O que a história de Tom Brady tem a ver com analistas que tentam prever o futuro da bolsa

Previsões de mercado proferidas pelos chamados especialistas sobre para onde vai a Bolsa ou o dólar nada mais são que tentativas (frustradas) de se prever o futuro

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A Superbowl é o evento esportivo de maior audiência televisa dos EUA, com mais de 100 milhões de espectadores, e vem ganhando adeptos no mundo inteiro. Há duas semanas estava visitando o norte do Brasil, e decidi assistir à grande final. O resultado foi fácil de prever até para mim, que não acompanho o futebol americano: vitória do New England Patriots, capitaneados por sua estrela, Tom Brady.

A história de Brady é interessante e nos ensina bastante. O sistema da NFL de escolha dos jogadores é bem diferente, especialmente para nós brasileiros. É um sistema de escolha dos melhores jogadores que saem do high school e Brady foi escolhido após 198 outros jogadores, na sexta rodada – são 7 ao total.

Isso significa que Tom Brady, considerado por muitos atualmente como o melhor jogador de todos os tempos, quase não foi escolhido para se tornar jogador profissional da principal liga de futebol americano.

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O mercado financeiro não é diferente: previsões de mercado proferidas pelos chamados especialistas sobre para onde vai a Bolsa ou o dólar nada mais são que tentativas (frustradas) de se prever o futuro. Gastam-se bilhões em programas de computador, analistas e modelos que tentam prever o que acontecerá com a economia e todo tipo de aparato para dizer quando é o melhor momento para comprar ou vender, quando, na verdade, o bom senso deveria ser a regra.

A grande verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer amanhã e é necessário humildade e muito trabalho para se alcançar bons resultados. Novas técnicas de investimento e modelos são inventados constantemente, e todos possuem falhas – obviamente, senão existiria um modelo ideal e sem risco para se ganhar sempre, o que é impossível.

Já trabalhei com inúmeros modelos de risco e cheguei a conclusão de que o único que realmente funciona – ou melhor, o único que tem menor downside – é comprar barato. Quando se compra um bom ativo a um preço baixo, eliminamos a maior parte dos riscos do negócio, além de potencializamos seu retorno. 

Infelizmente não é o que vem acontecendo no mundo. Os ativos de risco estão chegando perto das máximas alcançadas há cerca de seis meses, sendo que houve uma deterioração no cenário mundial.

Além do mais, vai ser bem difícil para as empresas conseguirem surpreender positivamente os analistas com relação às expectativas de lucro das mesmas – esse é um fator importante no acompanhamento das ações no mercado internacional. Ele é tão importante que as empresas fazem de tudo para maquiar seus resultados e apresentar crescimento no que parece ser a única métrica que importa: o lucro por ação (LPA). 

Essa métrica é tão superestimada, que as empresas gastam bilhões do seu próprio dinheiro para recomprar ações, reduzindo o número de ações no mercado e, consequentemente, aumentando o LPA. O custo dessa operação para a própria empresa no futuro é enorme.

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Vimos o que acontece quando empresas como a GE são obrigadas a reconhecer a perda. Após gastar US$40 bilhões em recompra de ações entre 2015 e 2017 para maquiar seus números, pagar bônus estratosféricos para seus executivos e encantar os analistas, a secular empresa fundada por Thomas Edison viu suas ações desmoronarem mais de 50% em 2018, deixando seus acionistas com um enorme prejuízo.

Já escrevi sobre a imoralidade dos buybacks de ações que vêm acontecendo – eu não sou contra, muito pelo contrário, afinal trata-se de uma forma de remunerar o acionista, mas sou contra os abusos e a maneira das operações de recentemente. Lembrando que as recompras de ações foram liberadas novamente na época do presidente Reagan, depois de vários anos de proibição. Não me assustaria se a restrição retornasse num futuro próximo.

Mas eu divago. Vários analistas já aproveitaram as quedas bruscas no mercado no final do ano para rever suas projeções e reduzir o LPA, abaixando o sarrafo para as empresas. Mas, ainda assim, os riscos estão aumentando.

Eu não tenho a menor ideia do que acontecerá com o mercado esse ano – aliás, ninguém tem, mas posso afirmar que ele não está barato e que os riscos estão aumentando. Agora é hora de ter cautela.

Estamos investindo em algumas ações preferenciais, bonds de curto – prazo de empresas de primeira linha, treasuries e ações ligadas ao setor de urânio – essas últimas, com os valuations perto das mínimas históricas e com grande potencial de apreciação, na minha opinião.

Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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