Despedida? Não. Governança em rede nacional

A saída de Bonner e a aula pública de sucessão corporativa que o Brasil acabou de assistir

Luciana Silveira

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William Bonner se despede do Jornal Nacional (Reprodução - Instagram - post conjunto entre @jornalnacional e @portalg1)
William Bonner se despede do Jornal Nacional (Reprodução - Instagram - post conjunto entre @jornalnacional e @portalg1)

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Quando William Bonner se despediu da bancada do Jornal Nacional após 29 anos, milhões de brasileiros viram emoção, nostalgia e gratidão. Mas, por trás da cena, o que aconteceu foi uma das maiores demonstrações públicas de governança corporativa e planejamento sucessório que o país já assistiu.

Enquanto o público via um “fim de ciclo”, a Globo executava um plano de transição que vinha sendo desenhado desde 2020, e que envolveu pesquisa de mercado, preparação e comunicação transparente. Uma sucessão de cinco anos, conduzida com método, dados e cultura.

Sucessão não é plano de emergência. É projeto de perenidade

Na maioria das empresas brasileiras, a palavra “sucessão” só aparece em crises: um executivo que pede demissão, um fundador que é afastado, uma liderança que adoece. Ao que tudo indica, a Globo fez o oposto. Tratou a sucessão de seu principal ativo jornalístico como um projeto estratégico de perenidade organizacional.

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Segundo o próprio Bonner, o plano de desacelerar começou a ser desenhado em 2020. Desde 2021, a emissora realizou pesquisas de mercado para testar a aceitação de diferentes nomes, entre eles, César Tralli, que agora assumiu a bancada. E a transição foi dupla: Bonner não era apenas apresentador, mas também editor-chefe, função agora assumida por Cristiana Sousa Cruz, sua adjunta havia seis anos. A Globo não apenas substituiu pessoas, mas estruturou continuidade de função e de cultura.

O caso Bonner nos lembra de um dilema comum em organizações de todos os tamanhos: a dependência de heróis corporativos. Aquele diretor que centraliza tudo. O fundador que “tem tudo na cabeça”. O gerente que é o único a saber o “pulo do gato”. Negócios que dependem de uma única pessoa estão sempre a um passo do colapso. A sucessão, portanto, não é sobre substituição, mas sobre preservar valor. Sobre proteger a reputação, os processos e o conhecimento que sustentam o negócio.

Empresas que se preparam reduzem riscos e garantem estabilidade. Empresas que ignoram o tema viram reféns de improviso, desgaste e rupturas.

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Legado não é ser indispensável. É ser replicável

O verdadeiro legado de uma liderança está em deixar sistemas, processos e pessoas capazes de seguir o caminho, com ou sem ela. Bonner afirmou ter trabalhado em um processo de sucessão que deixa uma cultura de rigor editorial, confiança do público e credibilidade. Por trás desses valores, vemos também sucessores treinados, equipes maduras e uma governança que prioriza continuidade em vez de personalismo.

Nas empresas, o mesmo princípio vale. Uma sucessão bem conduzida:

Para que uma sucessão não se torne um trauma organizacional, ela precisa começar antes de qualquer anúncio. O primeiro passo é mapear cargos-chave e desenhar planos de sucessão mesmo quando não há previsão de mudança. Ainda que o único mapeado inicial seja o CEO, esse exercício força a empresa a olhar para dentro, identificar vulnerabilidades e preparar talentos. Ter clareza sobre o tempo médio ideal de transição, o nível de exposição pública da função e os perfis de sucessores potenciais ajuda a reduzir riscos e evita decisões tomadas sob pressão. Empresas maduras também treinam sucessores de forma contínua, rotacionam executivos em diferentes áreas e testam o preparo de lideranças em projetos estratégicos. Tudo isso para que a transição, quando acontecer, seja um processo natural, não um improviso.

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Outro ponto essencial é o plano de comunicação da sucessão, tanto interno quanto externo. Ele deve ser definido muito antes da transição e considerar cenários sensíveis. Imagine o caso de um fundador querido, mas envolvido em práticas irregulares: nesse contexto, colocá-lo como porta-voz da substituição seria um erro estratégico e reputacional. Por isso, o plano precisa definir quem comunica, quando e como, garantindo coerência entre a mensagem e os valores da empresa.

O Conselho de Administração tem papel central aqui: cabe a ele monitorar a maturidade do processo, assegurar transparência e evitar personalismos. Em sucessões bem planejadas, a comunicação é gradual, as lideranças são preparadas com antecedência e a narrativa é construída em torno da continuidade da cultura e da perenidade do negócio, não da saída de uma pessoa.

Lições práticas para empresas: como transformar sucessão em sistema

A sucessão não termina quando o novo líder assume. Ela só se completa quando a organização comprova que continua saudável, coerente e produtiva. Por isso, o período pós-transição deve ser tratado como uma fase de monitoramento e consolidação, em que a governança acompanha se o plano executado realmente entregou os resultados esperados.

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O primeiro passo é definir o que significa sucesso antes da troca e medir depois: estabilidade operacional, continuidade da estratégia, preservação dos valores e engajamento dos times. O conselho deve acompanhar esses indicadores com um olhar técnico, mas também cultural. Deve avaliar se as decisões continuam refletindo o propósito e a identidade da empresa.

Nos meses após a sucessão é essencial observar se a retenção de talentos críticos foi preservada, se o nível de engajamento interno e a percepção de coerência cultural permaneceram altos e se há reflexos no desempenho do negócio como, por exemplo, manutenção de clientes estratégicos, aumento nas vendas ou atração de novas oportunidades. Assim como a Globo monitorou a reação do público e dos anunciantes à nova formação do Jornal Nacional, as empresas devem acompanhar seus próprios “índices de audiência corporativa”: se o mercado segue confiante, se os times continuam conectados e se a marca mantém credibilidade e resultados.

Com base nesses sinais, o Conselho e a liderança podem ajustar rotas, reforçar comunicações e, quando necessário, apoiar a nova gestão em eventuais pontos de desalinhamento. O mais importante é entender que a sucessão não é um evento pontual, mas um sistema de continuidade, que precisa ser testado, medido e aperfeiçoado a cada ciclo.

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Sucessão é estratégia, não despedida

Ao entregar o comando do Jornal Nacional, Bonner não apenas se despediu. Ele entregou um plano e mostrou, ao vivo, que sucessão é sobre perenidade. Foi uma aula prática de governança: planejamento, transparência, gestão de riscos e comunicação alinhada com propósito e valores.

Empresas que ainda veem sucessão como “ameaça” precisam rever o conceito. Sucessão é continuidade inteligente. É o que garante que o show (ou o negócio) continue, com o mesmo propósito, mesmo quando as vozes na bancada mudam.

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Luciana Silveira

Luciana Silveira é executiva especialista em Governança Corporativa, Gestão de Riscos e Compliance, fundadora do GRC Fora da Caixa. Com mais de 20 anos de experiência na área, atua na construção de uma nova forma de pensar e comunicar o GRC, unindo teoria à prática, com profundidade técnica e leveza editorial.