A 2ª década perdida da economia brasileira

O Brasil crescerá em torno de 1% pelo 3º ano seguido. Depois de enfrentar duas quedas consecutivas de 3,5% em 2015-16. O que está acontecendo?

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O que está acontecendo?

O Brasil crescerá em torno de 1% pelo 3º ano seguido. Depois de enfrentar duas quedas consecutivas de 3,5% em 2015-16, não é exatamente uma recuperação invejável.

Na história recente brasileira, a média de crescimento pós-recessão foi de 4,2%, enquanto que, neste ciclo, estamos testemunhando uma taxa ao redor de 1%.

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O gráfico acima é chocante per se. Existem inúmeros motivos conjunturais para tentar explicar resultado tão pífio do lado da demanda, como a nova desaceleração da Argentina, greve dos caminhoneiros, freio de mão por conta das incertezas eleitorais, Lava-Jato, contração dos recursos parafiscais do BNDES, etc. Mas, o corolário desse gráfico é ainda pior.

Como aprendemos em Economia 101, se a demanda está crescendo acima da oferta, o preço sobe. O inverso é verdadeiro. Portanto, o desvio da inflação em relação à meta pode nos ser útil para descobrirmos se estamos crescendo mais ou menos do que nosso potencial.

A análise da taxa de desemprego também poderia ser útil, mas nesse caso, existem outras forças independentes do ciclo econômico que podem mover a oferta de mão de obra, principalmente aquela fração que está à margem da PEA e decidiu voltar a procurar emprego. Isso afetaria o desemprego sem ter um sinal inequívoco sobre o PIB vs. o potencial.

Fiquemos com a inflação. Como disse acima, e a literatura econômica é recheada de evidências, se o hiato está aberto (PIB efetivo > PIB potencial), a inflação deve subir em relação à meta (lembram-se da lição de Economia 101?). O inverso é verdadeiro. Podemos usar teses sobre fricções e rigidez de preços para questionar alguns casos em que isso não ocorre, mas deixaria o tema mais complexo e fugiria ao escopo desse artigo.

Ao longo do período da recessão de 2015-16, a parte da inflação mais sensível ao ciclo econômico simplesmente desabou. Saiu do patamar de 9-10% para 3%. O IPCA não teve um comportamento tão longe, saindo da faixa de 11%, minguando abaixo de 3% e mais recentemente voltando para o patamar de 4%.

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A análise sobre a taxa de inflação nesse período de crescimento pífio (2016-2018) diz muito sobre as entranhas da economia brasileira. Para simplificar, ir direto ao ponto e expurgar alguns choques que ocorreram nesse triênio, vou ignorar que a inflação veio abaixo de 3% e que voltou a bater 4,5%. Na média ficou em torno de 3,7%. Portanto, sensivelmente abaixo da meta de 4,5% (ou mesmo de 4,25%).

Vamos parar pra pensar. Se a demanda no Brasil cresceu tão pouco, porque a inflação não continuou caindo? Porque ela caiu até a faixa dos 3,5% e ficou? Se quiser ser detalhista, porque ela cedeu até os 3% e depois voltou pra perto dos 4% mesmo com a demanda tão fraca?

Nossa tese é: a economia brasileira abriu um hiato de cerca de 4-4,5% nos últimos 5 anos, com forte destruição de capital físico, humano e tecnológico. E o resultado disso é uma queda da taxa de crescimento do produto potencial da economia para cerca de 1-1,5%.

Portanto, estamos crescendo nesse triênio exatamente o nosso potencial, o que faz com que a inflação pare de se distanciar da sua meta (repare no gráfico como tivemos uma fortíssima desaceleração da inflação e ela parou de se distanciar da meta ali pelo final de 2017), mas tampouco tenha forças para voltar para a mesma uma vez que aquele hiato aberto nunca mais foi fechado. A derivada do hiato importa, mas o nível também importa.

Para responder a pergunta inicial do artigo, “o que está acontecendo?”, a resposta é simples: Nada. Estamos apenas seguindo a trajetória do que é possível, dadas as nossas possibilidades físicas e humanas. Não é mais possível crescer, como em outrora, na base do estímulo de demanda e do uso dos recursos disponíveis de maneira artificial. A China tampouco será fonte adicional de surpresas positivas.

Para não termos a 3ª década perdida em 50 anos, precisamos de muitas reformas do lado da oferta. Do jeito que está, continuaremos batendo a cabeça no teto, que está cada vez mais baixo ou poderemos até voltar a crescer com a morfina dos estímulos públicos e o resultado é um velho conhecido que não morreu, mas está hibernando, a inflação.

*Ivo Chermont é sócio e economista-chefe da Quantitas Asset

*As opiniões do autor refletem uma visão pessoal e não necessariamente da Instituição Quantitas Asset

Ivo Chermont

Sócio e Economista-chefe da Quantitas Asset