O segundo turno pode ser pior. O seu mapa de riscos sabe disso?

Em um ambiente eleitoral cada vez mais intenso, prevenir assédio, aplicar regras com coerência e recalibrar controles também são desafios de Governança, Riscos e Compliance

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Faltam poucos dias para o primeiro turno das eleições de 2026 e as previsões sobre quem será o próximo presidente do Brasil dominam o noticiário.

Ao mesmo tempo, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já recebeu 463 denúncias de assédio eleitoral em todo o país, segundo levantamento publicado em 19 de setembro.

No Distrito Federal, o número de denúncias registrado neste início de campanha já superava o observado em agosto e setembro de 2022 somados, com uma particularidade: 38% dos relatos envolviam empresas de serviços terceirizados, como vigilância, limpeza e engenharia. 

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Mas o que esses números realmente mostram? Primeiro e segundo turno nas eleições de 2022 tiveram o mesmo comportamento no que diz respeito ao volume de denúncias de assédio eleitoral? O mapa de risco do início do período eleitoral era o mesmo ao final? Os controles preparados para o primeiro turno foram adequados para o risco do segundo turno? 

Este ano, o ambiente de trabalho ganhou uma camada adicional de proteção.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a prever expressamente que é vedada a propaganda ou o assédio eleitoral no ambiente de trabalho, público ou privado, responsabilizando quem der causa ou permitir sua ocorrência.

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E esse último detalhe faz toda a diferença, porque deixa de olhar somente para o comportamento individual e passa a se preocupar também com a responsabilidade organizacional quanto aos mecanismos de prevenção implementados. 

Do lado de fora, todo mundo acompanha pesquisas, debates e candidatos. Dentro da empresa, quem está acompanhando como o período eleitoral está mudando o perfil de riscos do seu negócio? Colocar em prática as ferramentas de GRC pode ser uma solução. 

Quando a opinião vira pressão

Uma liderança pode ter opinião política. Um empregado também. GRC não existe para tirar a política de dentro da empresa. Isso seria impossível e nem deveria ser o objetivo. Mas há riscos reais com os quais toda empresa deveria estar preparada para lidar nesse período.

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Ameaças de demissão, perda de função, redução salarial, promessas de benefícios, exigência de participação em atos de campanha, cobrança sobre o voto, pressão para divulgar candidaturas em redes pessoais, exigência do uso de camisetas e adesivos, humilhações relacionadas à preferência política.

O assédio eleitoral explícito, como nesses exemplos, é fácil de reconhecer. Mais difíceis são os casos em que a influência aparece de uma forma sutil: “E você, hein? Ainda não falou nada sobre quem vai votar.” “Se o cenário virar, o investimento da planta 2 não sai. Aí sim vai ter conversa sobre o quadro.” “Não acredito, você foi no comício desse cara?” “Olha as coisas que ela posta no insta dela!”

O problema dessas situações começa quando a assimetria de poder transforma manifestação de opinião em pressão, constrangimento ou ameaça.

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Ou seja, uma conversa sobre política entre dois colegas do mesmo nível hierárquico não produz necessariamente o mesmo efeito de quando uma das pessoas decide sobre promoção, remuneração, escala, horas extras, contratação ou demissão da outra. 

É também por isso que simplesmente mandar um e-mail ou publicar uma cartilha dizendo que “assédio eleitoral é proibido” pode ser pouco.

Nem todo mundo precisa do mesmo treinamento

Uma atuação de GRC baseada em risco deveria começar perguntando onde a exposição é maior. Isso significa calibrar a mitigação ao nível de exposição, como, por exemplo, ter orientação específica para lideranças mais expostas, reforço do canal de denúncias e equipe de investigação para casos de natureza eleitoral, e critérios de escalonamento e tomada de decisão definidos antes de surgir o primeiro caso. 

Não parece razoável reunir cinco mil empregados em um treinamento de duas horas apenas porque estamos em ano eleitoral.

Uma liderança com centenas de pessoas sob sua gestão, um gerente de planta, quem define escalas e horas extras, ou quem administra uma grande população terceirizada merece uma orientação muito mais direcionada do que alguém sem qualquer poder sobre outras pessoas.

