As causas do nosso “pequeno” juro de 15% ao ano

Quando temos políticas indo em direções contrárias, de um lado o BC apertando e de outro o governo expandindo

Luiz Fernando Figueiredo

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(Foto: Christian Dubovan/Unsplash)
(Foto: Christian Dubovan/Unsplash)

O nosso país é engraçado, fazemos um esforço enorme para termos o maior juro do mundo e depois dizemos que os nossos problemas são os próprios juros que há tempos estão em 15% ao ano.

É como aquela pessoa que toma cortisona e por isso está se sentindo em forma, apesar da pneumonia que tem.

Este governo e Congresso aprovaram um arcabouço fiscal que proíbe o não crescimento de gastos. Nas regras atuais, o mínimo de crescimento do gasto público é de 2,5% em termos reais, e, na prática, tem crescido acima de 3% todos os anos desde o início deste mandato, mesmo que isso acarrete em um grande crescimento de nossa dívida, que hoje já tem um padrão quase exponencial. A nossa dívida cresce 4 pontos do PIB anualmente, se situando em torno de 83% do PIB ao final de 2026.

E esse crescimento de dívida também acontece porque governo e Congresso teimam em colocar despesas por fora das metas, ou seja, quando não conseguem estar dentro da meta, arrumam um “puxadinho” fora dela, tudo isso pressiona mais a demanda e reduz significativamente a credibilidade do arcabouço fiscal.

Do que estamos falando?

Primeiro, anualmente o governo joga lenha na economia, o gasto crescendo desta forma na verdade é expansão na veia, que amplia a demanda agregada. Mesmo em momentos como o atual, onde precisamos esfriar um pouco a demanda para a inflação arrefecer e irmos em direção a 3% ao ano, o governo continua a ampliar seus gastos, indo na contramão do esforço do BC quando sobe os juros, é o que os economistas chamam de impulso fiscal.

Quando temos políticas indo em direções contrárias, de um lado o BC apertando e de outro o governo expandindo, claro que seu resultado não é o que precisamos e, na verdade, temos muito esforço para resultados que acabam se anulando, do lado do BC isso quer dizer, infelizmente, que ele tem que subir mais para ter o resultado que gostaria.

O segundo ponto é que, com a expansão fiscal acontecendo anualmente de maneira irresponsável, sem a devida cobertura de mais receitas resultando em um crescimento tão grande de nossa dívida pública, a consequência natural é o aumento do custo de sua rolagem, aumentando também o que chamamos de prêmio de risco, que hoje esta já em um nível bastante elevado.

O terceiro ponto, e ficarei por aqui, é o quanto o nosso mercado de crédito é subsidiado, ou direcionado, algo com 50% do total.

Qual o problema aqui?

Temos dois problemas advindos de tanto crédito subsidiado. O primeiro é o custo dessa política, em várias formas de crédito subsidiado dados por entidades ligadas ao governo, que acabam custando muito aos cofres públicos, ampliando o nosso déficit.

O segundo é que, por ser subsidiado, ele não se afeta pelas mudanças na política monetária, ou seja, ele não é sensível a alta de juros, é como se o BC, para gerar o mesmo efeito no mercado de crédito, tivesse que subir o dobro para ter o mesmo efeito, já que sua política só afeta metade deste canal transmissor da política monetária.

Enfim, a nossa taxa de juros não é tão alta à toa, fazemos um enorme esforço para isso, só não devíamos nos surpreender depois de tantos movimentos para que isso acontecesse.

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.