Eu não sou um herói (mas definitivamente um guerreiro)

Por isso se fala tanto em “prêmio de risco” no mercado financeiro. Aqueles que o assumem e não são exercidos por ele, são premiados

Lucas Collazo

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Caros(as) leitores(as),

Creio veementemente que a vida possui uma correlação razoável com a lógica do mercado financeiro. Jamais teria a pretensão de romantizar os ativos financeiros e a indústria financeira em si, mas é complicado quando se consegue enxergar por esse prisma, por essas lentes.

Dito isso, a ponta passiva da vida é a coragem. O custo de capital, de funding – é o que você entrega para receber algo do outro lado.

A definição de um ser corajoso num dicionário tem pouco valor. Na minha concepção, coragem não é dar o próximo passo em meio à neblina, quando apenas se enxerga um único degrau adiante.

Não, coragem é dar o próximo passo sem nem mesmo ver o chão. Para prosperar, seja na vida ou nos investimentos, é preciso praticar esse ato.

Vocês podem estudar décadas sobre um determinado ativo, um cenário, uma conjuntura. O acaso sempre vai existir, a aleatoriedade, aquilo que você não enxerga e por isso não consegue aprender sobre.

Risco não se vê, se toma.

Aceitar que ele é uma coisa normal, sempre vai existir, faz parte da sua existência e se mover da mesma forma. Pode soar como um ato de irresponsabilidade, mas é o mais responsável a se fazer.

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Por isso se fala tanto em “prêmio de risco” no mercado financeiro. Aqueles que o assumem e não são exercidos por ele, são premiados.

Claro, ele vai eventualmente ganhar algumas batalhas, não tenha dúvida nenhuma disso, por isso é sempre necessário exercitar sua humildade e assumir seus erros. Porém, com consistência, acertar marginalmente mais do que errar, ao longo dos anos, vai sim te tornar mais rico.

Colecionar esses prêmios é o que fez qualquer investidor(a), atleta, empresário(a), bem-sucedido(a). Não persegui-los é aceitar a mediocridade do CDI, por exemplo – e, veja, nem é uma má ideia assim, esse grande maratonista vai muito bem, obrigado.

Mas você também pode escolher não aceitar esse “status quo” e se opor a ele. Todas essas falas parecem estimular o heroísmo, mas é o oposto…


Eu não sou um herói (nunca quis ser um).

“Tomar risco” é bonito em palavras, ainda mais belo quando olhamos os casos de vitórias excessivas, aquilo que chegou do outro lado e concluiu esse processo de coleta de forma efetiva. No entanto, o trajeto sempre é duro, regado a sofrimento, dor, cicatrizes, sacrifícios.

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Renunciar ao confortável CDI, é um sacrifício. Deixar de estar com a família para passar mais tempo da sua vida num escritório, é um sacrifício. Dar o próximo passo sem ver o chão, é mais do que um mero sacrifício, é sacrificar a si mesmo.

São atos de frieza, calculistas, pautados em fundamentos e não devaneios, sentimentais. No mercado financeiro ou na vida, o certo é “jogar” com o fígado e não com o coração.

Isso é o oposto de heroísmo. Parece muito mais um ato de guerrilha, um soldado, um general, Winston Churchill.

Durante a segunda guerra mundial, Churchill fez escolhas difíceis. Se você vasculhar a fundo e reviver casos como a região de Bengala, no leste da Índia, e parte do Bangladesh, foi palco de uma triste crise alimentar e que geraram críticas severas ao líder do governo britânico.

Ele precisou tomar decisões duras sobre os recursos durante os conflitos contra o império alemão. Claramente não heroicos, muito menos que gerem sensação de orgulho e alegria.

Fez o que achava que precisava ser feito para impedir o triunfo de Adolf Hitler. Dito isso, esqueça as suas emoções, muitos ativos estão ridiculamente baratos.

Não apenas no Brasil, mas especialmente por aqui, perto de nós. É claro que, assim como na vida, o caminho é doloroso, o que no mercado se traduz em volatilidade.

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Em detrimento de atos heroicos, você não precisa “comprar” ações de empresas com endividamento alto ou casos de mudança empresarial na companhia. Ser racional e adquirir negócios sólidos, defensivos, em setores previsíveis, já é uma ideia brilhante do ponto de vista de retorno.

Você só vai precisar ignorar os “balanços” do mercado, o noticiário ruidoso, a vontade de investir todo o dinheiro em renda fixa. Cometer atos de sacrifício, com o fígado, com consciência.

Cultivar a sabedoria de que pode estar errado, e caso esteja, recolha suas coisas, venda sua posição e volte para casa. Por outro lado, se você estiver certo, o prêmio ao risco que você assumiu será proporcional ao quão maluca soou essa ideia no começo.

Num texto completamente não convencional, talvez você não entenda ao certo a ideia. O que me conforta é que se todos entendessem o que estou dizendo e fazendo, talvez eu já estivesse atrasado.

Que lembrem de mim como quem comprou bolsa brasileira quando todos diziam ser uma péssima ideia. Que lembrem de mim não como um herói, mas como um guerreiro.

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Lucas Collazo

Host e conselheiro no fundo do Stock Pickers | Especialista em alocação e fundos de investimento no InfoMoney