O mesmo vale para o canal de denúncias.

Não basta informar sobre a sua existência e receber relatos anônimos. A empresa precisa conseguir reconhecer quando um relato configura uma situação que merece, de fato, atenção, assim como a equipe de investigação precisa estar apta para conduzir casos concretos sem deixar que o clima do momento contamine a gestão de consequências. 

Imagine que um funcionário participe, no fim de semana, de uma manifestação política vestindo o uniforme da empresa e apareça em uma fotografia que viraliza nas redes sociais. Antes da punição, vêm outras perguntas.

Existe uma política clara sobre uso de uniforme fora do trabalho? Ela vale para qualquer manifestação pública ou está sendo lembrada apenas porque o evento é político? A imagem cria razoavelmente uma associação entre aquela manifestação individual e o posicionamento institucional da empresa? Como situações semelhantes, mas sem conteúdo político, foram tratadas?  

Gestão de consequências no compliance não deveria servir para punir uma opinião. Deveria responder, de forma coerente e proporcional, a uma eventual violação de uma regra corporativa previamente estabelecida.

Um mapa de riscos não é uma foto. É um filme!

Um risco não permanece necessariamente com a mesma probabilidade ou exige a mesma resposta ao longo do tempo. E essa mesma lógica se aplica para o risco eleitoral.

Nas eleições de 2022, o MPT registrou um total de 3.371 denúncias de assédio eleitoral. Mas quem lê esse número como um dado estático enxerga só metade da história.  

Segundo os dados do MPT, apenas 68 denúncias haviam sido registradas até o dia seguinte ao primeiro turno. Isso mesmo, apenas 2%.

Cerca de três semanas depois, já eram 988, e no encerramento da votação do segundo turno os números apontavam 2.549 denúncias, de um total que chegaria a 3.371 ao fim do pleito. 

Para a gestão de riscos, essa informação vale ouro. O risco não mudou de natureza, mas mudou de intensidade ao longo do tempo. Ou seja, quem tratou o período eleitoral como um bloco único calibrou a mitigação pelo momento errado.

No primeiro turno há muitos candidatos disputando presidência, governos estaduais, senado e câmara. E, com tanto candidato em jogo, nem sempre está claro qual candidato é apoiado pelo chefe.

No segundo turno, a depender do estado, a disputa pode se resumir a quem será o presidente. Nesse momento, a pressão deixa de precisar de nome.

O tempo até a votação é curto, o resultado está próximo e as consequências do pós-eleição passam a caber num horizonte de semanas. 

A recomendação de recalibrar a mitigação é uma atuação madura da gestão de riscos que trabalha com a inteligência dos dados a seu favor e que envolve integração com outras áreas da organização como jurídico, operação, RH e comunicação. 

O verdadeiro teste de estresse

Uma eleição testa se a liderança corporativa sabe onde termina sua liberdade individual e onde começa o poder decorrente do cargo. Testa se as regras são claras o bastante para serem aplicadas no chão de fábrica. Testa se o empregado confia no canal de denúncias.

Testa se quem investiga sabe reconstruir contexto e decidir com imparcialidade. E testa se o mapa de riscos é vivo ou apenas um documento revisado uma vez por ano. 

GRC não precisa prever quem vai vencer a eleição. Precisa garantir que, qualquer que seja o resultado, a empresa saiba quais riscos está disposta a correr, quais comportamentos não está disposta a aceitar e quais critérios continuará aplicando quando o ambiente ao redor ficar mais polarizado.

E registrar essas decisões, com data e justificativa, é o que transforma a reação em governança corporativa. Isso porque, quando o segundo turno chegar, uma cartilha na internet pode ter sido pouco, e o mapa de riscos aprovado em janeiro pode não descrever mais o ambiente de outubro. 


Luciana Silveira é executiva especialista em Governança Corporativa, Gestão de Riscos e Compliance, fundadora do GRC Fora da Caixa. Com mais de 20 anos de experiência na área, atua na construção de uma nova forma de pensar e comunicar o GRC, unindo teoria à prática, com profundidade técnica e leveza editorial.