Uma casa de férias não é um investimento. E confundir as duas coisas tem custado caro ao investidor brasileiro

Custos operacionais, tributação e gestão complexa transformam muitas vacation homes em ativos menos rentáveis do que parecem

João Vianna

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Toda semana recebo mensagens de brasileiros considerando comprar uma “segunda casa” em Orlando, Miami ou Naples como forma de investir em dólar. A pergunta normalmente vem disfarçada em uma promessa: “vou usar nas férias e alugar o resto do tempo, então ela se paga sozinha”.

Essa é uma das falácias mais caras no mercado imobiliário.

Comprar uma vacation home e fazer um investimento imobiliário são duas decisões financeiras diferentes e, na maioria dos casos, incompatíveis. A confusão entre as duas explica boa parte da frustração que escuto em várias histórias semelhantes.

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O ativo que parece ativo, mas é passivo

Um investimento gera caixa líquido positivo de forma consistente, com previsibilidade razoável e exigindo o mínimo possível de gestão ativa do alocador. Uma vacation home raramente cumpre esses três critérios.

Vamos começar pelo lado da receita. Em destinos turísticos da Flórida, a ocupação anual saudável tipicamente fica entre 50% e 65%, mas a receita não se distribui de forma uniforme: a alta temporada concentra a maior parte do faturamento, e a baixa temporada come margem com manutenção e contas correndo sem hóspedes.

A receita bruta de alta temporada cria a ilusão de retorno; o cálculo anualizado e líquido conta outra história.

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Depois vem o lado dos custos, que o investidor brasileiro sistematicamente subestima. Em uma vacation home na Flórida é razoável esperar IPTU sem o benefício do homestead exemption (que se aplica apenas à residência principal), seguro de propriedade significativamente mais caro devido à atividade de locação intensa e taxas recorrentes em condomínios planejados.

Soma-se a isso o property management profissional consumindo entre 20% e 30% da receita bruta de aluguel de curto prazo, custos contínuos de cleaning, reposição e depreciação acelerada de mobília e amenities, além de tourist development taxes e sales tax sobre estadias curtas, que somados podem chegar a 12%–13% dependendo do condado.

Quando todos esses custos entram na conta, o NOI, net operating income ou resultado operacional líquido, que sobra, raramente justifica o capital investido. E ainda nem chegamos no terceiro problema: o tamanho do trabalho.

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É um pequeno hotel — e você é o gerente

A indústria de “vacation rentals” foi vendida ao investidor pessoa física como “renda passiva”. Não é. Operar um imóvel em Airbnb, VRBO ou Booking de forma rentável é gerir um pequeno hotel: precificação dinâmica, gestão de múltiplos canais, atendimento ao hóspede em horário comercial e fora dele, controle de qualidade, manutenção rápida, conformidade com regulação local de short-term rental, que mudou bastante nos últimos anos em vários condados, e gestão de reviews, que viraram o ativo mais frágil da operação.

Quem terceiriza para uma operadora local paga caro por isso (os 20%–30% mencionados acima) e mesmo assim continua tendo que tomar decisões.

O proprietário brasileiro, morando a seis mil quilômetros, com fuso e idioma diferentes, normalmente descobre isso na pior hora, quando o ar-condicionado quebra em julho, a operadora não responde, e um review de uma estrela trava o algoritmo da plataforma por três meses.

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A surpresa tributária

O ponto que mais vejo sendo subestimado é a tributação. Como regra geral, um não-residente que aluga um imóvel nos EUA está sujeito a uma retenção de 30% sobre a receita bruta de aluguel, não sobre o lucro, sobre a receita.

Existe uma eleição (Effectively Connected Income, ou ECI) que permite ser tributado sobre o lucro líquido em alíquotas progressivas, mas exige declaração anual no IRS, escrituração formal, número fiscal americano e, em muitos casos, uma estrutura societária para fazer sentido econômico.

Na venda, há ainda o FIRPTA: retenção de 15% sobre o valor bruto da transação quando o vendedor é estrangeiro. É caixa preso até o IRS reconciliar a apuração, o que pode levar meses.

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Some a isso a complexidade do lado brasileiro, apuração de ganho de capital em moeda estrangeira, declaração de bens no exterior, eventual CBE ao Banco Central acima do limite, e o que parecia uma forma simples de “ter um pé em dólar” vira um custo administrativo recorrente que precisa ser dimensionado antes da compra, não depois.

O que diferencia vacation home de investimento real

A pergunta correta na hora de avaliar um imóvel nos EUA não é “essa casa é bonita?”. E sim: o ativo que estou comprando atende a quem realmente compra imóveis nesta região? Tem liquidez de saída? Tem demanda estrutural de moradia, não de turismo, que é cíclico e altamente regulado?

O retorno projetado, líquido de tudo, em dólar, compensa o risco e o custo de oportunidade do mesmo capital em outros investimentos?

Investimento imobiliário sério nos EUA passa por demanda de moradia primária, não pelo sonho de férias do comprador. A Flórida, por exemplo, deve adicionar mais de 305 mil novos moradores por ano até 2030, segundo projeção oficial do estado. Esse é o vetor que sustenta o valor de longo prazo.

Já o mercado de aluguel de curto prazo é cíclico, sensível à regulação municipal e exposto à concorrência crescente de novos entrantes amadores que pressionam diárias para baixo enquanto os custos sobem.

O ponto final

Não há nada de errado em comprar uma segunda casa para usar com a família. Para muita gente é a realização de um sonho: um lugar onde a família se reúne, onde os filhos crescem em férias compartilhadas com amigos, onde o tempo desacelera.

Esse valor é real, ainda que não apareça em nenhuma planilha, e perseguir isso é parte de uma vida boa.

O problema é classificar consumo como investimento, porque a partir daí toda decisão fica errada: você toma mais risco achando que está se protegendo, paga mais caro achando que está economizando, e ignora o custo de oportunidade do mesmo capital alocado em um ativo de fato eficiente.

A pergunta que vale fazer antes de assinar a proposta de uma vacation home é simples: se essa casa não fosse usada por mim ou pela minha família nem um dia por ano, eu ainda compraria pela tese financeira pura?

Se a resposta for não, ótimo, você está comprando uma casa de férias, e essa é uma decisão de consumo. Apenas não a contabilize como investimento na sua planilha de patrimônio.

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João Vianna

João Vianna é economista, fundador da Invisto e cofundador da Loft. Atualmente lidera fundos de investimento imobiliário nos Estados Unidos, com foco no desenvolvimento de imóveis de alto padrão na Flórida.