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Tudo virou assunto político-partidário: das reuniões de condomínio aos clubes de futebol, da fé às decisões empresariais. Não participar do debate já não é mais uma opção. O “isentão” inevitavelmente será alocado em algum ponto do diagrama de Nolan, que demonstra a posição política de cada um conforme o resultado de um teste ideológico.
Vivemos em uma sociedade cada vez menos plural. Criamos amizades por afinidade e nos aproximamos de pessoas que compartilham valores e opiniões semelhantes aos nossos. As redes sociais replicaram esse modelo mental, conectando-nos a indivíduos de qualquer parte do mundo que comungam da mesma base ideológica. O problema é que isso nos conduz a um isolamento cultural, a uma bolha em que, sem perceber, passamos a ver o mundo apenas sob a nossa ótica.
Não é à toa que manifestantes de direita não compreendem como puderam perder uma eleição, assim como militantes de esquerda não aceitam que o resultado das urnas tenha sido tão equilibrado. Afinal de contas, “todo mundo” nas suas redes sociais pensa da mesma forma.
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O fato é: que tipo de sociedade estamos formando? Sem debate, não oferecemos oportunidade para consolidar nossas opiniões nem para construir argumentos sólidos em defesa de nossas crenças. Pontos e contrapontos devem sempre ser bem-vindos, pois nos permitem amadurecer nossos valores e até mesmo mudar de opinião.
Ainda mais preocupante é perceber que estamos criando uma sociedade menos tolerante, em que a violência derivada de discordâncias políticas pode se tornar aceitável. Uma pesquisa recente da YouGov, divulgada em setembro de 2025 nos Estados Unidos, revelou que 70% da população acima de 65 anos acredita que a violência política é um problema sério. Entre os jovens de 18 a 29 anos, apenas 50% demonstraram a mesma preocupação. Uma possível explicação está na proximidade com a história. Adultos com mais de 65 anos cresceram sob a sombra dos horrores da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Jovens nasceram em tempos de paz, cresceram conectados à internet e habituados às facilidades da tecnologia.
Conflitos geopolíticos têm emergido globalmente, e a sociedade reage polarizada. Não porque haja razões técnicas para polarização, mas porque tudo é interpretado através de lentes ideológicas. Em um mundo hiperconectado, somos expostos continuamente a narrativas sobre um mesmo evento. Uma decisão geopolítica torna-se narrativa política. Uma narrativa política torna-se consternação social. Nada é técnico, tudo é político.
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As análises econômicas, frequentemente reduzidas a modelos econométricos e estatísticas, falham em capturar essa dimensão política da realidade. Economia é, fundamentalmente, ciência social. A observância do comportamento político-social tem papel vital na atividade de um economista. Ignorar a polarização é analisar variáveis econômicas sem compreender a moldura institucional em que estamos inseridos.
Em uma sociedade polarizada, o governo não apenas governa, compete pela legitimidade da narrativa política. A expressão mais tangível dessa competição é a elevação dos gastos com propaganda estatal. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) mais que dobrou os gastos com publicidade na internet em 2024. O orçamento total para comunicação social em 2025 supera R$ 1,5 bilhão, o maior dos últimos dez anos. Isso é promoção estruturada da Presidência da República, não comunicação neutra.
Simultaneamente, o governo enfrenta um temerário cenário fiscal. Gastos crescem acima da arrecadação em termos reais, resultando em endividamento crescente. A Secretaria do Tesouro Nacional estima que, até dezembro de 2026, a dívida atingirá 82,5% do PIB, crescimento de aproximadamente 11 pontos percentuais desde 2022. Essa trajetória força a adoção de política monetária contracionista: juros elevados por mais tempo. A polarização acentuou o desequilíbrio fiscal.
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Aqui reside o ponto crítico. Polarização política não é fenômeno sociológico desconectado da economia. É um dos vetores de ineficiência econômica. Uma sociedade que não consegue debater objetivamente questões de política fiscal jamais conseguirá fazer reformas estruturais necessárias. Não porque faltam técnicos. Mas porque decisões econômicas são reféns de narrativas políticas. O gasto com propaganda estatal é sintoma de que legitimidade governamental depende de gerenciamento de narrativas e resultados econômicos de políticas públicas são secundários.
Para investidores e empresas, isso é criticamente relevante. Uma economia em que gastos públicos crescem porque polarização exige “vitória narrativa” é economia submetida a despesas elevadas do governo, inflação persistente e política monetária contracionista. Juros elevados não recuarão enquanto o Executivo não demonstrar comprometimento com austeridade fiscal. Mas austeridade, em sociedade polarizada, não gera voto. Logo, mantém elevada a taxa de juros estrutural da economia.
O Brasil não vivencia uma crise democrática, e sim uma crise institucional derivada da escolha de politizar tudo. Essa escolha reverbera na trajetória de dívida pública, taxa de juros e sobretudo na eficiência do gasto público. Enquanto o debate econômico estiver preso a narrativas políticas, economistas e investidores devem calibrar projeções. A questão deixa de ser meramente econômica. É institucional.