Onde estão as receitas recorrentes?

A não ser que apareçam outras fontes de arrecadação, os déficits primários de 2025 em diante devem ser maiores que o visto em 2024

Luiz Fernando Figueiredo

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O início de ano do ponto de vista fiscal tem sido mais animador.

De um lado, estamos vendo o esforço contínuo da Fazenda e da equipe econômica na busca pelas medidas adicionais de receita; uma parcela dessa batalha tem sido travada com o Congresso, com vários avanços e um bom diálogo.

E do outro lado, os números de arrecadação de janeiro e as prévias do mês de fevereiro surpreendendo positivamente, aumentam os ânimos do governo.

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No entanto, o que continua chamar a atenção é a expectativa de mercado para o resultado primário de 2024 e dos anos seguintes.

A pesquisa Focus indica que se espera um déficit primário de 0,8% do PIB em 2024 e uma melhora desse déficit para 0,6% em 2025 e 0,5% em 2026.

Não parece um cenário tão realista, considerando que uma boa parcela das receitas extras deste ano são as chamadas receitas não recorrentes.

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O que quero dizer é que, a não ser que apareçam outras fontes de arrecadação, os déficits primários de 2025 em diante devem ser maiores que o visto em 2024.

Uma breve análise das receitas adicionais previstas pelo governo nos permite inferir o que foi dito acima. Para este ano, as medidas de transações tributárias, revisão de contratos de concessão ferroviária, depósitos judiciais da Caixa Econômica Federal e limitação das compensações tributárias são as principais que não são recorrentes de 2.025 em diante.

Somadas, elas totalizam algo em torno de R$ 120 bilhões de acordo com a expectativa do governo, representando um pouco mais de 30% do total que o governo espera arrecadar esse ano.

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Portanto, ano que vem, além de não contarmos com esses R$ 120 bilhões, o montante de algumas medidas também será inferior ao esperado este ano, como por exemplo a recuperação de créditos do CARF.

Isso abre mais espaço para outras discussões relevantes envolvendo um possível contingenciamento do orçamento e a própria alteração da meta fiscal.

A decisão sobre contingenciamento ainda é incerta. Ao que parece, devemos ver alguma coisa da ordem de até R$ 20 bilhões, o que ajuda a compensar algumas despesas previstas como por exemplo a desoneração da folha de pagamento.

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E a alteração da meta fiscal parece mais certa de que irá ocorrer, de um déficit zero para um déficit de 0,5% do PIB, a principal questão seria mais o timing dessa mudança.

Por fim, vale destacar o tema de reforma administrativa. Nos lembremos que o presidente da Câmara, Arthur Lira, foi uma figura importante no ano passado ao trazer o debate sobre a reforma, no sentido de que, se não fosse possível costurar a questão fiscal com as medidas de arrecadação, seria necessário repensar as despesas do governo.

Nos últimos tempos, Lira segue fazendo seus acenos positivos à reforma, reforçando o ganho de longo prazo que será trazido com o avanço da proposta.

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O lado fiscal transparece estar com uma fotografia um pouco melhor, porém o final do filme é nebuloso e continua claro que a nossa política fiscal está longe de alcançar a sustentabilidade, que seria a partir de um superávit fiscal da ordem de 1,5% do PIB.

Infelizmente apesar dos esforços da Fazenda, da equipe econômica, mesmo ainda com déficit fiscal o presidente Lula acha que possivelmente teremos “sobra” de recursos, coisa que estamos longe de alcançar.

*Este artigo teve a co-autoria do economista da Jive Mauá Luan Takada.

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.