Como a ilusão pode ser tão grande?

O crescimento impulsionado por estímulos fiscais pode criar uma sensação temporária de prosperidade, mas os sinais da dívida pública e dos juros sugerem riscos crescentes para os próximos anos

Luiz Fernando Figueiredo

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Alguém que não acompanha de perto a economia poderia até não saber ou entender bem o que está acontecendo no país do ponto de vista econômico.

Mas quem minimamente acompanha a nossa economia sabe claramente que a nossa dívida pública em breve se tornará impagável, ela já é 80% do nosso PIB e cresce 4 pontos percentuais por ano.

Além desse crescimento acelerado, o governo continua ampliando gastos, mas classificando-os fora das contas e do arcabouço fiscal, como se isso fosse fazer diferença na percepção dos agentes, sejam eles investidores, empresários ou pequenos poupadores.

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A verdade é que hoje já pagamos taxas de países no caminho da falência, juros reais de longo prazo acima de 8,5% e juros prefixados perto 14,5/15,0%.

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A deterioração fiscal e a perda de credibilidade

É difícil entender como o governo que está produzindo essa situação, que vê claramente o processo de deterioração, afinal, a cada novo leilão de rolagem de títulos do Tesouro, as taxas ficam mais altas, não se preocupa em como encontrará a situação econômica ano que vem após as eleições.

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Caso não tenhamos o início  de um importante processo de ajuste das contas públicas na virada para o novo governo, teremos uma crise como a muito tempo não vemos.

O que tem sido dito pelo responsável pelo programa de governo, Sérgio Gabrielli, caso Lula seja reeleito, é o mesmo que a equipe atual tem dito, “está em curso uma importante melhora fiscal”, quando sabemos que o que está acontecendo é exatamente o contrário, os números são absolutamente categóricos nessa direção.

O crescimento impulsionado pelo gasto público

O ciclo econômico está contando a mesma história. A política monetária esteve em território restritivo — em alguns momentos fortemente restritivo — ao longo dos últimos três anos consecutivos, mas com poucos resultados visíveis sobre o crescimento agregado da economia.

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Esse processo — no qual a expansão fiscal neutraliza a política monetária restritiva, mantém os juros elevados e reduz o crescimento futuro — traz uma consequência clara: choques de crescimento impulsionados pela política fiscal tendem a ser altamente temporários ou, em essência, ilusórios.

Essa ilusão já aparece claramente nas expectativas de que o impulso ao crescimento proporcionado pelo ano eleitoral será transitório.

As projeções no Focus para o crescimento do PIB em 2026 começaram o ano em 1,8%, abaixo das estimativas para o crescimento potencial (aproximadamente 2%), refletindo o efeito acumulado da política monetária restritiva.

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Desde meados de fevereiro, porém, essas projeções passaram por sucessivas revisões para cima, acompanhando o anúncio de diversas medidas de estímulo por parte do governo.

A revisão observada a partir de maio coincidiu de forma bastante próxima com uma série de novos anúncios, elevando o volume total de desonerações do imposto de renda, linhas de crédito subsidiadas, crédito habitacional, programas de renegociação de dívidas e benefícios tarifários para famílias de baixa renda para aproximadamente R$ 215 bilhões.

O aspecto mais interessante é que as revisões das projeções para o crescimento de 2027 seguiram exatamente a direção oposta: ao mesmo tempo em que as estimativas para 2026 eram elevadas, as de 2027 foram reduzidas.

O momento dessas revisões sugere fortemente que o impulso fiscal decorrente das medidas recentes será temporário e, na prática, será devolvido em 2027.

O preço de antecipar o crescimento

As consequências estruturais desse crescimento ilusório são duas. Em primeiro lugar, a frequência dos impulsos fiscais levanta questões importantes sobre como definir o crescimento potencial da economia.

Em princípio, o longo período de expansão da dívida pública tende a inflar artificialmente as estimativas recentes de crescimento potencial, já que a contribuição de políticas fiscais sem fonte permanente de financiamento talvez devesse ser tratada como um impulso pontual, e não como parte de uma tendência sustentável.

A segunda consequência estrutural diz respeito aos riscos que esse crescimento ilusório cria para a qualidade institucional no longo prazo.

O mecanismo pelo qual maior crescimento hoje resulta em queda de crescimento no futuro ocorre devido à confiança de que a política monetária continuará neutralizando impulsos fiscais pró-cíclicos.

Embora a credibilidade do BCB tenha sido um importante pilar ao longo da maior parte dos últimos dois anos, ela não pode ser considerada garantida.

O risco de repetir erros do passado

Será isso uma ilusão da perspectiva política também? Será que a realidade não afeta a percepção do governo e sua proposta para um eventual novo mandato?

O que parece, na verdade, é que está em curso uma tentativa de, por meio de uma forte narrativa, repetir o que ocorreu na reeleição da Dilma, onde o governo ficou “escondendo“ o quanto estávamos indo para o buraco e assim que eleito o governo “mudou de opinião“ e tentou um ajuste.

Totalmente na direção oposta do seu discurso anterior à eleição.

Claro que isso foi visto como uma fraude eleitoral naquela época e com isso o governo reeleito acabou perdendo totalmente a capacidade de implementar seu plano de governo, o Congresso desembarcou completamente e a presidente acabou sendo impichada.

Será que precisamos ter uma nova crise para que o governo possa acordar?
Será que ganhar a eleição é mais relevante do que de fato enfrentar as nossas importantes questões nacionais? Mesmo que isso queira dizer um novo mandato com uma conjuntura completamente estressada e o país com grandes dificuldades para avançar?

Este é o caminho que estamos trilhando, mais uma vez estamos empurrando com a barriga o ajuste tão necessário, fundamental na verdade para que minimamente possamos endereçar o que os nossos cidadãos merecem.

Este artigo tem as co-autorias de Luiz Fernando Figueiredo, sócio e conselheiro da Jubarte Capital e Ben Mandel, sócio e economista chefe da Jubarte Capital.

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.