A teoria austríaca dos ciclos econômicos nas crises brasileiras

Ao analisarmos a década perdida brasileira (anos 1980), chegaremos à conclusão: os estímulos monetários governamentais geram as crises econômicas

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Guilherme Molina, associado IFL-SP (Instituto de Formação de Líderes de São Paulo), engenheiro e diretor de investimentos em Private Equity.

A teoria austríaca dos ciclos econômicos (TACE) é uma teoria monetária, originalmente desenvolvida pelo economista austríaco Ludwig Von Mises, que sustenta que os ciclos econômicos e as recessões são causadas pela criação de dinheiro.

Ao estimular a criação de dinheiro, o governo é o principal causador das crises. O livro “A grande depressão americana” de Murray Rothbard (aluno de Mises) mostra como a intervenção monetária governamental nos EUA durante a década de 1920, foi a causa da grande crise que iniciou em 1929 e durou por toda década subsequente.

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Ao analisarmos a década perdida brasileira (anos 1980), chegaremos a mesma conclusão: os estímulos monetários governamentais geram as crises econômicas.

A TACE pode ser sinteticamente explicada da seguinte maneira: As pessoas possuem preferência temporal pelo dinheiro, ou seja, precisam decidir entre consumir hoje ou poupar e consumir uma quantidade maior no futuro.

Para abdicar do consumo atual, existe uma taxa de juros que as pessoas estão dispostas a aceitar pelo “sofrimento” causado pela opção futura. Esta taxa que equilibra esta preferência temporal de todos indivíduos é a “taxa natural de juros” da economia.

Somando-se toda a quantidade poupada de todos indivíduos, teremos os recursos disponíveis para serem emprestados às empresas e ao governo que reflete esta preferência atual. Quando os bancos e governo emprestam além dos valores poupados, dinheiro artificial é criado na economia.

Ao tomarem emprestado este dinheiro artificial, os empresários farão investimentos para expandir suas capacidades de produção, acreditando que haverá demanda incremental para seus produtos. Os consumidores também terão acesso a este dinheiro criado pelos bancos e comprarão mais bens financiados.

Porém, após um tempo, ficará claro que a expansão não foi sustentada por poupança (as pessoas não ficaram mais ricas), e sim, por dinheiro artificial. O efeito inflacionário deste dinheiro artificial começa a alterar preços de maneira distinta nos diversos setores da economia.

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Os preços são os indicadores de onde há excesso de demanda ou falta de oferta, funcionam como um “GPS”. É através deles que os empresários se guiam para tomar suas decisões de investimentos. Com o GPS desregulado, os empresários fazem muitos investimentos ruins (malinvestments como diria Mises).

Após algum tempo de malinvestments, começam a se formar bolhas em alguns setores (geralmente os mais dependentes de crédito, como o de construção, infraestrutura e bens-duráveis).

Neste momento, fica claro para os empresários que os novos investimentos não darão retorno pois não existe de fato mais demanda na economia. Os empresários começam a demitir pessoas, cancelar obras e vender ativos para readequar sua capacidade produtiva à realidade. Este efeito aumenta o desemprego, reduz o consumo e leva o país a recessão. Esta é a explicação de como se formam os ciclos econômicos.

Rothbard mostra no livro que entre 1921 e 1929 o governo americano não evitou a criação de dinheiro na economia, permitindo que os bancos emprestassem mais dinheiro que havia em seus cofres. Além disto, o FED (banco central americano) ativamente estimulou os bancos a emprestarem recursos para manter a economia aquecida. Estes recursos foram para toda a economia, fazendo com que os empresários tomassem decisões erradas de investimentos.

A maneira de evitar que estes ciclos ocorram é não permitir que haja criação de dinheiro na economia sem poupança. Isto deve ser feito pelo governo através de:

1 – Exigir que os bancos emprestem apenas a quantidade de dinheiro que lhes foi confiada para isto (nas aplicações dos correntistas). Os valores depositados em conta corrente não deverão ser empestados;
2 – O governo não deve salvar os bancos quando estes ficarem com problemas financeiros. Os banqueiros, ao saberem que serão salvos, tendem a correr mais riscos do que normalmente fariam;
3 – O governo não deve imprimir dinheiro e injetar estes recursos na economia como forma de estímulo econômico, ou manipular a taxa de juros da economia;
4 – O governo não deve ser o propulsor dos investimentos. As decisões do governo tendem a ter razões políticas e lhe falta omnisciência para saber qual o melhor setor para se investir.  Em geral o governo é o campeão dos malinvestments. (o governo do PT iniciou e não concluiu quase 5 mil obras nos diversos PACs, equivalente a R$70 bilhões investidos em obras que provavelmente nunca serão concluídas)

Vamos agora analisar os anos entre 1968 e 1980 no Brasil, o período do “milagre econômico”. Com taxa média de crescimento anual de 7%, era o país que mais crescia no mundo.

O período do milagre foi marcado por intervenção governamental, investimentos em infraestrutura, e muita geração de dinheiro sem poupança atrelada (via impressão de dinheiro e empréstimos do Banco do Brasil e diversos outros bancos).

Isto pode ser visto no gráfico abaixo. Entre 1950 até 1969, os investimentos (formação bruta de capital fixo) e a poupança eram equivalentes (basta olhar as duas curvas do gráfico). A parti de 1970, as duas curvas se descolaram, ou seja, começou-se a investir muito mais do que havia de poupança disponível na economia.

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Assim como no caso norte-americano, muitos investimentos se mostraram errôneos no Brasil durante este período, devido os sinais errados que os empresários receberam de crescimento da economia. Além disso, muitos investimentos governamentais não eram financeiramente atrativos, porém foram adiante por questões políticas.

A gota d’água foram as crises do Petróleo que se iniciaram no final da década de 70. O Brasil possuía muitas dívidas em dólar e importava boa parte do petróleo consumido. Quando os principais produtores globais criaram um cartel (OPEP) e resolveram aumentar o preço do petróleo em mais de 10x no período, este impacto abalou profundamente a balança de pagamentos do Brasil.

Estava criada a “tempestade perfeita” e a década de 1980 ficou conhecida como década perdida pelo baixo crescimento econômico, problemas de endividamento e hiperinflação.

Note que, apesar da “tempestade perfeita”, a causa raiz do problema brasileiro foi o boom de crescimento na década de 1970 sustentado por dívida sem lastro em poupança. Como no caso norte-americano, a crise poderia não ter ocorrido se o governo tivesse evitado a expansão inflacionária, ao invés de ter sido o grande gerador dos déficits e inflação do período.

Os exemplos do caso Brasileiro da década de 1980 e o norte-americano da década 1930, mostram como a podemos explicar as crises e ciclos utilizando a TACE.

O fato de a TACE ser pouco conhecida e aceita nas principais faculdades de economia do mundo, faz com que poucas pessoas tenham uma visão clara de porque os ciclos econômicos são gerados. Sua leitura e entendimento deveria ser obrigatória em todos cursos de economia para que os formadores de política econômica atuassem da maneira mais adequada.

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IFL - Instituto de Formação de Líderes

O IFL - Instituto de Formação de Líderes de São Paulo - visa a ser referência nacional na formação de lideranças que impactem a construção de uma sociedade mais livre, que sejam comprometidas com a construção de um Brasil democrático e próspero. Desde 2014 o IFL organiza o Fórum Liberdade e Democracia de São Paulo que tem como propósito alimentar a discussão, engajar a sociedade local e expor alternativas viáveis para mitigar os problemas brasileiros.