Aumento do crédito consignado: o que muda e quais as consequências?

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Na última quinta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou uma medida provisória que permite desconto de até 10% do salário do trabalhador, direto da folha de pagamento, destinado ao pagamento de fatura de cartão de crédito. Se for aprovado no Senado, o limite do crédito consignado subirá para 40%.  

A primeira pergunta que faço é: o motivo de uma pessoa procurarcrédito consignado é porque não consegue pagar a dívida que contraiu com o próprio orçamento, então, recorre à empresa. Mas, se com o salário inteiro já estava difícil passar o mês, como fará com apenas 60% dele? Muita gente acaba fazendo mais empréstimo para pagar outros, sem nenhum planejamento, virando uma bola de neve.

Basta fazermos a seguinte conta: com um ganho mensal de R$ 2 mil, a pessoa que tiver 40% dele reduzido por conta do crédito consignado, receberá somente R$ 1,2 mil. Só para termos uma noção, esses mesmos R$ 800 descontados, se fossem aplicados em uma poupança, por exemplo, em 10 anos, se transformariam em R$ 217.079,70 (com correção anual de 10% de inflação real).

Esse é o caminho da educação financeira: poupar antes de gastar, e não gastar antes e se virar como pode para pagar depois. Além de fazer os juros trabalhar a seu favor (rendimento) e não contra você (dívidas), dá para conseguir bons descontos pagando à vista e evita comprometer o orçamento dos outros meses com parcelas.

É claro que, no caso de pessoas que já estão endividadas no cartão de crédito, por exemplo, e precisam resolver o problema, pode ser vantajoso descontar essa quantia direto da folha, por causa dos juros cobrados – segundo o Banco Central, a taxa média cobrado pelo empréstimo consignado é de 26,5% ao ano, enquanto que os juros do cartão crédito ultrapassam a marca de 290%, de acordo com a Anefac.

De qualquer maneira, essa não é uma prática que deve ser feita por impulso, é preciso planejamento. E agora sim voltamos ao assunto da educação financeira. De nada adianta resolver apenas pontualmente um problema, é preciso ir direto à causa dele, pois, caso contrário, nunca deixará de existir e poderá voltar até com mais força no futuro. O endividamento e a inadimplência são uma realidade da população brasileira, porque nunca fomos ensinados a como lidar com o dinheiro, apenas a gastá-lo.

Felizmente, muitas instituições de ensino (particulares e públicas), empresas e pessoas físicas estão investindo nesse conhecimento, o que, em longo prazo, terá resultados maravilhosos, construindo uma sociedade mais sustentável e consciente em todos os sentidos.

Sobre o aumento do limite do crédito consignado, embora possa até minimizar o problema de muitos, acredito que, em paralelo a isso, os governantes deviam pensar em investir em programas de educação financeira, até porque, as ferramentas de crédito não são o problema, mas sim a maneira como as pessoas as utilizam. Não adianta oferecer meios para soluções paliativas e não ensinar formas de viver corretamente com o dinheiro que se tem.

Reinaldo Domingos

Reinaldo Domingos é presidente da Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros), autor de vários livros e criador da Metodologia DSOP de Educação Financeira.