O que é melhor: 107,5% do CDI ou 100% do CDI?

A pergunta parece absurda, mas serve para dar uma dimensão do tamanho do benefício tributário que os ETFs de Renda Fixa possuem em relação aos fundos de renda fixa e multimercado

Leonardo Vasques

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Nos últimos dois anos, o mercado de ETFs brasileiro mais que dobrou em patrimônio e quantidade de ETFs, atingindo quase 200 ETFs e R$ 118 bilhões em abril de 2026. Esse crescimento tem sido puxado em grande parte pelos ETFs de Renda Fixa, que somam R$50 bilhões.

O volume parece grande, mas ainda é pouco comparado com uma indústria de fundos de Renda Fixa com mais de R$4,4 trilhões de reais. Os ETFs de Renda Fixa trazem benefícios concretos ao investidor, tanto de transparência e simplicidade, como de rentabilidade dado seu regime tributário que favorece a acumulação no longo prazo.

Isto porque os ETFs possuem uma alíquota fixa de IR, geralmente de 15% (para aqueles que tem prazo médio de repactuação acima de 2 anos) que é cobrada apenas no momento da venda, sem o come-cotas que incide sobre os fundos em geral.

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Por que o come-cotas é importante

O come-cotas é uma antecipação de imposto cobrada semestralmente, ao fim de maio e de novembro, dos fundos de investimento de renda fixa e multimercado. Na maioria dos casos (fundos de longo prazo), é uma alíquota de 15% incidente sobre a rentabilidade do período.

Como ela varia para cada investidor, dependendo do momento de entrada no fundo, o come-cotas é cobrado não dentro da carteira do fundo, mas sobre a posição individual de cada investidor, via a redução da quantidade proporcional de cotas detidas. Por isso o nome de come-cotas.

Este sistema de cobrança gera uma distorção na percepção do investidor sobre seu retorno. O que ele está efetivamente recebendo fica muito aquém do que as cotas dos fundos rendem no longo prazo. 

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No caso dos ETFs, isso não ocorre. Uma das pré-condições para o surgimento dos ETFs de Renda Fixa foi a isenção do come-cotas, pois o mesmo é impraticável nesse tipo de produto. Como as cotas são negociadas em bolsa, não é possível cobrar uma fração da posição como imposto, como ocorre nos demais fundos.

Com isso, a legislação tributária criada para os ETFs prevê o pagamento do imposto apenas no momento da venda, via retenção na fonte, sem DARF.

Qual o impacto na prática?

Um fundo que tenha rendido próximo a 100% do CDI entre novembro e maio, por exemplo, teria sua cota valorizada em pouco mais de 6.3%. Isso significa que o investidor pagaria via come-cotas o equivalente a 0.95% da sua posição.

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Se o CDI render novamente 6.3% nos 6 meses seguintes, este investidor terá deixado de ganhar 0.06% em comparação com um veículo sem come-cotas.

Parece muito pouco, mas o efeito do come-cotas é cumulativo, portanto, ele fica maior quanto mais longo for o prazo de investimento!

Ou seja, no período seguinte, o investidor deixa de ganhar sobre o quanto foi recolhido em todas as janelas anteriores. Como no ETF isso não ocorre, o investidor fica acumulando os rendimentos sobre os rendimentos dos períodos anteriores ou “juros sobre juros”.

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Essa diferença fica clara nos gráficos seguintes, simulados com base no retorno do CDI entre 31 de janeiro de 2005 e 14 de maio de 2026. Foram simulados dois investimentos diferentes, um ETF de Renda Fixa que renda 100% do CDI diariamente e um fundo, sujeito a come-cotas, com rentabilidade de 107.5% do CDI apurado diariamente, algo quase impossível de encontrar dada a volatilidade necessária para se obter esse tipo de rendimento anualmente.



O primeiro gráfico mostra o quanto o investidor veria de rentabilidade nesses investimentos. Dado o nível do CDI nesse período, essa diferença de 7.5% do CDI resultaria numa diferença de cerca de 150%.

A decisão para o investidor parece óbvia nesse cenário; por que investir em algo que renderia tanto a menos? 

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A conta do retorno real para o investidor, ou seja, do que ele efetivamente receberia caso resgatasse seus investimentos é bem transparente no caso dos ETFs. Um retorno bruto de 760,9%, aplicada a alíquota de 15% de imposto, resulta em 646.8%.

No caso do fundo, essa conta é menos óbvia. Isto porque temos de descontar o imposto semestralmente, de modo a refletir a incidência do come-cotas ao longo do período.

O resultado é que dos 911.7% de rentabilidade da cota, apenas 621,25% efetivamente ficariam para o investidor, e 25% menos que no caso do ETF, mesmo tendo uma rentabilidade consistentemente inferior.



Mas é possível investir em CDI via ETFs?

A legislação tributária criada para os ETFs de Renda-Fixa penalizou os instrumentos pós-fixados, criando a necessidade de um prazo médio de repactuação de 2 anos (720 dias) para que esses possam ter a alíquota de 15%.

Isso significa que os ETFs puramente pós-fixados, como os de LFTs (Tesouro Selic) por exemplo, possuem uma alíquota de imposto de 25%, e não os 15% do exemplo acima.

No entanto, há no mercado ETFs, como o LTBX11, que combinam carteiras de LFTs com uma posição em NTN-B (Tesouro IPCA+) de modo a gerar o enquadramento necessário para a alíquota de 15%. Esses ETFs possuem baixa volatilidade e rentabilidade muito próxima ao CDI, principalmente em janelas mais longas.

Nas janelas abaixo de 6 meses, se beneficiam da alíquota fixa de 15% enquanto fundos e CDBs possuem alíquota de 22.5% nesse período, além de não terem a incidência do IOF regressivo nos 30 primeiros dias

O crescimento dos últimos meses mostra que cada vez mais investidores começaram a entender essas vantagens, mas num país onde bilhões ainda permanecem em produtos pouco eficientes como a poupança, muitos investidores que ainda não conhecem os ETFs de renda fixa estão deixando dinheiro na mesa.

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Leonardo Vasques

É Portfolio Manager na XP Asset Management, onde integra a equipe responsável por estratégias de ETFs e fundos indexados. Ele ingressou na XP Asset após concluir um ciclo profissional de 25 anos na indústria de investimentos, período no qual desenvolveu expertise robusta em gestão, ETFs e produtos beta