Por que muitas mulheres que ganham bem ainda não têm patrimônio?

Muitas são empresárias, médicas, advogadas e executivas. Ganham bem, são responsáveis, cuidam de tudo e de todos, mas chegam aos 40 anos sem um patrimônio proporcional ao que conquistaram ao longo da carreira

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Como fundadora do Manas Investem, comunidade e startup de educação financeira para mulheres, conversei entre janeiro e julho deste ano com mais de 400 mulheres para entender como elas lidam com dinheiro e investimentos. Embora cada história seja única, alguns sentimentos se repetem com frequência: medo, insegurança e a sensação de não saber por onde começar quando o assunto é mercado financeiro.

Uma das histórias que mais escuto, e que também aparece em estudos da BlackRock e do UBS, é a da mulher bem-sucedida profissionalmente, que construiu uma carreira sólida, ganha bem e administra múltiplas responsabilidades, mas que, ao olhar para seu patrimônio acumulado, encontra muito menos do que imaginava ter construído ao longo dos anos.

Isso não acontece por falta de disciplina nem por acaso. Trata-se de um conjunto de fatores estruturais que atravessam carreira, maternidade e a forma como as mulheres foram educadas a se relacionar com dinheiro, investimentos e consumo.

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A taxa rosa que não aparece no extrato

É fato que mulheres costumam pagar mais pela versão feminina de produtos e serviços equivalentes aos masculinos. Também recebem menos em cargos semelhantes e, ao longo da vida, são elas que, com maior frequência, interrompem ou desaceleram a carreira para cuidar de filhos, pais e familiares. O resultado é simples: mesmo quando a renda bruta se equipara à dos homens, sobra menos dinheiro para investir. E nenhum produto financeiro foi criado para compensar essa diferença.

Um estudo do Departamento de Defesa do Consumidor de Nova York, de 2015, intitulado From Cradle to Cane: The Cost of Being a Female Consumer (“Do Berço à Bengala: O Custo de Ser uma Consumidora”), analisou quase 800 produtos de 91 marcas e concluiu que itens destinados às mulheres custavam, em média, 7% mais. A diferença chegava a 13% em produtos de cuidados pessoais e a 8% em roupas para adultos.

No Brasil, levantamentos do Procon-SP também identificam distorções relevantes. Em algumas pesquisas, cadernos com temática feminina chegaram a custar até 54,79% mais que versões masculinas, enquanto medicamentos para dor apresentaram diferenças de até 23,54%.

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Educadas para cuidar, não para acumular

Historicamente, mulheres foram incentivadas a consumir, mas não a construir patrimônio. O mercado fala com elas o tempo todo, especialmente sobre beleza, bem-estar, relacionamentos e cuidados. Mas raramente a mensagem é sobre investimentos ou formação de riqueza de longo prazo.

Entre amigas, é mais comum trocar recomendações de tratamentos estéticos do que discutir estratégias de investimento. Não há nada de errado com nenhuma dessas conversas. O problema surge quando apenas uma delas existe e a outra sequer entra em pauta.

O centro gravitacional da família

Filhos, pais idosos, casa e trabalho. A mulher de 40 anos costuma ser o centro gravitacional da família, e isso tem um custo econômico mensurável.

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Em 2023, a economista Claudia Goldin recebeu o Prêmio Nobel por pesquisas que demonstram que grande parte da diferença salarial entre homens e mulheres surge após o nascimento do primeiro filho. Pausas na carreira, redução de jornada e recusa de promoções para acomodar responsabilidades familiares têm impacto direto na renda e na trajetória profissional.

No Brasil, uma pesquisa da FGV mostrou que 48% das mulheres perdem o emprego em até 24 meses após o retorno da licença-maternidade. Já dados do IBGE indicam que elas dedicam, em média, 21,3 horas por semana aos cuidados e afazeres domésticos, quase o dobro das 11,5 horas dedicadas pelos homens.

Menos tempo disponível para o mercado de trabalho significa menor renda e menos recursos para investir, comprometendo a formação de patrimônio ao longo dos anos.

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Dependência financeira disfarçada de conforto

Muitas mulheres delegam a gestão das finanças do lar ao marido ou parceiro. Não por incapacidade, mas porque esse arranjo parece confortável ou porque existe a percepção de que o outro entende mais do assunto.

O problema aparece quando essa dinâmica é interrompida. Estudos de economia comportamental mostram que, após um divórcio, mulheres podem sofrer uma queda de até 30% no padrão de vida e na renda disponível, especialmente quando houve interrupção da carreira durante o relacionamento. Entre os homens, a tendência costuma ser menos severa.

Ninguém ensinou

A educação financeira ainda é insuficiente nas escolas brasileiras. Dentro de casa, o cenário frequentemente se repete: mães que não aprenderam não conseguiram ensinar; em outros casos, nem os pais dominavam o tema; e há situações em que o conhecimento existia, mas não foi compartilhado com as filhas.

Nos encontros que realizei para falar sobre dinheiro e investimentos, percebi que os contextos variam, mas o resultado costuma ser semelhante: o tema simplesmente não era discutido em casa. Esse silêncio é reflexo de uma estrutura que, por muito tempo, excluiu as mulheres do sistema financeiro e cujos efeitos ainda influenciam sua relação com dinheiro e investimentos.

O que pode mudar esse quadro

Romper esse padrão não depende de sorte, mas de decisões concretas. Assumir o controle das próprias finanças, definir um valor mensal para investir, construir uma reserva de emergência em seu próprio nome, buscar educação financeira e falar mais abertamente sobre dinheiro são passos fundamentais.

Antes de tratar a ausência de patrimônio como uma falha individual, vale fazer a pergunta que realmente importa: a sociedade se desenvolveu de uma forma que permite e incentiva mulheres a acumularem riqueza ou apenas para que ela sobreviva bem?


Flávia é advogada, palestrante, empreendedora e fundadora da startup de educação financeira para mulheres Manas Investem. Começou a investir na Bolsa quando tinha 13 anos de idade e atuou para empresas, bancos, gestoras e fundos de investimento em litígios comerciais e do mercado de capitais. Após presenciar a dor e as consequências do desconhecimento sobre investimentos e sobre o mercado financeiro na vida de outras mulheres, decidiu dedicar-se à missão de democratizar o acesso à Bolsa e ampliar a participação feminina no universo dos investimentos