Ação da Tupy: um dos valores escondidos da bolsa brasileira

BNDESPar e Previ, que fazem parte do bloco de controle, planejam vender sua participação na empresa, o que pode remover a incerteza que impede a alta das ações. Além disso, a companhia, que fabrica peças para motores a diesel, tornou-se um importante player global e paga dividendos de 7% ao ano  

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Dando sequência aos nossos posts, hoje apresentaremos uma nova empresa, a Fundição Tupy. A ação da companhia subiu 13,6% em 12 meses, um pouco menos que o Ibovespa, e acreditamos que é um dos valores escondidos da bolsa brasileira atualmente.

Empresa tradicional fundada em 1938, a Tupy fabrica blocos e cabeçotes de ferro fundido para motores a diesel. Com 13 mil funcionários, tem duas fábricas no Brasil – uma em Joinville-SC e outra em Mauá-SP – e duas no México, voltadas para o fornecimento dos clientes localizados nos Estados Unidos.

Seus principais clientes são: Cummins, Caterpillar, Ford, Mercedes Benz e John Deere.

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Percebe-se logo que é uma empresa que se beneficia com o câmbio, uma vez que 84% da receita advém das exportações e, mesmo tendo sua produção no Brasil, concentra 65% das suas vendas nos EUA, onde é líder de mercado. Em segundo lugar em nível de importância nas vendas, disputam América Latina e Europa.

Antes de entrarmos na análise dos diferencias operacionais da empresa, é importante ressaltar que a empresa passou por um grande processo de restruturação em 2007, que culminou com o ingresso de BNDESPar, a empresa de participações do BNDES, e Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, no bloco de controle (54%).

Depois de mais de 10 anos de realinhamento dos negócios, essas entidades comunicaram sua decisão de vender o bloco de controle, o que acaba gerando sempre uma incerteza em relação à valorização da ação.

O que a experiência nos mostra é que tanto o BNDESPar como a Previ não fazem movimentos de vendas bruscos e procuram realizar as operações de saída através de block trades.

Aí que enxergamos a grande oportunidade de destravamento de valor para a empresa, pois sabe-se que esses processos de saída estão em andamento e, a qualquer momento, esse evento de venda do controle pode acontecer.

Enquanto o evento não ocorre, aproveitemos os dividendos pagos pela empresa, na casa de 7% ao ano.

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Seguindo com a análise da parte operacional, depois de muito trabalho e de um reposicionamento estratégico, a Tupy, hoje, é um importante player global atento às mudanças em seu mercado procurando estar na vanguarda tecnológica.

Seguindo essa linha, a empresa procura enxergar como estará o mundo daqui a 5 anos e posicionar-se de forma competitiva dentro deste cenário.

A aposta se concentra na permanência de uso dos motores a diesel por pelo menos 20 anos para atender tanto os setores agrícolas como os de mineração, onde ainda não faz sentido uma operação com motores elétricos.

Resumindo, a estratégia da empresa é fazer parte da linha de montagem mundial de veículos de carga e máquinas que necessitam de motores fabricados com materiais de maior resistência, como o ferro fundido. O alumínio muito usado para veículos leves não suporta as exigências de um veículo de carga.

Assim, a Tupy procura entregar produtos com alta tecnologia que atendem principalmente os setores de transportes de carga (caminhões e Locomotivas), infraestrutura (Tratores e retroescavadeiras), agronegócio (Colheitadeiras) e geração de energia (Geradores).

Para atender as exigências e evoluções do mercado, os investimentos têm se concentrado em agregar valor aos produtos.

Isso se dará por meio da entrega de mais blocos e cabeçotes usinados, uma vez que existe uma tendência das montadoras de repassar esse serviço às fundições, melhorando as margens do produto e, por consequência, a saúde financeira das fundições.

A propósito, é importante pontuar que sendo o motor uma peça fundamental para um veículo, qualquer dano é um impacto direto na imagem das montadoras, e estas procuram priorizar a qualidade do produto em detrimento do preço.

Continuando no investimento, a empresa investe em torno de 4% a 5% da receita líquida, e um diferencial a ser ressaltado é que os processos industriais são desenvolvidos em conjunto com os grandes clientes, permitindo a customização e a fidelização dos mesmos.

Vemos também empenho da empresa na redução de custos e automação da sua linha de produção com a introdução do conceito indústria 4.0.

Uma outra forma aventada pela empresa para continuar crescendo é por meio de aquisições concentradas no seu mercado principal: os EUA.

Em relação aos mercados em que atua, apesar de algumas incertezas em relação ao futuro dos motores a combustão, a empresa enxerga oportunidades tanto no Brasil, em função da retomada da economia e do mercado de caminhões e agrícola, como nos EUA, onde as oportunidades estão no aumento das vendas de picapes e SUV e também nas máquinas agrícolas e mineração.

E mais: não podemos esquecer que a capacidade produtiva do parque industrial brasileiro é de 5,5 milhões de unidades e, em 2018, fechamos com 2,8 milhões de unidades produzidas, uma ociosidade de quase 50%.

Uma importante questão a ser monitorada é a imposição de barreiras à importação de aço nos EUA e a consequente tarifação de 25%. Essa restrição reduziria o uso da sucata por parte das siderúrgicas, o que aumentaria a oferta e a consequente diminuição de preço, beneficiando a Tupy que utiliza a sucata como matéria prima de seus blocos e cabeçotes.

Como um dos objetivos deste blog é identificar valores “escondidos” nas empresas cabe um comentário sobre a desativação da fundição em Mauá-SP.

A mesma foi desativada em função da baixa demanda por fabricantes de motores a diesel no país. Mas, com a retomada do mercado interno, a empresa terá duas opções: ou reativa a fábrica ou monetiza o ativo. Como o imóvel se encontra em zona densamente habitada, acreditamos que a venda seja a melhor opção.

Outro ponto analisado nos relatórios da Tupy é que podemos ter eventos que beneficiem a companhia em ganhos em processos judicias que podem ajudar numa melhor precificação da empresa.

Sendo assim, uma vez feita esta exposição sobre a empresa, acreditamos que estamos diante de uma bela oportunidade de destravamento de valor.

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João Paulo Reis

É gestor do Venture Value FIA, sócio da Venture Investimentos desde o seu surgimento em 2006, acumulando experiência na seleção e análise das empresas listadas na bolsa de valores.