Quais serão os próximos passos do Copom?

O Banco Central, sob a liderança de Gabriel Galípolo, adotou uma postura técnica e prudente, resistindo às pressões políticas por afrouxamento prematuro

Luiz Fernando Figueiredo

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

A última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada após a reunião de novembro de 2025, trouxe uma mensagem que, embora sutil, reforça a leitura de que o Banco Central está mais confiante na trajetória de convergência da inflação. Apesar de manter o trecho sobre a necessidade de manter a taxa de juros em patamar “significativamente contracionista por período suficientemente prolongado”, o documento introduziu uma nuance importante: o Comitê agora atua com “maior convicção de que a taxa corrente é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”. Essa frase, embora discreta, marca uma inflexão no tom da comunicação e abre espaço para o início do ciclo de cortes já na reunião de janeiro.

A manutenção do wording era esperada, sobretudo para preservar a credibilidade conquistada ao longo de 2025. O Banco Central, sob a liderança de Gabriel Galípolo, adotou uma postura técnica e prudente, resistindo às pressões políticas por afrouxamento prematuro. Essa firmeza foi essencial para ancorar expectativas e permitir que os dados começassem a refletir os efeitos da política monetária. Agora, com a inflação corrente surpreendendo para baixo e as projeções recuando mesmo após a incorporação da isenção do imposto de renda no modelo do BC, o cenário é mais favorável a uma inflexão.

O IPCA de outubro registrou alta de apenas 0,09% mês a mês, abaixo das projeções do mercado. A média dos núcleos também veio abaixo do esperado, com destaque para surpresas baixistas em bens industriais — especialmente duráveis como artigos de residência e vestuário — e em serviços subjacentes, como seguro voluntário de veículo e serviços bancários. A alimentação no domicílio também colaborou, com in natura, tubérculos e leites apresentando desaceleração. Esses dados reforçam a comunicação do BC sobre a continuidade da desinflação, mesmo que ainda acima da meta. E essa surpresa não foi única, na verdade temos a um bom tempo visto surpresas nessa direção.

Continua depois da publicidade

Mais relevante ainda é o impacto desses dados sobre as expectativas. A revisão baixista das projeções de inflação no Focus não se restringe aos horizontes de 2025 e 2026, mas se estende para além do horizonte relevante de 18 meses. A própria projeção do BC para esse horizonte foi revista de 3,4% para 3,3%, mesmo com a inclusão preliminar da isenção do IR — medida que, em tese, deveria pressionar a inflação. O fato de essa revisão ocorrer mesmo com o novo estímulo fiscal reforça a leitura de que a política monetária atual já está suficientemente restritiva.

Do lado da atividade, os sinais de moderação são evidentes, ainda que heterogêneos. Setores mais sensíveis à política monetária, como o crédito, já apresentam arrefecimento. O canal de crédito, embora ainda em expansão, desacelera gradualmente, com crescimento entre 8,5% e 9%. Já o mercado de trabalho, menos sensível aos juros, continua mostrando dinamismo, mas com sinais de esgotamento à medida que o país se aproxima do pleno emprego. Essa combinação — moderação sem colapso — é compatível com o início de um ciclo de cortes calibrado, que preserve a desinflação sem sufocar a atividade.

A condução da política monetária por Gabriel Galípolo ao longo de 2025 foi marcada por responsabilidade e pragmatismo. Inicialmente visto com desconfiança pelo mercado, Galípolo adotou uma postura firme, técnica e ancorada em dados, resistindo às pressões políticas por cortes antecipados. Essa postura foi essencial para reforçar a credibilidade do BC, mesmo diante de um cenário fiscal desafiador e de ruídos políticos. Hoje, essa credibilidade permite ao BC iniciar o ciclo de cortes sem comprometer a ancoragem das expectativas — um ativo valioso que Galípolo entregou ao país.

Continua depois da publicidade

A comunicação do presidente do BC no Fórum de Investimentos da Bradesco Asset reforçou essa imagem. Galípolo reiterou que o BC não está dando sinais futuros, mas reagindo aos dados. Disse que a política monetária está produzindo efeitos graduais e consistentes, e que a manutenção dos juros em patamar restritivo foi necessária para consolidar a desinflação. Agora, com os dados apontando para uma inflação mais benigna e expectativas mais ancoradas, o pragmatismo que marcou sua gestão autoriza uma mudança de postura.

Em suma, os sinais estão alinhados: a inflação corrente mostra desaceleração consistente, as expectativas recuam mesmo diante de estímulos fiscais, e a atividade econômica dá sinais de moderação sem colapso. A ata do Copom reforça essa leitura ao afirmar, com mais convicção, que o nível atual da Selic é suficiente para garantir a convergência da inflação à meta. A credibilidade construída pelo Banco Central ao longo de 2025 — especialmente sob a condução técnica e prudente de Galípolo e sua equipe — permite que um corte em janeiro seja interpretado como parte de uma estratégia responsável, e não como uma concessão política.

Este artigo tem as co-autorias de Rita Milani, economista da BuysideBrasil, Andrea Damico, socia-fundadora da BuysideBrasil e de Luiz Fernando Figueiredo, co-chairman da JiveMaua.

Autor avatar
Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.