Maior produtora de urânio do mundo acredita que alta dos preços começa agora

Os executivos disseram que haverá mais compras no mercado spot de urânio nos próximos anos por parte da própria Cameco

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(Crédito: Shutterstock)

Na última sexta-feira, tivemos a conferência trimestral de resultados da canadense Cameco, segunda maior produtora de urânio do mundo. O call não poderia ter sido melhor e as ações da própria empresa e de outras no setor subiram em resposta, apesar do lucro bem aquém do consenso.

Como já mencionei várias vezes aqui e em outros meios, o preço do urânio (U3O8) onde está é insustentável e os preços dos produtos processados (SWU e UF6) a partir dele estão em forte alta. Para se ter uma ideia, o preço do UF6 já sobe mais de 400% desde o final de 2017.

Tanto o CEO quanto o CFO da Cameco reiteraram que é esperado que o mesmo aconteça com o preço do urânio, embora não nas mesmas proporções, e que os preços mais altos de SWU e UF6 são indicadores antecedentes da demanda pelo metal.

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Também foi anunciado que ela já está negociando contratos de longo-prazo com operadoras de reatores (utilities) e que esses contratos levam tempo para serem finalizados. Como já escrevi em um artigo no blog da L2 ano passado, esses contratos podem levar até 9 meses do início ao fim das tratativas.

Os executivos também disseram que haverá mais compras no mercado spot de urânio nos próximos anos por parte da Cameco do que no passado, ou seja, a demanda pelo metal pela própria Cameco é alta.

Apenas para recapitular, a companhia decidiu fechar a mais produtiva mina do planeta, a de McArthur River, devido aos baixos preços da commodity, a fim de preservar suas reservas de alta qualidade. Para honrar os contratos vigentes, ela passou a comprar no mercado à vista, ou seja, de vendedora ela se tornou compradora do produto.

A comercialização de urânio se dá primordialmente por meio de contratos de longo prazo. No mercado à vista, spot, são negociados volumes menores que servem apenas para atender ofertas e demandas mais imediatas.

Desde que passou a recorrer a compras para cumprir seus compromissos contratuais, a empresa passou a atuar nesse mercado. Na conferência, os representantes da empresa também comentaram que o spot é formado principalmente por traders, que ficam movendo estoques de urânio de um lado para outro. Esse estoque continua disponível, já que não é vendido para utilities, que consomem o material efetivamente.

Devido a fatores que já explorei anteriormente, o menor nível de atividade no setor fez com que enriquecedores de urânio operassem com capacidade ociosa. Em virtude disso, eles ficaram em condições de reprocessar as sobras de urânio com baixa concentração do isótopo U-235 para enriquecê-la até os níveis necessários à fabricação do combustível nuclear.

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Esse fenômeno recebe o nome de underfeeding e constituiu uma fonte adicional de material no mercado. Eu conversei pessoalmente com o CFO da Cameco em setembro e ele me disse que acredita que já passamos do pico do problema causado pelo underfeeding, que, de agora em diante, deve diminuir até acabar nos próximos anos.

Na mesma oportunidade, ele também me disse que as utilities estão com a capacidade toda tomada em material do Uzbequistão e Cazaquistão e que a segurança da oferta será cada vez mais valorizada.

Existem várias incertezas no momento, como as sanções ao Irã e à Rússia e a guerra comercial sino-americana, para citar algumas, de sorte que jurisdições menos expostas a riscos regulatórios e geopolíticos podem ter predileção por parte das compradoras de urânio no momento da contratação.

Enfim, os executivos da empresa, que possuem um track record invejável no setor, acreditam que o momento da transição dos preços baixos para valores mais adequados está bem próximo. Sou obrigado a concordar.

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar.

O autor detém e negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária e/ou na de clientes sob sua gestão remunerada.

Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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