana expõe fragilidades do crescimento brasileiro, ainda baseado em fatores cíclicos e pouco ganho de eficiência

Luiz Fernando Figueiredo

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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A produtividade nos EUA acelerou nos últimos anos. Apesar de uma queda em 2022, quando a economia foi afetada por fatores cíclicos adversos, a produtividade do trabalho voltou a uma trajetória de alta desde 2023, bem acima da tendência pré-Covid. Os dados trimestrais de 2025 reforçam essa observação e sugerem nova aceleração: nos últimos três trimestres do ano, a produtividade cresceu a uma taxa anualizada de 4,1%, um ritmo visto pela última vez no fim dos anos 1990.

A questão é se o Brasil seguirá esse movimento. O crescimento no Brasil tem sido relativamente elevado nos últimos anos, o que levanta dúvidas sobre uma possível aceleração do crescimento potencial e gera amplo debate sobre quando e como a economia responderá à política monetária persistentemente restritiva. Para começar, quais são as forças por trás do crescimento recente no Brasil?

Um ponto extremamente importante é que o crescimento do PIB e o crescimento da produtividade são conceitos distintos.

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O crescimento “headline” da economia tem sido robusto: o PIB avançou 3,2%, 3,4% e 2,4% em 2023-25, respectivamente, acima das estimativas de crescimento potencial em torno de 1,5% a 2,0%. O conceito de “potencial” é particularmente desafiador no Brasil, dada a história de grandes oscilações na tendência de crescimento (por exemplo, o boom durante o superciclo de commodities no início dos anos 2000, seguido por uma “década perdida” após a crise financeira global).

Em termos gerais, o crescimento potencial pode ser visto como resultado de três componentes: tendências demográficas contribuindo com cerca de 0,5% a 1,0%; acumulação de capital em magnitude semelhante; e produtividade total dos fatores entre 0,0% e 0,5%. Essa decomposição está em linha com o observado nos últimos anos, com medidas de produtividade crescendo bem abaixo do PIB. A produtividade do trabalho tem sido fraca, praticamente estável desde 2023 e em queda relativa em relação à produtividade dos EUA ao longo da última década.

O que explica essa diferença relevante entre PIB e produtividade? Em resumo, o PIB foi impulsionado de forma desproporcional por um choque agrícola recorde, forte crescimento do emprego e consumo sustentado por expansão fiscal e de crédito, fazendo com que cerca de dois terços do crescimento recente tenham vindo do aumento do uso de trabalho e de fatores cíclicos, e não de ganhos de eficiência.

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Essa observação está diretamente relacionada à ideia de que a política monetária restritiva dos últimos quatro anos foi, ao menos em parte, compensada por uma política fiscal expansionista, reduzindo sua eficácia ou, no mínimo, retardando sua transmissão para a economia real.

Finalmente, em que medida a experiência dos EUA reflete fatores globais que podem beneficiar a produtividade brasileira? Por um lado, o Brasil pode se beneficiar significativamente em áreas com baixa barreira à adoção tecnológica.

A inteligência artificial é o principal exemplo: sua difusão internacional é relativamente fácil (por meio de plataformas em nuvem, APIs e empresas multinacionais), reduzindo a necessidade de inovação de fronteira doméstica e permitindo uma convergência mais rápida à medida que outros insumos complementares melhoram.

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O Brasil já demonstrou, em setores como agronegócio e fintechs, que consegue adotar e escalar rapidamente tecnologias de ponta quando os incentivos estão alinhados, o que sugere que ganhos semelhantes são possíveis em uma escala mais ampla.

Por outro lado, as barreiras à adoção de IA no Brasil — falta de qualificação do trabalho, alto custo de capital, baixa concorrência e grande presença de empresas de baixa produtividade — são de natureza estrutural e persistem há décadas.

Superá-las exige uma importante agenda de reformas, a começar pelo Estado, onde impera o gasto excessivo e uma enorme ineficiência, trazendo o custo de capital a um nível incompatível com o investimento produtivo, além de reformas complementares em educação, mercados financeiros e ambiente de negócios, redução do risco jurídico e não apenas o acesso à tecnologia.

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Como exemplo, temos a tributação no Brasil, que, além de ser excessiva, também é um pesadelo para aquelas empresas que querem pagar corretamente seus tributos. É comum no país a Suprema Corte mudar seu entendimento sobre questões tributárias, inclusive sobre períodos passados.

A aceleração recente da produtividade nos EUA — impulsionada por IA, digitalização e forte dinâmica empresarial — sugere que a fronteira tecnológica global está avançando mais rapidamente, elevando o desafio para o Brasil acompanhar.

Isso representa tanto uma oportunidade quanto um risco: se o Brasil enfrentar dificuldades na difusão tecnológica, devido à má alocação de recursos, baixa concorrência e ao peso de um grande setor de serviços de baixa produtividade. A não ser que haja uma importante mudança no arcabouço de políticas públicas com o objetivo de ampliar a produtividade e, com isso, o PIB potencial, veremos a aceleração dos EUA, pelo menos no curto prazo, ampliando o diferencial de produtividade entre os dois países e, provavelmente, em relação ao mundo.

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Este artigo teve a coautoria de Benjamin Mandel, sócio e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, e Luiz Fernando Figueiredo, sócio e conselheiro da Jubarte Capital.

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.